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O último garimpeiro vai ao Cobrão

Baixo, de olhar vivo azul cristal, emoldurado nuns grandes óculos de massa escura. Pés pequenos, encaixados nas botas de camurça clara. É assim o último garimpeiro português. A última voz que resiste para contar como foi a corrida ao ouro.
20 de Julho de 2008 às 00:00
O último garimpeiro vai ao Cobrão
O último garimpeiro vai ao Cobrão FOTO: Ricardo Almeida

Manuel Gonçalves tem hoje 82 anos, nasceu em Foz do Cobrão, uma pequena aldeia de Vila Velha de Ródão, que, depois de ver uma fábrica de fiação e tecelagem encerrar portas, se virou para o rio à procura de sobreviver.

Numa altura em que o Mundo estrebuchava por causa da guerra, foi o ouro do rio Ocreza, um dos afluentes do Tejo, que matou a fome a muita gente. 'Eu corri o rio Tejo todo. Explorei tudo o que havia para explorar. Comecei com 12, 13 anos', conta o mestre. Mas foi a partir da década de 50, quando 'a fome chegou a todo o lado', que começou a 'ir ao ouro com mais frequência'.

'Encontrava-se sempre', recorda, voltando aos tempos em que com os irmãos – quatro raparigas e um rapaz – ia para o rio. O sorriso matreiro engelha-lhe a pele queimada do sol, dos sóis que ainda passa a lavrar a fazenda.

'Em 1955 deixei de ir'. É certeiro nas datas. O passar dos anos não foi capaz de lhe roer a memória, guarda as alegrias e as agruras passadas em busca de ouro. 'Iam nove, dez equipas de quatro ou cinco garimpeiros cada. Dormi muitas vezes por lá, no campo, à beira do rio. Semanas inteiras, até'.

As sobrancelhas raras, caiadas de branco, arqueiam à medida que fala. 'Eu era miúdo e a gente com essa idade quer é ver-se livre da escola. Fazíamos de conta que íamos aos tempos livres', graceja. E gostava tanto de 'andar naquilo do ouro'. Fez a terceira classe e, nas montanhas cravadas de oliveiras, aprendeu a sua arte, a ceifa, a azeitona e a vinha. Tem tudo na ponta da língua. Cada passo, cada gesto. Foi ainda comerciante dos tecidos feitos na terra. A profissão valeu-lhe a alcunha de Manel Paneiro.

Mas é do ouro, desse 'danado amarelinho', que fala com a maior das sabedorias. 'Temos que ir pelas curvas interiores do rio. Cava-se a terra e lava-se, depois anda-se com a cocha (bandeja circular feita de madeira) até sair a terra e ficar só o minério. A seguir, deita-se mercúrio ao minério, fica uma bola que depois se queima numa colher. Aí, o mercúrio evapora e fica só o ouro', ensina, ajeitando a boina que lhe esconde a testa alta e alva, a contrastar com os salpicos vermelhos nas faces.

'Segredo só há um: a prática'. Arruma o assunto logo à partida, não vá alguém pensar que chega ali e, por dá cá aquela palha, leva ouro. Não. Só se for um golpe de sorte.

As demoradas conversas esfumam--se nas ruas estreitas da Foz do Cobrão, cujos telhados amontoados fizeram com que um dia alguém lhe chamasse 'aldeia presépio'. Em frente ao edifício do Grupo dos Amigos de Foz do Cobrão (GAFOZ) - considerado o coração da aldeia e que disputa o lugar com a igreja em honra da padroeira Nossa Senhora da Conceição - um grupo de homens joga à sueca. Mais abaixo, nas soleiras das portas, mulheres deixam-se estar a tecer conversas com o fio das horas.

O ritmo da tarde lenta é marcado pelo leve baloiçar do pé de uma viúva. Sobressai-lhe a lisura da pele e o cabelo cor de prata. Os olhos pequenos escutam as palavras dos outros, em silêncio. É a única com arrojo para se juntar aos homens que gastam o tempo à porta da taberna. Falam de futebol.

O serpentear de ruas esconde um segredo atrás de cada esquina, uma estória mesmo à espera de ser contada. Cheira a lareira acesa. Ouve-se por ali a lenda do carrinho de ouro. É sempre contada a forasteiros. 'Sabia que está um carrinho de bois todo em ouro no fundo do rio, no pego do Almourão? Dizem que uma vez dois pescadores tiraram de lá o carrinho e quiseram levá--lo para casa. Começaram a empurrá--lo pela encosta acima mas, por causa da sua ganância, o carrinho resvalou e voltou para o fundo, nunca mais ninguém conseguiu tirá-lo de lá'.

O mestre Manel franze o sobrolho a todos os que desconfiam da existência do ouro por aquelas bandas. Não o admite. Respeita o minério que o escusou à fome e não pode aceitar que dele desdenhem. 'Se há carrinho ou não, lá isso não sei, mas que há ouro, há!'

