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Correio da Manhã

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O VERDADEIRO REI COM SAMPAIO NO LUXEMBURGO

O título de nobreza pertencia aos Grão-duques do Luxemburgo, mas o rei foi Jorge Sampaio: ao chegar a Esch-sur-Alzette foi recebido por uma multidão de bandeiras a acenar. É ali que o coração luso bate mais forte
10 de Outubro de 2004 às 00:00
A última vez que a comunidade portuguesa residente na cidade de Esch-sur-Alzette, tinha tomado de assalto a praça da Câmara Municipal, agitando bandeiras vermelhas e verdes, foi quando a selecção nacional chegou à final do Euro 2004. A festa dos mais de oito mil emigrantes portugueses que ali vivem – 28 por cento da população local – extravasou para as avenidas do centro histórico de Esch. E nem a derrota os impediu de gritar bem alto ‘Viva Portugal’. Mesmo os mais jovens, já nascidos em território luxemburguês, não conseguiram conter as lágrimas quando viram a tristeza estampada no rosto de Cristiano Ronaldo.
Com a passagem do Presidente da República, Jorge Sampaio, por Esch-sur-Alzette, no âmbito de uma visita de Estado de quatro dias ao Grão-ducado do Luxemburgo, penduraram-se centenas de bandeiras com as cores nacionais nas janelas dos prédios e nas montras das lojas.
E, contrariando as previsões de uma manhã chuvosa, o Sol nunca abandonou Esch – a segunda cidade mais populosa do Luxemburgo, com 28 mil habitantes. “São vocês que trazem o bom tempo”, dizia uma senhora de idade, em conversa com alguns dos elementos da comitiva oficial.
Concentradas em Stadhaus Plaz, a praça em frente à Câmara Municipal, centenas de portugueses e luso-descendentes acotovelavam-se e faziam os possíveis para verem de perto Jorge Sampaio, ao lado da mulher Maria José Ritta e dos Grão-duques. Os monarcas acompanharam o casal português no passeio a pé pela cidade, e também eles foram recebidos com entusiasmo. “Ele é mais bonito ao vivo. Tem um sorriso simpático”, comenta uma mulher, à passagem do Grão-duque Henrique.
A amiga, mais interessada em observar o guarda-roupa que Maria José Ritta seleccionou para a ocasião, limita-se a acenar com a cabeça. Para ela, a primeira-dama portuguesa destaca-se pela classe e simpatia: “É mais alta do que o marido, mas é uma mulher muito elegante. Fiquei impressionada”, comenta, enquanto grita “Viva o Sampaio, viva os portugueses!”.
No meio da multidão, há uma voz que se destaca. Maria Laura Rodrigues, natural do Porto, é quem mais puxa pelas cordas vocais: “Sampaio! Vem fazer melhor vida aos portugueses”, pede-lhe. Os seus gritos, em jeito de pregão, têm o poder de abafar os aplausos das dezenas de crianças que ali se encontram, animadas, a agitar bandeiras dos dois países.
“Viva Portugal e viva o Luxemburgo”, continua Maria Rodrigues, sem perder o fôlego. Mora há 17 anos em Esch, mas se lhe dessem condições voltava de imediato para Portugal. “É e será sempre a minha terra, mas como aqui ganha-se mais...”
Instalada na primeira fila, mesmo ao pé do gradeamento que separa os populares das personalidades, Maria Laura, acompanhada pelo filho Leandro, não perde a esperança de dar uma palavrinha a Jorge Sampaio. O discurso já está ensaiado: “Quero dizer-lhe que tem feito muita coisa boa, mas se conseguisse arranjar empregos para os nossos maridos, escusávamos de estar aqui”, diz convicta.
Não trabalha por motivo de doença, e é com preocupação que olha para o futuro dos dois filhos mais velhos. No Luxemburgo não se encontram empregos com facilidade, principalmente quando se é emigrante: “Tenho uma filha a trabalhar num café, mas o meu Filipe André decidiu que não quer estudar mais e voltou para Portugal. Quer arranjar lá qualquer coisa”.
Um pesadelo para o qual a comunidade portuguesa está agora a acordar. O Grão-ducado é um dos mais pequenos e ricos países da União Europeia, mas nos últimos anos viu a taxa de desemprego aumentar, fixando-se nos 4,2 por cento. Um número inferior à média europeia, mas que atinge sobretudo a primeira geração de famílias portuguesas, que emigraram a partir da década de 60/70.
