Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
2

O Carnaval não são só três dias

Cosplayers lusos explicam como e porquê aderiram a esta moda.
Ana Maria Ribeiro 23 de Agosto de 2015 às 16:30
A cosplayer Paula Nunes
A cosplayer Paula Nunes FOTO: Mariline Alves

Leonor Pinela diz que sempre gostou de se mascarar. Desde miúda, quando a mãe lhe fazia os tradicionais fatos de Carnaval e ela fingia ser índio, cossaco ou pescador. Mais tarde, como aluna da Escola Secundária Artística António Arroio, em Lisboa, deu asas à imaginação e passou a conceber os fatos, com que participava nos desfiles da escola "com grande prazer". Mas foi só nos anos 90 que, numa viagem a Londres, ouviu pela primeira vez o termo ‘cosplay’ e descobriu que há gente – adulta – que se veste como se fosse personagem de banda desenhada, filme de animação ou jogo de computador, só para se divertir. Foi o admirável mundo novo que se lhe revelou.






A cosplayer Leonor Pinela (foto de Mariline Alves)

"Percebi que havia outros como eu e isso inspirou-me", conta. "Através da internet conheci pessoas apaixonadas por animação japonesa e em 1996 fiz o meu primeiro fato [de Black Lady, das ‘Navegantes da Lua’] para ir a uma festa de Carnaval em casa de um amigo. No ano seguinte reuni um grupo de seis ou sete pessoas, vestimo-nos a rigor e fomos até ao Amadora BD, que naquela altura era praticamente o único evento de banda desenhada que existia no País."


E pronto. Estava lançada a moda do cosplay em Portugal. A palavra junta ‘costume’, ou seja fato, e ‘play’, isto é, representação, brincadeira. A prática, essa, existe desde que os norte-americanos Forrest J. Ackerman e a namorada Myrtle R. Jones, apaixonados por banda desenhada, apareceram mascarados na 1ª Convenção Mundial de Ficção Científica, em Nova Iorque, em 1939. Dos EUA a moda passou ao Japão e daí para o resto do Mundo. Em Portugal, existem neste momento 2300 seguidores da comunidade Cosplay na rede social Facebook. Embora nem todos sejam praticantes da arte, conforme alerta a cosplayer [praticante de cosplay] Paula Nunes.

Esta licenciada em design de comunicação e produção audiovisual, atualmente desempregada, diz que "há muitos curiosos" e "cada vez mais pessoas que se deixam encantar por este hobby tão bonito". Paula, que nos últimos cinco anos já criou 20 fatos diferentes – além das encomendas para outras pessoas –, admite que esta prática tem muito a ver com o teatro e que a tem mesmo ajudado a ultrapassar a timidez.


"Um dos grandes apelos do cosplay é, além de podermos usar estes fatos fantásticos, o facto de sermos um pouco mais do que nós próprios", explica. "Eu, que sou introvertida, dou por mim a falar com toda a gente quando estou nas convenções e apareço enquanto personagens femininas fortes. Nessa altura, as barreiras desaparecem completamente."

UM HOBBY CARO

Fazer cosplay não fica barato, mas os cosplayers esforçam-se por gastar o mínimo possível. Paula Nunes garante não ter gastado mais de mil euros nos 20 fatos que já fez e Leonor Pinela, que mantém a sua contabilidade controlada até ao centavo, explica que o fato mais barato lhe custou 46 euros e o mais caro, neste momento em construção, deverá "bater o recorde" e chegar aos 260. Formada em cinema e a trabalhar como freelancer (faz tradução e legendagem de filmes "para pagar as contas"), Leonor explica que tudo se torna mais fácil quando é o próprio a costurar as suas próprias peças. Como também descobriu Gonçalo Ribeiro, cosplayer recente, que adotou o hobby juntamente com a mulher, Andreia Marques, há oito meses.



O cosplayer Gonçalo Ribeiro (Foto de Mariline Alves)

"Não é essencial, mas ajuda muito saber de costura", diz ele. "Um cosplayer faz o trabalho equivalente a várias pessoas num filme: constrói os adereços, os fatos, as cabeleiras… Eu nunca pensei vir a fazer costura, mas tenho de admitir que é fascinante trabalhar os materiais e sentir que adquiri uma nova competência." Ao que Andreia acrescenta: "Eu própria sinto uma grande evolução: a minha experiência na costura era reduzida, mas agora até botas consigo fazer."




A cosplayer Andreia Marques (foto de Mariline Alves)

Ele com 38, ela com 37, e lançados nas respetivas profissões – Gonçalo é operador de laboratório num colégio de Lisboa e Andreia professora de física e química neste momento a planear um doutoramento em política educacional – o casal sempre foi apaixonado por banda desenhada e deixou-se apanhar pelo ‘vício’ do cosplay por ‘culpa’ da primeira edição da Comic Con (convenção de fãs de BD) em Portugal, em dezembro de 2014.


