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Correio da Manhã

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O VERDADEIRO SENHOR DA GUERRA

Enquanto George W. Bush aterrava na Base das Lajes e anunciava que a guerra estava por um fio, do outro lado do mundo Tommy Franks ultimava os preparativos para um ataque que se quer rápido e fulminante. Mas este general tem um ‘ponto fraco’: a mulher.
23 de Março de 2003 às 16:29
Sob o sol abrasador do Koweit, a milhares de quilómetros de casa, mais de 250 mil soldados norte-americanos seguem as ordens de uma voz. São homens anónimos, cuja missão é honrar a bandeira dos Estados Unidos, e a grande esperança é sair vivo do campo de batalha.

Atrás deles, há um general que traça as coordenadas – Tommy Ray Franks. A responsabilidade que carrega aos ombros é enorme, podendo transformá-lo em herói ou vilão em fracções de segundo. No entanto, aos 57 anos, Tommy Franks parece habituado a situações dessa natureza, não dando indícios de tremer em momentos complicados.

O currículo de operações que apresenta dá para preencher páginas inteiras de jornal mas, ao contrário do que acontece com outros oficiais com quatro estrelas ao ombro, quase nunca se houve falar dos seus feitos. Mas quem é de facto este combatente capaz de responder com alguma classe a ‘enfadonhos’ encontros oficiais, jantares de gala e constantes operações de charme? Algumas informações permitem construir dele a imagem doverdadeiro ‘senhor da guerra’. Quem o conhece considera-o calmo e pouco falador mas com um humor certeiro, nunca espalhafatoso ou inconveniente.

Um oficial da Marinha que com ele trabalhou revelou à revista ‘Time’ que Franks “tem sido um tipo com um perfil discreto a caminho do topo. Esse tem sido o segredo do seu sucesso”.

Há um ano, quando Bush e o Secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, lhe propuseram conceber um plano para derrubar Saddam, deu voltas à cabeça para enumerar os meios necessários: cinco divisões terrestres e cinco aerotransportadas. Rumsfeld achou demasiado (é difícil mobilizar um contigente dessa dimensão em pouco tempo) e pediu mais rapidez e eficácia. As negociações entre os dois arrastaram-se por semanas, meses até, a diplomacia internacional e os receios da ONU atrasaram o desenvolvimento do processo mas, neste momento, poucas diferenças existem face ao plano inicial de Franks. Ele levou a melhor.

NASCIDO PARA MATAR

Combatividade e perseverança são, de resto, duas características do general. E se toda a gente nasceu para morrer, Tommy Franks parece ter vindo ao mundo para matar, tal a sua participação activa em guerras nos mais diversos pontos do planeta. Essa actividade valeu-lhe grandes elogios e as mais importantes condecorações. Entre o rol de medalhas concedidas pelo Estado norte-americano, destaque para as quatro Legião de Mérito, as três Estrela de Bronze do Congresso e três ‘Purple Heart’ – estas últimas atribuídas sempre que um operacional é ferido em combate.

Só o facto de ter estado na Guerra do Vietname faria dele um herói, mas Tommy Franks não se ficou por aí – serviu também na extinta República Federal Alemã e, até há bem pouco tempo, na sempre escaldante região da Coreia.

Doutorado em Administração Pública pela Universidade de Shippensburg, o general tem conjugado as actividades no campo de batalha com a carreira de docente e investigador militar. Entrou para o Pentágono em 1976 e chegou a principal figura do US Central Command (CENTCOM), estranha organização militar que vive a negociar tratados com ‘vizinhos’ do inimigo, quando não com o próprio.

Responsável pela gestão de vários interesses numa região que abrange dois continentes e 25 países, acompanha diariamente a situação em zonas como o Afeganistão (antes alvo de investigação a cargo da CIA) e o Golfo Pérsico.

Quem olhar hoje para este homem não o associará ao rapaz tímido, nascido na cidade de Wynnewood, Texas, a quem poucos auguravam uma carreira militar de suceso. Mas apesar da sua vida ter grandes momentos, nem tudo são rosas.

A grande pedra no sapato de Franks é a mulher, Cathy, a qual, segundo uma investigação militar que ainda decorre, pode ter estado presente em reuniões ultra-secretas (onde não é permitida a entrada de qualquer civil, com o consentimento do marido. A juntar a esse facto, surgem indícios de que o general se fazia acompanhar pela esposa em viagens oficiais custeadas pelo Governo – sem que tenha feito mensão à presença de Cathy, quanto mais reembolsado os cofres públicos das despesas extras. Resultado: a sua carreira pode estar suspensa das boas graças dos políticos.

Donald Rumsfeld, ‘homem forte’ da Defesa que dirige o Pentágono, defende o subordinado e afirma acreditar piamente na sua inocência. Seja como for, as suspeitas não impedem Franks de comandar as tropas em solo iraquiano. Até porque poucos conhecem as areias do deserto como ele.
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