BOFETADA NO GOVERNO
Sob uma chuva de aplausos, Sampaio e Maria José Ritta distribuem beijinhos e cumprimentos. Os que conseguiam falar com o chefe de Estado aproveitam para lhe recordar os problemas que mais afectam a comunidade portuguesa: “Dê lá uma bofetadinha ao Governo”, insistem.
A subida do IRS pago pelos imigrantes com rendimentos em Portugal, que há dois anos subiu de 12,5 % para 25 %, foi um dos temas abordados, na esperança que o presidente remediasse a situação. “O défice é alto, o défice é alto”, ia repetindo Sampaio, entre pedidos de autógrafos.
Isabel Ruer, 49 anos, foi comprar uma bandeira portuguesa de propósito para a ocasião. “Ele vem cá por nós. Temos de mostrar que também estamos cá por ele”, declara. Saiu de Portugal para ir viver para França, mas passou os últimos 28 anos em Esch. “Era ainda rapariguinha quando aqui cheguei. Já cá tinha família mas preferia ter continuado na minha terra.”
Como aprendeu francês, Isabel não teve dificuldades em integrar-se. Mas para a maioria dos portugueses que continua a escolher o Grão-ducado para viver – cinco mil todos os anos – é a língua que os impede de progredir na escola e na profissão.
Num país trilingue, onde se fala alemão, luxemburguês e francês, a integração do português no currículo escolar é uma das mais antigas exigências da comunidade – cerca de 60 mil portugueses, quase 14 por cento da população total.
Por ocasião da cerimónia de boas-vindas da presidente da Câmara de Esch-sur-Alzette, Lydia Mutsch, Sampaio apelou ao esforço dos portugueses para uma verdadeira integração.
LÁGRIMAS DE EMOÇÃO
Ainda os ponteiros do relógio não marcavam as 12h e já os 658 estudantes da École du Brill brincavam no pátio, enquanto esperavam pela chegada do Presidente Sampaio. Situada no cruzamento da Place du Brill com a Rue de L’Alzette (a principal artéria comercial da cidade), é uma das poucas escolas onde o ensino da língua materna se encontra integrado no currículo. Um exemplo que Jorge Sampaio gostaria de ver seguido por outros estabelecimentos de ensino do país.
“Estudam aqui 384 alunos portugueses. Por isso, as disciplinas de Ciências da Natureza e de História são dadas em português, duas horas por semana”, explica Margarida Sacadura, adida pedagógica da embaixada do Luxemburgo. É ela quem dirige os 56 docentes de português a residir no Grão-ducado.
Sampaio chegou ao majestoso edifício azul por entre um mar de bandeiras e acenos. O entusiasmo que rodeou a sua presença deixou-o sem palavras. À entrada, um grupo de crianças esperava-o com uma cantiga infantil. Ao ouvi-las cantar em português, o Presidente mostrou-se comovido.
Numa das salas, impecavelmente arrumada, Sampaio reuniu-se com professores e alunos e interessou-se pelo método onde se promovem aulas mais reduzidas e a aprendizagem em português e luxemburguês. “Não esperava. Ver é diferente do que ler nos papéis. É muito significativo o que se está a passar e dá-nos estímulo para melhorar as coisas”, comentava o Presidente.
A dada altura, alguém propôs dar a palavra às crianças. Porém, as reacções foram moderadas. Envergonhadas com a presença de tantos fotógrafos e câmaras de filmar, os mais novos optaram pelo silêncio. Foi então que a Grã--duquesa do Luxemburgo, Maria Teresa, resolveu salvar a situação. Tão informal como Sampaio, juntou-se às crianças e começou a promover o diálogo.
No corredor da escola, apinhado de gente, Eugénia Ferreira, professora na École du Brill, fala dos pequenos sucessos que a fizeram deixar Portugal, há dois anos, e recomeçar uma vida nova no Luxemburgo: “Aqui sentimos que fazemos um trabalho válido”, explica. “Se eles se magoam no recreio é com um dos professores portugueses que vêm falar.”
Uma relação afectiva, que a leva a considerar a hipótese de ficar mais alguns anos no Grão-ducado. “Somos muito bem tratados. Pelos pais dos alunos e até pelos colegas luxemburgueses”, salienta. A isto, juntam-se progressos registados na aprendizagem: “Já há muitos filhos de emigrantes a frequentarem o ensino universitário. Nesta escola temos várias professoras portuguesas que já tiraram cá o curso e leccionam em luxemburguês.”
