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O livro que explica o Rossio na rua da Betesga

Andreia Vale revela a verdadeira origem de expressões nacionais e estrangeiras em ‘Puxar a Brasa à Nossa Sardinha’
Leonardo Ralha 28 de Junho de 2015 às 16:30
Andreia Vale a "ver Braga por um canudo"
Andreia Vale a 'ver Braga por um canudo' FOTO: Pedro Catarino

Procurar respostas para o tipo de perguntas que são feitas quando se está a escrever uma notícia foi o desafio de Andreia Vale no livro ‘Puxar a Brasa à Nossa Sardinha’ (Manuscrito), que explica a origem de 271 expressões utilizadas no dia a dia.


Entre as mais difíceis de reconstituir, a jornalista de 36 anos, fundadora da CMTV, destaca justamente a expressão que está no título da obra. "Deu-me imenso trabalho e acabou por me surpreender, embora o significado de puxar a brasa à sardinha seja algo que toda a gente percebe. Mas a questão era, de onde teria vindo?", explica. A resposta foi descoberta "à última hora", graças à consulta de trabalhos do linguista brasileiro Antenor Nascentes e de Júlio de Castilho, o historiador de Lisboa que viveu no século XIX, e aparece logo nas primeiras páginas. E envolve carvão.


Mas nem todas as respostas foram encontradas. "O lado triste é que nunca se saberá de onde vem a maior parte das expressões. Não o que significam, mas sim a primeira pessoa que as disse ou a situação, peripécia ou acontecimento histórico a que dizem respeito. Há imensas que se vão perder. Ninguém escreveu sobre elas e não há registo nenhum", lamenta, esperando contribuir para que o mesmo não suceda a outras.


GATO PINGADO

A estreia da jornalista nos livros deveu-se ao convite de Sofia Monteiro, editora da Manuscrito. Mas o tema é-lhe muito caro, como revela na introdução: "As palavras de que eu mais gosto de dizer no meu dia a dia? Sem dúvida, as que me saem da boca sem pensar. São as chamadas expressões idiomáticas ou expressões populares."


Andreia Vale espera conseguir que os leitores tenham a mesma sensação com que ficava, ainda adolescente, ao perceber o motivo de as pessoas dizerem coisas como ‘passar as passinhas do Algarve’ – região onde passou a juventude, apesar de ser natural de Lisboa –, ‘cai o Carmo e a Trindade’ ou ‘nem disse água vai nem água vem’.


"Já conhecia quase todas as portuguesas e nenhuma me surpreendeu, tal como as relacionadas com a História e com a Bíblia. Talvez as maiores surpresas tenham sido as que dizem respeito a partes do corpo e a animais", afirma. ‘Gato pingado’, por exemplo, antes de ser um sinónimo de pouca gente era um artefacto extremamente desagradável utilizado no Japão...


FAZER TIJOLO

‘Puxar a Brasa à Nossa Sardinha’ está dividido em 14 capítulos, que agrupam expressões temáticas, caso do futebol, a publicidade, a religião ou o dinheiro. Mais difícil do que organizar o conteúdo foi travar nas 271. "Na fase final da pesquisa estava a dar em maluca. Cada vez que dizia que a lista estava fechada, no dia a seguir já tinha mais 20 expressões", diz Andreia Vale, que demorou cerca de nove meses a chegar ao resultado final. "Tenho dois rapazes e costumo dizer que este é o meu terceiro filho. Foi o tempo de uma gestação", diz.


Entre os "toques pessoais" que deixou na escrita do livro, destaca a forma como a experiência de ter vivido nessa parte da capital lhe fez entender o ‘resvés Campo de Ourique’, que significa mesmo à justa. Neste caso há duas teorias para a origem: ou o facto de o maremoto que arrasou Lisboa em 1755 não ter chegado a tal parte ou, avançando um século, a forma como o bairro continuou a pertencer a Lisboa por poucos metros, visto que a atual rua Maria Pia fazia então parte da estrada da Circunvalação.


Ainda assim, é provável que muitos dos que sabem, mesmo sem serem lisboetas, que ‘meter o Rossio na rua da Betesga’ significa a impossibilidade de colocar algo que é muito maior do que o espaço que lhe foi destinado, ignorem que ‘fazer tijolo’ esteja ligado à morte porque o barro com que foram feitos os tijolos necessários para a reconstrução de Lisboa, após o terramoto de 1755, foi retirado de zonas da cidade onde havia cemitérios judaicos.


Enquanto não decide o tipo de árvore que pretende plantar, encerrando a trilogia de uma célebre expressão que também se encontra em ‘Puxar a Brasa à Nossa Sardinha’, a jornalista espera agora pela reação dos leitores. "Gostava de ver se corre bem, se as pessoas gostam da minha escrita, antes de pensar noutros voos", diz.
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