Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
2

O último suspiro

Perto do fim, a santa já nem comia. Até beber passou a ser um sacrifício. Deitada na cela, sem forças, privada de voz, caminhou serenamente pelo corredor da morte
20 de Fevereiro de 2005 às 18:00
D. Albino Cleto, bispo de Coimbra, entrou na cela, apressado. Nas mãos trazia uma mensagem do Papa. Lúcia apontou trémula para os óculos. Não tinha forças para mais. Olhou fixamente para o fax enviado do Vaticano, deteve-se por alguns momentos. E sorriu. Não se sabe se conseguiu ler as palavras do Santo Padre. Nunca se saberá. Mas deu para perceber que soube de quem eram. Tiraram-lhe os óculos e, num último gesto, antes da partida, pediu à madre do Carmelo para se aproximar. Foi então que moveu levemente a cabeça e beijou o crucifixo que a Superior trazia ao peito. Depois fechou os olhos e esperou que o coração se cansasse de bater. Morreu serenamente. Como uma vela que se vai extinguindo.
Quando, no passado domingo, a morte bateu à porta do Convento das Carmelitas ninguém ficou surpreendido. Desde o Verão passado que o estado de saúde da vidente de Fátima era motivo de preocupação. Mas ainda antes da fraqueza do corpo o capelão do Carmelo de Santa Teresa notou uma “quebra espiritual”. Foi logo após a celebração do 97º aniversário da irmã Lúcia, em Março último.
A alteração do comportamento da pastorinha preocupava o padre João Lavrador. A Lúcia que conheceu, alegre, brincalhona, curiosa, interessada pelos problemas do mundo exterior, já não era a mesma. Ganhara, talvez, consciência de que a sua missão chegara ao fim. “A irmã Lúcia era uma pessoa encantadora. Muito simples, muito humilde, com uma fé enorme e um grande espírito crítico. Não queria nenhum tratamento especial. Apenas ser uma entre as outras. Mas depois de Março começou a decair. Passava-se qualquer coisa”, recorda o sacerdote. E vai mais longe: “Lembro-me que na altura comentei isso com a madre Celina. A irmã não está tão expansiva, perdeu o gosto por ela própria, desinteressa-se das coisas”.
O pressentimento do capelão confirmou-se. E nem foi preciso esperar muito. Da “quebra espiritual” à debilidade física foi um passo. “Começou a ouvir mal. Muito mal. Era preciso falar-lhe ao perto, quase encostado ao ouvido. Depois vieram as dificuldades em andar. As pernas fraquejavam a cada instante, não aguentavam o peso do corpo. Com a ajuda das irmãs, passou a deslocar-se numa cadeira de rodas”, relata o padre, de 48 anos, natural de Seixo de Mira, Cantanhede.
SOFRER EM SILÊNCIO
Apesar dos problemas físicos, próprios da idade, Lúcia não se queixava. Sofria em silêncio. Aprendeu a sofrer em silêncio. Nas palavras do cónego da Sé de Coimbra, D. Batista Martins, “Lúcia, ainda miúda, foi alvo de verdadeiros interrogatórios, por altura das aparições, a começar pela mãe: ‘Diz a verdade, Lúcia, diz a verdade’, insistia. ‘Mas eu vi, minha mãe, mas eu vi’, respondia Lúcia. Isto é muito violento para uma criança”. Não é pois de estranhar que a pastorinha de Fátima tenha suportado sem queixumes as maleitas própria da idade. “Era uma pessoa paciente. Só se manifestava quando sentia dores muito fortes. Por norma, a medicação ministrada dava resultado e as dores acalmavam”, lembra Branca Paúl, médica das irmãs carmelitas. Mas o sono de Lúcia era tranquilo, sereno, divino. Como o de um anjo. Como o de uma criança. “Dormia muito bem e seguia as normas e os horários da restante comunidade, tanto ao deitar como ao levantar”, sublinha a clínica, de 55 anos.
Branca Paúl, que exerce no Centro de Saúde de Celas, Coimbra, acompanha as irmãs carmelitas “há 13, 14 anos”, não sabe precisar bem, a convite do anterior médico, Miguel Barata. A empatia com Lúcia foi, logo de início, “muito grande”. “Aprendi muito com ela na questão da fé, mas também ao nível de testemunho de humildade, carinho, amor.” Recordando a pessoa “muito bem humorada e alegre”, lembra que Lúcia fazia sempre as coisas “com amor e tudo lhe saía perfeito”.
