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Correio da Manhã

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O vilão do Código Da Vinci

Para ele, a ironia é uma reacção automática à sua maneira muito britânica de ser. Louro, de olhos azuis, pele branca e muito alto, são estes os seus adereços naturais que reflectem um quase estereótipo dos súbditos de Sua Majestade.
14 de Maio de 2006 às 00:00
Contudo, o olhar matreiro, quase infantil, como se não quisesse assumir os seus 35 anos, devolve-lhe a personalidade e a herança (filho e neto) de actor, treinada a vestir diversas personagens. Casado com a actriz americana Jennifer Connely e pai de dois filhos (Stellan e Kai, este apenas filho de Jennifer), Bettany prepara-se para uma nova etapa na sua carreira no papel de vilão no filme ‘O Código Da Vinci’.
Recentemente, os papéis de vilão têm vindo ter consigo. Incomoda-o que daí advenha algum tipo de desgaste?
Pelo contrário, isso diverte-me, embora eu goste mais de variar. No entanto, se fala de ‘Firewall’ e de ‘O Código Da Vinci’ percebe que são dois registos de vilão completamente diferentes. O que eu gosto neste género é que me permite representar personagens que estão distantes de mim. Digamos, eu não sou um sociopata. Pelo menos, acho eu… Bom, mas quanto a isso vai ter de aceitar a minha palavra…
Acha que a palavra adequada de fazer de vilão é mesmo “divertido”?...
Sim, divertido. Porque não? Divertido também como o médico que interpretei em ‘Master & Commander – O Lado Longínquo do Mundo’. Era uma personagem cheia de recursos; recursos que eu não tenho. Isso também foi divertido.
Como procura então para inovar esse perfil de vilão, sabendo que é sempre o herói a ganhar.
Bom, mas isso já era realidade nos tempos de Shakespeare. É esse o esquema da literatura e do cinema.
Digamos que ‘Firewall’ é o filme que marca mais esse seu registo. Como foi que tudo se passou?
Eu queria participar num ‘thriller’ e esse desejo veio com o Harrison Ford associado. Um ‘thriller’ com o Harrison Ford é já um género à parte. Ele é muito bom nesse registo. Eu não poderia querer mais. É bom trabalhar assim, quando sabemos muito bem o que temos de fazer, que, no caso, é fazer um ‘thriller’. Foi uma experiência muito boa.
No filme ‘O Código Da Vinci’ volta agora a ser o vilão…
Sim, mas é um pouco diferente. O Silas não é um tipo muito equilibrado.
Bom, é o assassino do professor e não só…
Sim, mas ele é mais uma espécie de arma do que propriamente um ser humano. Ele precisa muito de uma figura paterna que encontrou naquela relação mística.
Como avalia este seu trabalho?
Foi espectacular. Adorei a personagem do Silas, o vilão do ‘Código Da Vinci’.
Já tinha lido o livro quando fez o filme?
Não, confesso que só li o ‘Código Da Vinci’ depois de aceitar participar no filme. Quando me disseram que me iam enviar o guião, fui a correr comprar o livro e li-o num dia e meio.
Quando leu o livro, reviu-se nessa personagem?
Credo, não!
O que quero dizer é, ao saber que iria interpretar a personagem do Silas, conseguiu ver-se a encarnar essa personagem?
Não, achei apenas que era um tipo de desafio interessante. E também resolvia muitos problemas sobre a personagem.
Já trabalhou duas vezes com o Richard Loncraine (‘Firewall’ e ‘Wimbledon’) e duas com o Ron Howard (‘Uma Mente Brilhante’ e ‘O Código Da Vinci’). Parece que os realizadores têm a tendência para voltar a trabalhar consigo, não é?
É que eu tenho fotografias pornográficas deles… Por isso são forçados a voltar a trabalhar de novo comigo.
Será que Isso vai acontecer também com o Lar von Trier (‘Dogville’)?
Ainda não tenho fotos pornográficas dele. Já existem muitas nos seus filmes… (risos) No entanto, adoraria voltar a trabalhar com o Lars. Ele é uma sensação. Trabalhar com ele dá-me uma sensação extraordinária. Mas ainda não me convidou.
É verdade aquela história em que ele comprou revistas pornográficas e as mostrou dizendo que eram suas?
Sim, é verdade. Ele comprou um monte de revistas pornográficas quando me veio buscar ao aeroporto. Tínhamos parado numa bomba de gasolina e, ao pagar, levou toda a prateleira de revistas que lá havia. Virando-se para mim, disse, imitando a voz com sotaque dinamarquês de Lars: “Paul, precisas de porno?”; ao que eu respondi: “Não, pá, mas obrigadinho pela oferta”. Depois, já no hotel, entrou no meu quarto, largou as revistas em cima da cama e conversámos durante horas. Entretanto, a Nicole (Kidman) bateu à porta e entrou. Lars apresentou-nos: “Paul, esta é a Nicole; Nicole, este é o Paul”. E de repente: “Olha, mas que grande pilha de revistas porno!” Aí eu fiquei minúsculo, tentando defender-me dizendo que não eram minhas. Parecia mesmo um ‘teenager’ idiota. Enfim, uma história verdadeira…
Já vi publicado numa notícia que começou a fazer cinema porque estava com muitas dívidas, é verdade?
Isso seria muito estúpido da minha parte. A história não foi bem assim. Na altura, eu estava na escola de Arte Dramática e deixaram-me sair durante três dias para fazer um episódio para uma série de televisão para eu pagar as minhas dívidas. Não é uma grande história, eu sei, mas compreendo porque a tenham alterado…
Que ideia fazia do Harrison Ford antes de trabalhar com ele; e agora, alguma coisa se alterou?
