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O hotel de luxo que nasceu pensão

O Tivoli enfrenta o período mais difícil dos seus mais de 80 anos de vida, depois do colapso do Grupo Espírito Santo.
Marta Martins Silva 3 de Março de 2015 às 14:34

Cozinha ainda se escrevia com ‘s’ e sossego com ‘cê’ no anúncio à Pensão Tivoli que saiu no ‘Diário de Lisboa’ em 1928. Foi lá, nas "instalações com todas as comodidades modernas e higiene; água corrente, um Serviço de cosinha doméstica e pura, uma Casa de toda a responsabilidade e muito socêgo", que se conheceram um ano antes os fundadores daquele que seria o hotel com o mesmo nome, Joaquim Gonçalves Machaz e José Francisco Cardoso, conterrâneos da freguesia beirã de Almaceda.

E, se naquela altura, ‘na casa preferida pelas boas famílias que veem para Lisboa’ havia ‘preços em conta’ e ‘grandes reduções a casais, permanências e a comensais’ – em fevereiro de 2015 o cenário da cadeia de (13) hotéis (em Portugal) é outro. É de luxo, por isso os descontos serão poucos, embora os números sejam negros: mais de 136 milhões de euros de passivo no final de 2013, 822 credores e 334 trabalhadores na incerteza.

A poucos dias de terminar o ano de 2000, o capital da empresa Hotéis Tivoli SA foi integrado no Espírito Santo Turismo, pelo que no verão de 2014 o colapso do Grupo Espírito Santo (GES) apanhou a Hotéis Tivoli em pleno processo de negociação para a venda dos seus ativos. A administração atribui responsabilidades à falência da Rioforte (holding não financeira do GES), principal acionista.

Machaz e Cardoso não imaginariam para o empreendimento que ousaram erguer do outro lado da avenida da Liberdade – aproveitando o fluxo crescente de viajantes que começava a desembarcar em Lisboa em 1933 – calvário semelhante, por muito que só no final da década de 30 tenham levado a bom porto a situação financeira do hotel.

"Intuíram os sócios que a conjuntura a curto prazo, impulsionada pelo progresso económico do mundo ocidental, à medida que as sequelas da ruína financeira originada pela Grande Guerra esmoreciam, seria favorável à crescente procura de alojamentos", escreveu Carlos Alberto Damas no livro ‘Hotel Tivoli Lisboa’.

"A autoformação em áreas onde não tinham [os fundadores] qualquer experiência, a forma como souberam mobilizar para essa meta as suas equipas de trabalhadores, o reinvestimento dos lucros, o endividamento cauteloso, a perspicácia negocial para aproveitar as melhores oportunidades, a antecipação do desenvolvimento da indústria turística não deixaram de ser alguns dos aspetos que mais me surpreenderam na investigação", acrescentou o historiador à ‘Domingo’.

DE 2ª CATEGORIA

O Tivoli foi a primeira unidade hoteleira a fixar-se na avenida da Liberdade, então "flanqueada por talhões ajardinados, sobre os quais assentavam, a espaços regulares, plátanos, olaias e palmeiras das Canárias (…) [onde] só o chiar dos grandes carros elétricos quebrava essa tranquilidade quando se detinham à porta, no seu ronceiro caminho". O hotel tinha, naquela altura, 45 quartos, oito deles com casa de banho – se fossem nove teria tido de imediato a classificação de 1ª categoria, pelo que em termos legislativos foi considerado de segunda. Naquela altura, uma diária custava entre 35 e 100 escudos, dependendo da acomodação em causa.

Nos primeiros anos da década de 40, Lisboa tornou-se porto de abrigo (e de esperança) para milhares de refugiados – "enquanto uns aguardam lugar para a América, outros estão em trânsito para a Costa do Estoril (…) No Tivoli não se movimentam só os que ali buscam alojamento, muitos dos quais portugueses. Grupos de gente não residente saltitam pelos hotéis, de bar em bar (…) À evasão proporcionada pelo ambiente descontraído e alegre dos botequins, ou pela frequência dos teatros do Parque Mayer, junta-se a conspiração, a compra, venda e troca de informações para os intelligence departments dos beligerantes", lê-se no livro.