INQUIETAÇÃO GERAL
Tal como o padre João Lavrador, também a médica de Lúcia começou a ficar inquieta com a saúde da vidente, sobretudo quando deixou de se alimentar como devia. A última saída de Lúcia do Carmelo - a vidente só deixava a clausura para ir a Fátima ou votar – aconteceu no dia 8 de Dezembro, numa altura em que a sua debilidade era já evidente. “Foi fazer uma TAC pormenorizada torácica, abdominal e pélvica para despistar qualquer outro tipo de patologia que pudesse esconder a falta de apetite, mas nada acusou”, conta a médica, acrescentando que “a pastorinha sempre fez uma alimentação normal. Gostava e comia de tudo”, sublinha.
Os testes médicos deram em nada. Mas a falta de apetite foi crescendo, dia após dia. As irmãs da comunidade e as pessoas mais próximas, sabendo das dificuldades da pastorinha em alimentar-se, levavam-lhe “os mimos que mais gostava”. Como tremoços e azeitonas, por exemplo.
No início de Janeiro, Lúcia caiu à cama, com problemas cardiocirculatórios. “A última vez que a vi foi a 8 de Janeiro. Já estava muito debilitada, mal saía da cela”, conta o padre Valinho, sobrinho de Lúcia, filho de Maria dos Anjos, a irmã mais velha da vidente. A degradação da saúde da pastorinha era galopante. “Ainda a traziam para a cadeira, mas passava a maior parte do tempo deitada. Estava a definhar”, lembra o padre João Lavrador.
Com a chama da vida a extinguir-se, dia após dia, começou a recusar todo o tipo de alimento.
Sacrifícios Até beber passou a ser um sacrifício. “A água era dada a conta-gotas. Mantinha-se hidratada e com os nutrientes básicos, através da injecção de soros”, explicou a médica. Mesmo assim a dada altura, “até a medicação lhe custava a tomar”. Clinicamente, não havia mais nada a fazer. Apenas aliviar a dor e o sofrimento. “A avançada idade e o inerente desgaste dos órgãos e das células do corpo humano, vêm lembrar-nos o carácter de finitude da matéria”, sublinha Branca Paúl.
Na última semana de vida, a portadora da mensagem de Fátima perdeu a fala. Para perceber o quanto doloroso terá sido para Lúcia, vale a pena recordar as palavras do cardeal patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, na homilía proferida no decorrer das exéquias fúnebres. “Francisco era contemplativo; Jacinta ficava comovida e não dizia nada. Lúcia era sempre aquela que falava com Nossa Senhora, que comunica incansavelmente”. Agora, aos 97 anos, só podia mesmo comunicar em espírito.
Deitada na cela, sem forças, privada da voz, impossibilitada de escrever, Lúcia caminha pelo corredor da morte. Aguarda serenamente o fim. Inevitável. “Obrigada” foi a última palavra que o capelão das carmelitas ouviu da boca da pastorinha. “Foi no sábado (dia 5 de Fevereiro) já se percebia muito mal. Disse-lhe que rezavamos por ela e informei-a que o Papa João Paulo II estava melhor. Respondeu--me, com um sorriso, que estava a oferecer o sacrifício dela ao Santo Padre. No final, agradeceu aquele momento com um ‘obrigado.’” Desde esse dia, passou a falar em silêncio. Apenas a madre Celina percebia as frases surdas balbuciadas de Lúcia. Até que a voz se perdeu de vez.
À ESPERA DA MORTE
No sábado seguinte, dia 12, véspera da morte, “sentimos que o fim estava por horas”. Uma imagem reforçada pelas palavras da médica que a acompanhou ao longo destes últimos anos: “o coração está a perder a força”, comentou, na altura. A morte chegou, mas teve de esperar a sua vez. Lúcia sempre disse que a “vinham buscar” no primeiro sábado de cada mês ou num dia 13 – o dia das aparições de nossa senhora em Fátima. Quanto à explicação do sábado, encontra-se no facto de, na terceira aparição, a Virgem ter anunciado que viria pedir a comunhão reparadora nos primeiros sábados.
