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O Verão do Minho e uma família sensata

“ (...) em vez de me fazer passar por Clark Gable, vesti a pele de um capitão de Mark Twain contornando os recifes de La Guardia”
António Sousa Homem 27 de Junho de 2010 às 00:00
O Verão do Minho e uma família sensata
O Verão do Minho e uma família sensata

Já contei o episódio ao leitor, mas ele merece: havia um areal percorrido pelo vento do Minho e era junto dele que Dona Ester, minha mãe, estacionava o carro, um Plymouth de que se guardam fotografias da época – amarelecidas como as urzes do Verão. Naqueles anos longínquos, meados do século passado, o Minho era muito mais parecido com as descrições de Camilo (e povoado das suas personagens) do que com o retrato dos nossos contemporâneos.

Essa imagem, romântica e esmaecida pelo tom sépia do tempo, prolonga a minha família e as suas idiossincrasias. Afastados de toda a ribalta durante a Regeneração, recolhidos a Ponte de Lima e à Foz quando a República passeava pelo país, envergonhada durante a incumbência do dr. Salazar, os Homem dedicaram-se, com um alto grau de exigência, a criar uma vida própria, a ter uma biografia e a temer serem reconhecidos.

A vida não foi má. Um dos meus irmãos reprovou no exame de Direito. Outro, o mais novo, apresentou um dia a ideia – peregrina – de se tornar negociante de automóveis. As minhas irmãs cresceram em liberdade, sem casamentos preparados com antecedência e sem o rigor fingido da burguesia do Porto. Eu passei sobre a adolescência rodeado de livros e de papéis velhos, sonhando com uma vida de viajante ou, em alternativa, com a discreta biografia de um advogado de família.

Calhou-me a segunda ocupação. Nasci velho. Não sofri com a adolescência. Não fui um revolucionário nem me perdi de amores por Paris. O velho Doutor Homem, meu pai, educou-nos segundo o seu «figurino inglês», que não era o «figurino inglês» propriamente dito – era, antes, importado da Inglaterra que só ele imaginava e que só ele visitara, antes da idade madura, antes do casamento e antes do dr. Salazar.

A Dona Ester coube ser a fiel equilibrista de uma casa destinada a parecer sensata e "normal". Ela achava que os rapazes cresciam mais saudáveis se se bronzeassem nos areais de Afife ou Viana. O sol de Verão impediria as constipações, as doenças respiratórias e o espírito macambúzio dos nossos primos dos Arcos, do Tamariz e de Gaia. Tinha razão. As minhas irmãs entravam na água em Junho e raramente saíam de lá até Setembro.

Os rapazes espalhavam a areia das dunas e só seriam conservadores em Outubro. Houve um Verão em que alugámos um barco para passear diante das jovens que as famílias arrastavam para os Verões morigerados de Caminha e Cerveira. Mesmo nessa altura, em vez de me fazer passar por Clark Gable, vesti a pele de um capitão de Mark Twain contornando os recifes de La Guardia. Nunca tivemos remédio.

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