Em plena II Guerra Mundial, cruzam-se os alemães e ingleses com refugiados, apátridas, aventureiros e especuladores. "O bar era poiso conhecido de espiões nazis e aliados." Diz-se que o bar do Tivoli atraía até finais de 1942 maior número de simpatizantes do Eixo, mas que com o avançar do conflito os clientes pendiam mais para os Aliados.

Reza, aliás, a história de que na noite de 19 de outubro de 1940, uma ‘bella donna’ vienense de 25 anos, filha de judeus austríacos, terá tentado no bar do Tivoli, junto de funcionários da legação norte-americana, obter um visto para os Estados Unidos, o que nunca lhe terá sido concedido porque o pai vivia na Áustria ocupada. Mas apesar do frenesim de hóspedes, nos anos do pós-guerra, o abastecimento de produtos alimentares foi um verdadeiro desafio para os hoteleiros, Tivoli incluído. Neste período foram várias as petições endereçadas ao órgão que então regulava os fornecedores para provisão de géneros sujeitos a racionamento desde 1943, como o azeite, bacalhau, farinha, arroz, açúcar e manteiga. Tanto que, a 7 de fevereiro de 1947, Joaquim Gonçalves Machaz rogava o fornecimento de 300 quilos de manteiga da Argentina: terá, sim, recebido a manteiga, mas de outra ‘nacionalidade’.

"Em momento algum, [os fundadores do Tivoli] deixaram de sonhar com planos mais ambiciosos, que culminariam, na década de 50, com a construção do moderno edifício do hotel, tal como hoje o conhecemos", elogia o historiador Carlos Damas.

A verdade é que depois de anos a enfrentar uma pesada burocracia municipal que foi vetando os planos de ampliação do hotel, Machaz e Cardoso conseguiram enfim a aprovação do novo projeto em janeiro de 1955, embora tenham esperado até julho de 1957 para a inauguração da primeira fase, numa altura em que Portugal começava a receber vagas de turistas ansiosos por conhecerem a Europa do pós-guerra.

ESTRELAS NO TIVOLI

E para que se veja que os seus fundadores não brincavam em serviço, foi nessa altura contratado – à semelhança do que era usual na hotelaria internacional – um chefe de cozinha: um belga a quem pagavam a fortuna, à época, de 25 contos mensais (cerca de nove mil euros). Os hóspedes agradeceram. Até porque os ilustres que por lá passaram foram muitos. Fanny Ardant, Charles Aznavour, Bo Derek, Carlos Drummond de Andrade, Mario Vargas Llosa, Tony Blair, Montserrat Caballé e Fidel Castro são apenas alguns nomes de honra.

Também o barão francês Marcel Bich, inventor da esferográfica de ponta de cristal, ali se hospedou em 1958, antes de rumar aos Estados Unidos para lançar no mercado a então revolucionária BIC, e o treinador húngaro Béla Guttmann (o que terá dito que sem ele o clube da Luz não voltaria a ganhar uma Taça dos Campeões) ali ficaram hospedados. Mas foi Beatriz Costa a hóspede mais famosa. A menina da franja instalou-se definitivamente no Tivoli na década de 60, no quarto 600 – ali deu o último suspiro, aos 88 anos, a 15 de abril de 1996. 

Mas no livro dos 75 anos do hotel que Carlos Alberto Damas escreveu não há grande espaço para a vida dos que o habitaram. E só se conta uma única queixa: incomodada com o piano que "alguém martelava", uma cliente chamou o empregado para que parasse a sinfonia. Informada de que quem tocava era afinal o pianista Arthur Rubinstein, desistiu da queixa e rematou: "Então deixe-o tocar à vontade, com muito gosto, porque assim não pago nada".

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