Muito daquilo que ele é vemos nós nas personagens que interpreta. Se calhar, por isso é que ele é uma estrela tão importante. Tem algo que vibra dentro dele. É uma sensibilidade muito atraente que se vê no ecrã. É um tipo forte, duro, que é também muito sensível. Ele é mais divertido do que supunha. Parece ser muito lacónico e ausente, mas também não se importa muito. Não quer saber se é visto de uma forma menos subtil.
De que forma o Tom Hanks é diferente do Harrison Ford?
O Tom Hanks tem um sentido de humor mais negro e muito britânico. É algo que não se vê nos filmes dele. Se calhar, ele protege esse lado. Mas quando estava connosco no ‘set’ de rodagem era simplesmente hilariante. Gostei muito de trabalhar com o Tom.
Ele é do tipo que prega partidas aos colegas?
Não, ele é mais divertido e espirituoso. É muito observador e tem uma capacidade mímica incrível – consegue ser brutal, mas de uma forma divertida. Isso é algo que me agrada. Nesse sentido, é até um tipo de humor que me agrada.
Agora que trabalhou com estes dois grandes actores, acha que consegue portar-se melhor e não dizer tantos palavrões?
Não, acho que isso é mais difícil. A verdade é que o trabalho tem de sair bem e isso é melhor quando estamos descontraídos. Se eu fizer alguém rir, ele vai ficar mais descontraído.
Qual é para si a melhor forma de descontracção?
É relaxar, estar com os meus filhos, aborrecer a minha mulher (a actriz Jennifer Connelly), ouvir música. Muitas coisas…
Que tipo de música gosta mais de ouvir?
Tantas coisas. De John Lennon aos The Killers. O meu filho mais novo (Kai) está obcecado com esta banda de Las Vegas. E ele tem apenas dois anos e meio… É muito giro vê-lo a saltar e a cantar.
Eu sei que gosta de crianças, mas em ‘Firewall’ tinha de meter medo aos filhos do Harrison Ford. Como é que lidava com eles fora da rodagem?
Se durante a rodagem eu tenho de os intimidar, então quando não filmamos sou um pouco diferente do meu habitual. O miúdo estava sempre a jogar GameBoy. Quando o chamavam para fazer uma cena, ele parava e fazia-a impecavelmente; no final, suspirava e voltava a embrenhar-se no jogo
Se calhar, por isso é que o queria matar… (risos)
Sim, era muito irritante.
Em ‘Firewall’, é um ladrão que planeia roubar as contas à guarda da personagem de Harrison Ford. Também gere a sua actividade bancária por computador?
Não, eu sou um actor loiro, percebe… Tenho uma assistente que me trata dessas coisas. Mas é claro que faço compras pela ‘net’. Armas e assim… (risos)
Ouvi-lhe comentar que gostaria de voltar para Londres…
Eu disse isso? Sim, até é verdade, mas é também mais geral do que isso. Eu acho que poderia viver em Itália, em França, em Espanha, em muitos lados…
Em Portugal?...
Em Portugal? Não tinha pensado nisso, mas é assim tão bom?
Só experimentando, não é?
Vamos ver. A minha questão é mais com as pessoas de Los Angeles – como é que se chamam?
Os Los angelinos?...
Obrigado, é isso mesmo. São um pouco superficiais. Talvez seja a minha necessidade de estar todas as semanas numa cultura diferente. Isso é bom para os miúdos.
Digamos que é só o trabalho que o mantém em Los Angeles?
O meu filho mais velho (Kai) tem um pai biológico – acho que é esse o termo correcto – que é de Nova Iorque. Eles são muito chegados. Para facilitar as coisas, vivemos em Nova Iorque. De resto, é uma cidade fantástica para viver. Mesmo assim, sinto a falta da Europa, o que posso dizer?...
Os seus filhos costumam vê-lo nos filmes em que participa? Que ideia têm do pai actor?
São ainda muito novos e, francamente, não é algo que eu os motive muito para ver. O mais velho, tem oito anos, mas mesmo assim, acho que o ‘Firewall’ ainda é um pouco pesado para ele. Imagine então ‘O Código Da Vinci’…
No entanto, o mais novo já gosta dos The Killers…
É verdade. Eu penso que o mais importante que um pai pode fazer é apresentar os filhos a ‘pop stars’. Acho que esse é um exemplo excelente.
Mas que tipo de reacção têm quando vêem o pai na televisão ou no cinema?
O Kai viu-me em ‘Knights Tale’ e disse-me com ar sério: “Pai, fizeste um bom trabalho”. Essa foi a melhor crítica que já tive. Telefonei logo à Jennifer, entusiasmado, e disse-lhe: “O Kai gostou de me ver no filme. Estou tão comovido”. Mas tirando esse caso, não tem qualquer interesse em ver-me a mim ou a mãe nos filmes que fazemos.
Não se sente tentado em fazer uma comédia em que pudesse partilhar o resultado com os seus filhos?
Talvez. Mas não me interessa que fiquem impressionados comigo por isso. O que me interessa é que eu os impressione como pai. E não como uma estrela de cinema. Tenho muito orgulho pelo Kai estar a resistir a isso tudo e ficar até um pouco embaraçado quando lhe perguntam o que faz o pai. Ao que ele responde desinteressado: “O meu pai trabalha nos filmes”. Adoro isso e espero que continue assim. Não quero que os meus filhos gostem de mim por aquilo que eu faço.
Imagino que deve ter os seus problemas quando é, por exemplo, abordado por fãs ou por ‘paparazzi’…
O meu filho Kai tem essa noção, mas já o Stellan não faz a mínima ideia do que isso significa. Com ele, faço nessa altura o jogo das escondidas com os fotógrafos e é tudo. É muito divertido.
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