O garimpeiro viveu uma vida de ouro talhada na dura rocha que espartilha o Ocreza. É do tempo em que os ourives chegavam de bicicleta e ditavam as regras: ouro era igual a pão. Sabia que se encontrasse entre o barro, e depois de muito rodopiar a terra, uma pepita de cinco gramas tinha pão toda a semana. Derrotava a fome. A sua e a dos seus.

E uma pepita das grandes? 'Não, nunca apanhei'. Baixa os olhos e entrelaça as mãos. Não lamenta e explica porquê: 'Aqui nunca houve ricos e pobres. Estava tudo dividido. Quando um fulano queria fazer uma casa, o povo todo ajudava. Só se pagava ao pedreiro'. É despachado no discurso. Todas as palavras que conhece não lhe chegam para explicar a sua terra. 'Ainda hoje somos todos unidos'. Valeu-lhe isso a vida inteira. Valeu-lhe isso quando a 'herança de Angola' lhe levou o filho. Tinha 24 anos, hoje teria 57.

O rio ronca lá em baixo. Num desfiladeiro com 400 metros de profundidade estão 500 milhões de anos desenhados na rocha, camada por camada. Ali à nossa frente está tudo: as fragas silenciosas, os grifos, as lontras, as montanhas da serra das Talhadas listadas de oliveiras.

À beira do Ocreza, a cocha dança-lhe nas mãos. Concentra-se. Já não é apenas garimpeiro. É agora alquimista. Mexe e remexe a terra sob a água. Revela-nos a sua verdade: há ouro ali, no fundo da bandeja de madeira antiga. 'É um bocadinho muito pequenino, mas é ouro… É tão amarelinho...' Revolve a terra e continua um ritual que só aquelas mãos, ensinadas pelos anos e gastas pelo trabalho, sabem fazer.

Quando perguntamos se o regresso ao rio lhe traz à memória tempos idos, o mestre volta ao silêncio. Pára. Ergue-se e fita o rio brilhante, ali, no fundo da encosta. E então diz: 'Nunca me esquece. Nunca me há-de esquecer!' Como podia? Foi assim que resistiu. Foi assim, virada ao rio, que sobreviveu toda a aldeia.

ALDEIA DE XISTO E DE GENTE BOA 

Este é um lugar irresistível, garantem-nos. 'Há aqui qualquer coisa...' Quisemos saber o que é. Octávio Catarino, um dos fundadores do Grupo de Amigos da Foz do Cobrão, é bancário reformado e defende o tesouro do Ocreza e a sua terra – hoje na rota das aldeias de xisto – como a sua própria vida. Desfia histórias e apresenta personagens quase irreais. Não se pudesse sentir, só com um relance de olhar, a aspereza de uma vida entre rochas a beber da riqueza do rio, e ninguém imaginaria que ainda há gente assim: desenhada a carvão e a cheirar a lume. Ali, embutida na Beira Baixa. 'Há aqui algo que atrai as pessoas, mas não sei o que é', diz Octávio. Encolhe os ombros e os olhos verdes de azeitona sorriem por trás dos óculos já baços. Também ele foi apanhado pelo feitiço da Foz. São 60 habitantes, talvez nem tantos. 'Já cá houve quatro mercearias e quatro tabernas e todos vendiam', assegura Octávio Catarino. Enquanto mostra os recantos mais especiais, como as Portas do Almourão, garante que por ali 'é tudo gente boa'. Parece que se ouve o coração desta aldeia. Está viva, apesar da vaga de emigração que levou filhos da terra para Lisboa e outros para o Brasil. Quem nunca daqui saiu foi Maria do Rosário Ribeira, de 81 anos. 'Toda a vida desejei o que não pude alcançar: uma casinha em Lisboa com varandinhas para o mar. Não alcancei em Lisboa, alcancei doutra maneira: aqui em Foz do Cobrão, voltadinha para a ribeira'. A poetisa autodidacta conta em verso a sua história. Houve também aqueles que tentaram sair. 'Tenho um filho em Castelo Branco e três em Lisboa. Ainda experimentei ir para lá, mas não me dei. Sou pássaro do campo, não quero gaiola'. A certeza é de Manuel Almeida, 78 anos. 'Fui sapateiro toda a vida, aqui nesta terra do limão', conta. Mas foi também, muito tempo, na sua casa que funcionaram os Correios da aldeia. E há também os lisboetas que trocam a cidade pela Foz e chegam a não saber a quantas andam. 'Não sabia que era sábado, pensava que era quinta-feira', diz da sua varanda Susete Filipe.

VENDER OURO PARA COMPRAR PÃO 

As pepitas apanhadas no rio eram vendidas a ourives ambulantes que procuravam os garimpeiros junto às tascas de Vila Velha de Ródão ou, duas vezes por mês, na feira. O dinheiro conseguido com o ouro servia para comprar farinha para fazer o pão. Manuel Gonçalves lembra-se bem dos dias de negócio: 'Os ourives vinham da zona do Porto e andavam sempre em cima da gente. E nós vendíamos, pois!', conta.

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