"Sempre quisemos ir à Comic Con em San Diego – era uma espécie de um sonho –, mas quando soubemos que ia haver uma cá em Portugal, fomo-nos preparar." Gonçalo levou um fato de Crossed (conjunto de personagens da editora britânica Avatar Press) e Andreia uma Black Cat, da Marvel. E apesar de novos nestas andanças, Gonçalo está apurado para o Eurocosplay 2015, que terá lugar em Londres, Inglaterra, em outubro. Conseguiu a proeza com um fato de ‘colonial marine’ do filme ‘Alien’.


EVENTOS E PRÉMIOS

Os cosplayers não andam pelas ruas vestidos como as suas personagens preferidas e surpreendendo os transeuntes. Nada disso. Encontram-se em eventos específicos, em convenções de fãs, em feiras de animação. André Filipe, gestor de recursos humanos de 26 anos que, em 2011, fundou a Associação Portuguesa de Cosplay, explica que se realiza, em média, mais de um evento por mês no nosso país. Entre os mais importantes está o Iber-Anime, festival de cultura japonesa que se realiza duas vezes por ano (Lisboa e Porto), o Anicomic (organizado por uma livraria), mas também o AniFest e o Asian Culture Party, promovidos pelos fãs. Quantos são, ao todo, os cosplayers portugueses, é que ninguém parece saber responder, e André Filipe diz que é impossível prever se se trata de uma moda passageira entre nós ou se é uma "arte para ficar". "Em França, por exemplo, onde há milhares de cosplayers, há uma indústria por trás que alimenta a atividade. Mas aqui, em Portugal, a realidade é muito diferente. Só o futuro dirá..."

E quem são as pessoas que se atraem pelo cosplay? Leonor Pinela identifica três grupos etários: os adolescentes ("muito poucos e nem todos muito a sério na coisa"); pessoas na casa dos 20 ("a maioria")] e os trintões) "muito menos"). "Sinceramente, da minha idade, não conheço nenhum", garante. Ana Isabela Santos prefere dividi-los por tipos. "Há quem prefira as sessões fotográficas; quem goste sobretudo de fazer os fatos (que é o meu caso) e os mais competitivos, para quem o grande aliciante deste hobby são os concursos e os prémios que oferecem."

Ela própria cosplayer há dez anos, Ana Isabela prefere não fazer contas ao que já gastou com o cosplay, mas sabe que o fato mais caro que fez custou 650 euros. Um outro, que levou 200 mil lantejoulas, 200 mil missangas, 80 metros de tule e 20 metros de tecido normal garantiu-lhe o primeiro prémio do ECG – European Cosplay Gathering de 2011. Participante regular em concursos, esta produtora de eventos desempregada acumula distinções, mas explica que a maioria dos prémios não é em dinheiro, mas viagens, estadias em hotéis, vales de desconto em compras. Importante, sublinha, é a possibilidade de contactar com outros cosplayers e trocar experiências. Como bem sabem as amigas Flávia Coelho e Suse Santos, de 27 e 28 anos, residentes em Alverca. Ganharam o hábito de construírem os seus fatos juntas e apoiam-se mutuamente. "O maior prémio – de 500 ou 700 euros, no World Cosplay Summit – vale menos do que isto: podermos aprender e conviver com pessoas como nós", conclui Suse Santos.




A cosplayer Flávia Coelho (Foto de Mariline Alves)

"HÁ COMENTÁRIOS, MAS AGUENTA-SE BEM"

A série americana ‘A Teoria do Big Bang’ tem como protagonistas quatro jovens cientistas que praticam cosplay. Muito funcionais em termos profissionais, todos têm problemas de relacionamento social. Leonor Grácias diz que o retrato "é bastante aproximado à nossa realidade". "Conheço muitos cosplayers que se sentem mais à vontade enquanto personagens do que enquanto pessoas...", garante a jovem de 25 anos que pratica cosplay há 11. No entanto, não é regra. Provavelmente a campeã das competições internacionais de cosplay – já ganhou "cerca de 50 prémios" –, a vice-presidente da Associação Portuguesa de Cosplay diz que é normal que haja quem os olhe de lado. "Há comentários, mas aguenta-se bem. E até hoje, nada que realmente choque..." Leonor pensa continuar a fazer cosplay "até aos 50 anos". "Há personagens nessa faixa etária. Sei lá. A vida dá voltas..."




A cosplayer Leonor Grácias (Foto de Vanda Allen)

Cosplayer
Ver comentários