Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
7

O voo do falcão

“Começou por perguntar aos miúdos se gostavam de anedotas, para vir a explicar porque é que ele não as suportava”
5 de Dezembro de 2010 às 00:00
O voo do falcão
O voo do falcão

Na semana passada, tendo como fundo de pano a greve geral, falei por aqui dos problemas dos outros e da maneira como nós, de uma forma geral, os desprezamos. À medida que se aproxima a festa de aniversário do SOS Racismo, apetece falar de uma pessoa que através desta associação não só se liga aos problemas dos outros como faz deles os seus próprios, dedicando a estes a sua vida.

O Zé Falcão é aquele tipo de gajo que nos faz sentir mais pequeninos, que nos faz pensar que se calhar não somos assim tão boas pessoas, coisa que toda, mas mesmo toda, a gente acredita ser. Lembro-me dele dos inícios dos anos noventa, altura em que surgiu o SOS e que o PSR, donde viriam a sair alguns dos fundadores do Bloco de Esquerda, se não estou em erro, exprimia boa parte daquilo que eu pensava mas não conseguia articular.

Provavelmente não teria os cabelos tão brancos como tem agora, mas a imagem que tenho dele é mesmo essa. Se calhar mudaram de cor muito cedo com as ralações, se calhar não – na verdade não o conheço muito bem, cruzámo-nos duas ou três vezes ao longo destes anos, por isso tenho dele uma ideia como ele de mim terá uma, e temo que esta última possa ser a de um tipo que apesar de aparentemente bastante interessado, acaba por ser algo desligado e blasé. O chato é que há em mim muito para fundamentar essa opinião.

Adiante: numa das vezes que nos cruzámos, fomos a uma escola, numa acção que visava um debate com os adolescentes com forte cariz de preocupação humana e social. Dos quatro convidados, aquele cuja intervenção me ‘bateu’ mais foi mesmo a do Zé. Começou por perguntar aos miúdos se gostavam de anedotas, para vir a explicar porque é que ele não as suportava, já que quase todas parodiam de forma desrespeitosa um estereótipo injusto e redutor, do preto à loira, do alentejano ao cigano.

E ali começava um discurso pontuado pela seriedade de quem, antes de tudo, leva a sério as pessoas. Essa é a luta de quem se propõe a combater o racismo e a xenofobia, denunciando e acompanhando casos de discriminação racial. As comemorações começam dia 7 deste mês na Cinemateca Portuguesa e assumem contornos de festa durante 8, 9 e 10 no Clube Ferroviário, em Lisboa. Até lá, bom domingo, minha gente.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)