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O último campino da lezíria

Manuel Borda d’Água tem 86 anos. Vive sozinho em Mouchão da Cabra com um rol de recordações de um tempo que já não existe
26 de Agosto de 2012 às 15:00
Manuel Borda d’Água vestido como noutros tempos
Manuel Borda d’Água vestido como noutros tempos FOTO: Jorge Paula

Com um brilho nos olhos e um vigor de outros tempos, o último campino a viver na lezíria recebeu-nos na sua humilde casa. Manuel Borda d’Água vive há cerca de 20 anos isolado na lezíria, mas, devido à idade, já não tem o fulgor de outro tempo para montar a cavalo. Tem 86 anos. Nos últimos dez anos tem vivido de dia e de noite em Mouchão da Cabra, não tem vizinhos e na imensidão dos campos a casa onde vive é a única que o olhar consegue avistar.

Manuel já tinha acabado de lavar a roupa e estava a dar de comer aos animais. "Sei fazer de tudo, só não sei fazer dinheiro. Se soubesse, era rico."

Nascido e criado nos Casais de Baixo, na Azambuja, Manuel é filho de pais agricultores, mas ainda muito novo preferiu trabalhar com os toiros bravos e começou por guardar gado. Na maior parte da sua vida foi maioral de vacas e de toiros em muitas casas com tradição taurina. É o campino mais antigo de Portugal que ainda vive na lezíria. "Esta arte está para acabar. O dinheiro é pouco e o trabalho é muito duro."

Manuel Borda d’Água foi este ano homenageado nas Festas em Honra de Nossa Senhora da Oliveira e Nossa Senhora de Guadalupe, em Samora Correia. Os poucos campinos ainda vivos pensavam que Manuel já tinha morrido. "Já ninguém se lembrava de mim e agora não me largam."

De uma vida inteira de trabalho, do que mais sente saudades "é de lidar com os toiros e do gado bravo". Manuel deu várias voltas ao País. "Estive em todas as praças de toiros. Pouco depois de ser guarda de toiros no Vale de Santarém já ia à praça e acompanhava os toiros e cheguei a ir a Espanha." Os ordenados eram pagos à semana, mas como campino "eram 20 escudos, o que na altura não era mau".

SAUDADES DO TRABALHO

Mouchão da Cabra é um punhado de terra da Casa de Norberto Pedroso que em tempos fez parte de uma grande herdade, "mas agora os tempos são outros. Tudo mudou, tudo se virou ao contrário". Manuel não se resigna: "Mais vale sozinho do que mal acompanhado."


A memória já lhe prega muitas partidas, mas não esquece a dedicação ao trabalho. "Passei por muitas dificuldades. Trabalhei à jorna e tive sempre dois trabalhos ao mesmo tempo. Esta é a minha terra e é aqui que gosto de estar, mas agora, às vezes, vejo-me descoroçoado", lamenta Manuel com as mãos a afagarem o coração.

Começou a trabalhar ao lado do pai e do irmão mais velho, na agricultura, quando tinha oito anos. "Acabei por estar pouco tempo na escola, porque era preciso dar de comer a mais cinco irmãos." O primeiro ordenado que recebeu foi um tostão ao dia a guardar ovelhas.

Do álbum de recordações, o campino mais antigo de Portugal não se detém naquilo que realizou, mas em todos aqueles com quem trabalhou e que já morreram. "Os patrões que eu tinha já morreram todos", só ele ainda está vivo… "até um dia".

Lembra-se ainda que aos 28 anos, guardava vacas bravas numa charneca na Ota, conheceu Elisa. "Ela não tinha pai nem mãe e vivia com uns tios. Foi um irmão dela que me disse: ‘Tu gostas dela. Ela gosta de ti e só se quer ir embora. Porque é que não a levas daqui?’ E assim fiz. Um dia, à noite, levei-a no meu cavalo dali para fora."

Os tios e os patrões de Elisa apresentaram queixa e Manuel foi a tribunal. "Naquela altura ela era menor de idade e o juiz perguntou-me porque é que eu a tinha levado: ‘Porque gosto dela!’ Então o juiz disse: ‘O senhor vai preso!’ Mas Elisa não se ficou e disse ao juiz: ‘Então se ele vai preso eu também vou porque gosto dele!’.

Agora os tempos são outros e Manuel, sozinho, queixa-se de que nos últimos tempos lhe têm roubado ovelhas e levado ferramentas do trabalho no campo. Mas já não lhe tira o sossego, porque "do que eu tenho mais saudades é dos toiros. Gosto de lidar numa praça com um conjunto de cabrestos ensinados por mim".

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