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"O último picareto do senhor dos barcos"

Manuel Pires Fontes já dobrou o cabo dos 80 anos e tem histórias para contar. Está a construir um picareto, um barco típico do Tejo com uma tradição de há mais de 300 anos. Depois deste, que sairá das mãos do Ti’ Fontes – como é conhecido na aldeia de Ortiga –, a tradição vai perder-se. Para sempre.
21 de Setembro de 2008 às 00:00
'O último picareto do senhor dos barcos'
'O último picareto do senhor dos barcos' FOTO: Sérgio Lemos

Situada no concelho de Mação, Ortiga é a única aldeia do distrito de Santarém que tem o Tejo a seus pés. É lá que a tradição se cumpre há mais de 300 anos. E porque a tradição é cumprida por pessoas, há o homem que a cumpre. Do alto dos seus 82 anos, Manuel Pires Fontes está a construir o último dos picaretos, um barco típico do Tejo. Do primeiro ao último passo. Sozinho. Em 15 dias, 'se trabalhar oito horas por dia', diz, sorridente. É também ele quem escolhe as árvores mais indicadas para cortar, que lhe são levadas. Põe e dispõe, como um antigo imperador. Guardador de segredos? 'Aqui não há segredos nenhuns, há é uma vida de trabalho', repete de cor.

Este picareto terá cinco metros e 80 centímetros de comprimento e quase dois metros de largura. Manuel Pires Fontes tem uma destreza e precisão capazes de fazer corar qualquer um. Para este combate, que trava desde os seus 15 anos, dispõe de quatro armas: um martelo, uma serra e mais duas plainas, para acertar a madeira. As armas foram feitas por ele próprio, à mão, menos as serras, que mandou fazer. Talvez este seja o truque para o sucesso. 'Não, não é', garante. 'O truque é a experiência', diz enquanto agarra no martelo.

O Ti’ Fontes, assim conhecido na aldeia, tem a ‘quarta classe’ mas uma imensa sabedoria que se adivinha num profundo olhar azul. É alto e a magreza está disfarçada em robustez. As mãos, apesar da vida difícil, assemelham-se às de um professor. Entalado na orelha direita, guarda aquela que poderia ser a sua varinha-mágica: o lápis, o mesmo de há anos, que utiliza para fazer marcações nas madeiras, desenhar planos e fazer esquemas. Anos de trabalho. 'Nunca tive férias nem nunca fui à praia', assegura, orgulhoso. 'Durante toda a vida, fui pescador durante a noite e calafate durante o dia. A vida era assim...'

É calafate. Por ‘calafate’ pode entender-se 'aquele que constrói, na totalidade, embarcações de madeira'. Com o barco todo montado, passa ao trabalho de calafetagem propriamente dita, em que preenche todas as frinchas da madeira com uma rapidez só dele.

Talvez Manuel Fontes seja mais do que calafate. 'Chamam-me mestre de calafate', corrige. Ainda hoje, quando passam por ele, dizem 'ali vai o senhor dos barcos'. O senhor dos barcos. Teve clientes de todo o País e até de Espanha, que se dirigiam à aldeia por ouvirem de boca em boca o seu nome. Na aldeia e arredores, todos lhe pediam picaretos, para pescar e apanhar lenha. Já não se lembra de quando fez o primeiro, porque a memória tende a fugir aos poucos, mas sabe que o vendeu por 950 escudos. Hoje, avalia o picareto que está a construir em mil euros. Todavia, o negócio não é assim tão simples. 'Os preços variam muito, consoante as necessidades da pessoa que me pede', esclarece.

A arte, essa aprendeu-a aos poucos com o pai. Começou no ano de 1941. Tinha então 15 anos. 'Quando via que algo não estava bem, falava com ele. Aquilo era bonito...', diz, com os olhos já perdidos no tempo. O irmão, 20 anos mais velho, nunca quis saber da arte. A irmã tornou-se professora. Da família, foi ele o único a aprender os segredos do picareto. Segredos que Ti’ Fontes não tem pudor em revelar, passo a passo, como de uma fórmula mágica se tratasse. 'Houve um rapaz que um dia chegou e disse que queria aprender a arte. Mas ainda queria que eu lhe pagasse por cima... Mandei-o à vida!', diz, com falar agitado. Depois desse caso, ficou o ‘segredo’ só para ele, porque talvez assim estivesse destinado.

Na aldeia, outras pessoas construíam a embarcação. Mesmo assim, as dele eram sempre as mais procuradas. 'Havia aqui um homem na aldeia que fazia picaretos. Mas quando queria algum para ele era a mim que vinha pedir. Não era grande espingarda...', conta Manuel Fontes, de ar malandro e orgulhoso estampado no rosto.

Dos picaretos guarda ainda mais histórias para contar. 'Quando era novo', dormiu seis meses dentro de um, na altura das pescas, porque lhe andavam a roubar pescado e redes de pesca, feitas à mão por ele, como quase tudo na sua vida. 'Aquilo é que era bom, nunca tive reumático. Agora, a dormir nesses colchões de espuma é que ando cheio de reumático!', sustenta, divertido. Nos picaretos fechados, um barco igual mas com uma espécie de ‘capota’, muito utilizado para transportar redes e pescado, 'chegaram-se a fazer muitos filhos, porque as pessoas dormiam muitas vezes no rio'.