Coincidência, ou não, a profecia da vidente confirmou-se. Lúcia partiu a 13 de Fevereiro de 2005. Morreu serena, tranquila, consciente. “Ajoelhei--me junto à cama. Ela estava sossegadinha, deitada, com o cotovelo flectido. Coloquei a minha mão debaixo dele. Sentiu-me, olhou para mim, sorriu e aconchegou muito a minha mão”, conta Branca Paúl, que assistiu à chegada da morte – juntamente com o bispo de Coimbra, D. Albino Cleto – recebida em oração pelas 17 carmelitas que vivem em clausura no Carmelo de Santa Teresa, em Coimbra. “As irmãs estiveram sempre ao seu lado, foram uma companhia permanente de Lúcia. Nas últimas manhãs de vida, ficaram-me na memória estas palavras, ditas em uníssono, que Lúcia, já sem voz, tentava seguir: ‘Nossa Senhora, Nossa Senhora, anjinhos, anjinhos. Vamos para o céu, vamos para o céu. Com os pastorinhos, com os pastorinhos’”, rezavam elas.
Branca Paúl não tem dúvidas de que a irmã Lúcia teve consciência do exacto momento em que abandonou o mundo dos vivos,. O padre João Lavrador também alimenta a mesma convicção. “A forma como recebeu a mensagem do Papa entregue pelo bispo de Coimbra, D. Arlindo Cleto, revela que Lúcia estava lúcida. É possível que não a tivesse lido, mas não tenho a menor dúvida de que sabia que era uma bênção do Santo Padre”, garante o capelão de Santa Teresa.
A BENÇÃO FINAL
Recebida a bênção de João Paulo II, Lúcia fechou os olhos e esperou, serenamente, a última batida do coração. Eram 17h30. “Como pessoa ligada ao conhecimento científico concreto que rege o exercício da medicina, vejo-me obrigada a encontrar um facto causal para o óbito da nossa irmã. Assim, a falência cardiocirculatória resultantes dos seus 97 anos foi essa causa. Como pessoa de fé, (...) limito-me a referir que o bondoso, grande, enorme coraçãozinho de Lúcia se cansou de bater”, descreveu a médica Branca Paúl. Dito isso acrescentou: “Como vela cuja chama no final de vai extinguindo progressivamente, também ela, na maior serenidade, rodeada dos desvelados cuidados assistenciais e de apoio, com o carinho e amor de todas as incansáveis irmãs da comunidade, docemente extinguiu a combustão que mantinha o aprisionamento do seu espírito à matéria do corpo”.
A morte não afligia a irmã Lúcia. Estranhou, até, o facto de não ter acompanhado os primos Francisco e Jacinta, que faleceram, ainda crianças, pouco tempo após as aparições. Mas, ao que contou mais tarde, Nossa Senhora não deixou. “A Jacinta e o Francisco levo-os em breve. Mas tu ficas cá mais algum tempo.” Ainda perguntou: “Fico cá sozinha?”, “Não filha. Não desanimes. Eu nunca te deixarei”. Desde então, Lúcia esperou o seu dia, na companhia das irmãs carmelitas.
Branca Paúl lembra a forma descontraída como a vidente encarava a sua morte, confirmando a projecção mundial e mediática que tinha, apesar de “detestar isso, porque era uma pessoa simples”. “Numa ida à Cova da Iria, para estar com o Papa João Paulo II, disse-me, em tom de brincadeira, que quando morresse e fosse deitada, havia de ir para Fátima e que devia ser uma festa, com todos a brincar, a comunicação social toda presente e o povo a gritar: morreu a irmã Lúcia, morreu a irmã Lúcia”, recorda.
A pastorinha não andou muito longe da verdade. Logo que a sua morte foi anunciada, milhares de fiéis acorreram à Igreja do Carmelo, em Coimbra, para o último adeus. A ‘cidade dos estudantes’ transformou-se num imenso santuário. A comunicação social também esteve em peso – talvez mais, até, do que a própria Lúcia alguma vez imaginaria – e quanto a “ir para Fátima”, é uma questão de tempo. Durante um ano, por vontade expressa de Lúcia, o corpo da vidente ficará no Convento de Coimbra, para onde entrou a 25 de Março de 1948. Depois, será trasladado para a Basílica de Fátima, para junto dos primos beatos. Será a sua última morada. No Carmelo de Santa Teresa, a vida continua.
A MENSAGEM
“Informado do estado em que versa sua saúde, venho afirmar-lhe a minha união afectuosa com uma particular lembrança da sua pessoa junto do Deus de toda a consolação, para que possa superar serena resignada meritoriamente estes momentos de provação unida a Cristo redentor e deixando-se iluminar pela sua Páscoa. Como penhos das melhores graças celestiais, envio-lhe extensiva à sua comunidade carmelita e familiares minha bênção apostólica.”
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)