Casos de sucesso que contrastam com a dureza dos números: a comunidade portuguesa tem a menor percentagem de entradas na faculdade – apenas quatro por cento. Carmo Godau, docente portuguesa na escola de Esch há quatro anos, aponta o dedo ao grau de dificuldade em línguas: “Em casa, os alunos acabam por utilizar o português porque têm dificuldades em aprender o alemão ou até o luxemburguês. Em França, pelo contrário, as novas gerações só utilizam o francês”.
Acabada a reunião informal de Sampaio com os professores, de novo a rua, as bandeiras. Foi assim até à hora de almoço. Às 13 horas em ponto, o Presidente e a comitiva oficial despediram-se sob uma chuva de aplausos.
VINHO VERDE E BACALHAU
Num país tão obcecado com a pontualidade, até as festas populares começam à hora marcada. Organizada numa tenda gigante montada na Place Guillaume, no centro da cidade do Luxemburgo, a Festa da Amizade Luso-luxemburguesa encerrou a visita de Estado do Presidente da República.
Centenas de portugueses marcaram presença no evento, iniciado com um concerto da fadista Mafalda Arnauth. Um encontro marcado por grande emoção quando o hino nacional foi entoado pela cantora, acompanhada por centenas de vozes lusitanas.
Entre os aplausos de entusiasmo do público, Jorge Sampaio voltou a apelar à comunidade portuguesa para assumir um papel de maior intervenção na vida pública do país.
Apesar das suas intervenções em público serem pouco frequentes, o Grão-duque Henrique não quis deixar de agradecer aos emigrantes o papel de relevo desempenhado ao longo das últimas décadas para o desenvolvimento do seu país.
Perante as aclamações e vivas a Portugal e ao Luxemburgo, o monarca utilizou o “vinho verde e o bacalhau” como exemplos de integração da cultura e tradições portuguesas na sociedade luxemburguesa – para delírio de todos os presentes.
Também o discurso do Ministro dos Negócios Estrangeiros e da Imigração, Jean Asselborn, arrancou fortes aplausos. Ao referir-se a Eusébio como um dos símbolos “mais emblemáticos de Portugal”, conquistou a plateia.
Em tom baixo, um senhor de meia-idade, de boina de cabedal na cabeça, vira-se para o colega, intrigado: “Sabes o nome dele?”. O amigo bem olha para o palco, onde Jean Asselborn discursava, mas não o reconhece. O outro insiste: “Temos de descobrir. Gostava de votar nele”.
DESEMPREGO À ESPREITA
Entre as questões debatidas durante a visita de Jorge Sampaio ao Grão-ducado, duas das preocupações da comunidade lusa marcaram a agenda política: a preparação escolar das crianças portuguesas e a inserção dos jovens no mercado de trabalho.
Os dois problemas estão interligados: as elevadas taxas de insucesso escolar empurram os portugueses para funções menos qualificadas, e por isso, mais permeáveis ao desemprego.
Para Jean-Claude Juncker, primeiro-ministro luxemburguês, é um dever nacional fazer com que os portugueses residentes no país tenham as mesmas oportunidades que os luxemburgueses. “Lamento ver os seus talentos, energias e faculdades não aproveitados porque o nosso sistema escolar não soube adaptar-se ao ritmo que seria necessário”, garantiu.
Há dois anos que o Governo tem tentado mudar o ensino das línguas estrangeiras, substituindo o alemão pelo francês, de modo a que os jovens portugueses tenham mais oportunidades.
Apesar dos emigrantes portugueses serem conhecidos pelos maus resultados escolares, três raparigas de origem portuguesa fizeram parte do lote dos dezoito melhores alunos do país.
FUNÇÃO PÚBLICA
A concessão da dupla nacionalidade a estrangeiros faz parte do programa do Governo, chefiado por Jean-Claude Juncker, que foi estabelecido após as eleições gerais de Junho passado.
Juncker disse sempre ter considerado que os portugueses que vivem no Grão-ducado deveriam poder tornar-se luxemburgueses e ao mesmo tempo continuar portugueses.
“Primeiro há os homens e depois os passaportes”, realçou. O primeiro-ministro luxemburguês mostrou interesse em que o projecto de lei sobre a dupla nacionalidade seja apresentado ao Parlamento Nacional, no Outono do próximo ano, podendo ser votado na Primavera de 2006.
Até alcançar esse objectivo, reconheceu a existência de um processo político complexo. A adopção da nacionalidade luxemburguesa é vista por muitos estrangeiros residentes no país como um instrumento essencial de obtenção de lugares na função pública, de acesso limitado.
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