O último picareto vai figurar no Museu da Pesca Tradicional do Rio Tejo, que a equipa coordenada por Sérgio Durão está a arquitectar. Na verdade, o Ti’ Fontes não construía um barco há muito porque, apesar de tudo, a idade vai pesando. Porém, 'desde que começou a fazer este, depois do nosso pedido, é outro homem', diz Sérgio Durão, mentor do projecto para o museu. 'Pedimos-lhe a ele porque a sua fama vai até muito longe, para além de ser a única pessoa, que se saiba, a construir este tipo de barco. Ganhou logo outra vida. Mas terminado este a tradição vai perder-se para sempre...', lamenta. 'Está a fazê--lo por amor à arte', e isso nota-se na dedicação. Entre estas frases soltas de Sérgio Durão, já está de roda do barco, para o próximo passo, às voltas na sua cabeça há muito tempo.

A única fillha, Odalina Fontes, diz que não é mulher para o ofício. 'Mas sinto um imenso orgulho em o meu pai, com 82 anos, fazer a vida que ele faz. Toda a gente fala dele, por não ser um daqueles velhotes de lar', conta, decidida. 'É preciso força e cabeça, e isso é lá com ele... Morrendo ele, termina isto tudo', diz já com outra expressão, observando-o junto do picareto.

Na Barragem de Belver, em Ortiga, sente-se o cheiro a peixe e o espaço é do Tejo. Está circundada por casas de pescadores em claro estado decadente. A praia fluvial faz as delícias dos mais novos mas os pescadores vivem focados naquilo que o Tejo ainda lhes pode dar. Arquímedes Vidal tem 19 anos de pesca profissional e outros tantos que lhe ensinaram o ofício de pescador. Os seus 41 anos de vida fazem dele um pescador respeitado entre aquelas casas comidas pelo tempo. 'Actualmente, só tenho um picareto, mas já tive mais. Os tempos de agora são outros...', confessa, com os olhos postos no horizonte. 'A pesca está muito difícil... Mas não há dúvidas de que os melhores picaretos eram aqueles feitos pelo Ti’Fontes. São os mais resistentes e duráveis, todos os pescadores sabem.' O último picareto, que descansa atracado enquanto não ataca o rio, está todo fibrado, para durar mais. Uma técnica utilizada por quase todos os pescadores, 'porque isto vai-se perder para sempre, como já se está a perder'.

Terminado este barco, Manuel Fontes vai parar, fruto da idade. Deixa uma vida de pesca e trabalho árduo, cujos 82 anos são capazes de lembrar com uma perspicácia que impressiona. O Ti’ Fontes é também poeta, 'porque Ortiga é terra de pescadores e de poetas'. Motivo: o Tejo. O famoso rio Tejo. 'Eu nasci em Ortiga/ O Tejo me deu o ser/ Aqui fiz a minha vida/ E aqui eu quero morrer.' O poema é de Manuel Pires Fontes. O Ti’ Fontes.

DEPOIS DE VELHO É QUE SOU FAMOSO

É uma frase que Manuel Pires Fontes repete com muita frequência. 'Depois de velho é que sou famoso.' O que, vendo bem e buscando no baú das memórias, não é exactamente verdade. A foto em cima mostra uma peça que o Correio da Manhã publicou há 22 anos, em 1986. Já nessa altura a fama do Ti’ Fontes chegava às páginas dos jornais. Osegredo da construção dos picaretos foi então dado a conhecer. Na peça, é descrita a vida do Ti’ Fontes quando ele ainda se desdobrava entre a pesca, de noite, e a calafetagem, durante o dia.

Manuel Fontes guarda ‘secretamente’ o jornal na sua garagem, onde vai acumulando inúmeras histórias distribuídas pelo tempo. Não faltam adereços do Futebol Clube do Porto, o seu clube de eleição, e tantos outros objectos, como redes de pesca artesanais. A garagem é o gabinete onde guarda também barcos em miniatura, que há muitos anos constrói, para que nunca as mãos lhe fiquem quietas no regaço. É também por isso, por causa da actividade e da lucidez, que Odalina Fontes tem tanto orgulho no pai. 'Não é nada BARCOS TRADICIONAIS UE NAVEGAM RUMO AO MUSEUcum que um homem com 82 anos mantenha esta vivacidade edisposição. Não é um daqueles senhores que se remetem à vida num lar de idosos.'

BARCOS TRADICIONAIS QUE NAVEGAM RUMO AO MUSEU 

Não é só o picareto. Muitas outras embarcações tendem com o tempo a desaparecer, uma vez que a pesca tem cada vez menor influência no quotidiano das populações ribeirinhas. O moliceiro (à esq.), barco típico da zona de Aveiro que se distingue pela elegância da proa estilizada, era muito utilizado entre Ovar e Mira na apanha e transporte do moliço – a vegetação da ria de Aveiro que servia aos agricultores para a fertilização dos solos de areia semeados como terrenos agrícolas. Além disso, também transportava gado e mercadorias.

Hoje os moliceiros já são usados quase exclusivamente para fins turísticos, nomeadamente em passeios na Ria de Aveiro. Muito conhecidas, nem que seja por causa da canção infantil 'Que linda falua...', são também as faluas de passageiros (à direita), um barco tradicional do Tejo. Era muito utilizado para transportar pessoas, carga e produtos entre Lisboa e o Seixal, tal como os barcos varinos. Chegava a ter 15 a 16 metros de comprimento e um comando de três homens. O mastro era ligeiramente inclinado à ré e ostentava um grande pano de vela latina.

A falua é, seguramente, a embarcação mais emblemática do Tejo, actualmente remetida a museu ou objecto de recuperação pelas autarquias ribeirinhas. Na baía do Seixal ainda navegam algumas. A mais antiga data de 1914.

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