Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
4

O menino de sua mãe

Filho de portuguesa que entrou em morte cerebral três meses antes do parto junta-se à lista de ‘milagres’ da ciência.
Marta Martins Silva 12 de Junho de 2016 às 15:00
Caso do menino nascido no dia 7 é único em Portugal e raro no Mundo
Caso do menino nascido no dia 7 é único em Portugal e raro no Mundo FOTO: iStockphoto

Não se sabe como é que S. descobriu que estava grávida. Se teve enjoos, sono, fome, desejos. Ou se foi um teste de gravidez a dar a notícia da gestação. Não se sabe como contou ao companheiro, se era um projeto há muito sonhado ou se foi uma gravidez que apanhou de surpresa o casal. Também não se sabe se já tinham escolhido o nome para o bebé que crescia no ventre de S., se tinham comprado roupinhas em miniatura e mobilado o quarto.


Sabe-se que 15 minutos antes da meia noite de 20 de fevereiro aquela mãe entrou no Hospital de São José, em Lisboa, com uma hemorragia intracerebral, numa altura em que estava grávida de 17 semanas. Encontrava- -se em morte cerebral mas o bebé crescia saudável no útero materno – onde ficou mais três meses (até às 32 semanas), uma espécie de casulo sem vida onde continuou a desenvolver-se até poder nascer, por cesariana, na terça-feira, dia 7 de junho. Veio ao Mundo com saúde, com 2,350 quilos, mas sem uma mãe para o segurar e amamentar nas primeiras horas de vida, olhando para ele certa de estar perante o seu mais precioso tesouro. Nasceu, no entanto, rodeado de cuidados de uma equipa médica que durante mais de três meses fez de tudo para que nada lhe faltasse, uma segunda família de bata branca que o rodeou de cuidados mesmo antes de lhe ver o rosto (tal como as mães durante a gestação). A manutenção da gravidez foi conseguida através do suporte hormonal, nutricional e funcional da mãe.

UM ATO DE AMOR

"Na vida, as questões não são a preto e branco. Temos de saber quais são os valores éticos fundamentais, o que é a preservação da vida e da vontade dos pais, de o ver nascer saudável e a inexistência de prejuízo para quem quer que seja. Temos de ser solidários e ter compaixão por esta família por este ato de amor, uma família que vê nascer uma criança num dia e que no dia seguinte enterra a mãe. Aqui a vida foi posta em primeiro lugar, como deve ser. Pelo direito à busca pela felicidade. Ninguém terá coragem de dizer que isto não é eticamente correto", acredita o juiz Eurico Reis, presidente do Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA).


Comparando este caso com o da mulher que pediu autorização para engravidar do marido morto – o casal tinha embriões congelados depois de tratamentos de fertilidade falhados – e viu o pedido recusado em 2015, Eurico Reis considera que as duas situações são completamente diferentes. "Esse caso levantava mais questões, não era inequívoca a declaração de vontade do marido, por isso o desígnio de levar esse processo para diante não estava claro. Aqui uma mulher que está grávida de 17 semanas é obvio que quer que nasça aquele bebé." A decisão de dar a oportunidade da vida ao bebé milagre – já é chamado assim pelo facto de ser caso inédito em Portugal e bastante raro no Mundo – foi tomada em conjunto pela equipa médica e pela família (o pai da criança e os avós maternos).

"Resta interrogarmo-nos sobre o que é que se passou de diferente em termos das trocas metabólicas e emocionais que um bebé tem quando ainda está no ventre materno, se esta ausência que terá havido nesta troca sensorial terá efeitos mais tarde. Não temos hoje dados científicos e seguros para pensar extensivamente quais terão sido os efeitos de alguma coisa que não existiu. Porque o bebé desde muito cedo vai garantindo o preenchimento das conexões e sinapses do sistema nervoso central nas trocas afetivas e emocionais com a mãe", questiona o pediatra Gomes Pedro. Se o pai deste bebé lhe entrasse pelo consultório, o médico diria por isso "para criar esta criança com toda a paixão, tentando compensar o que pelo caminho ficou perdido… podemos especular que alguma coisa não existiu, e não sabemos o que representa essa alguma coisa. Por isso, que este pai esteja presente para a criança, garantindo uma representação parental aos níveis mais ínfimos desde os primeiros tempos de vida: na dimensão motora, emocional, sensorial. A capacidade de adequação do bebe é enorme por isso temos de ser otimistas e muito do que perdeu será compensado com o amor do pai", acredita o especialista.

"Há uma coisa que para mim é inviolável, que é a vida humana, que desde que se faz fertilização in vitro já se sabe quando é que começa. Se foi daquelas células que se juntaram que nós cá estamos, onde é que está a dúvida? Aqui lutou-se pela vida humana e só por isso valeu a pena. Foi uma grande vitória porque é evidente que exigiu cuidados muito especiais e que saiu caríssimo", afirma Gentil Martins, ele próprio responsável por um ‘milagre’ da medicina: separou em 1978 as primeiras gémeas siamesas que sobreviveram em Portugal. As bebés tinham na altura quatro meses e foram submetidas a uma (longa) cirurgia de doze horas, onde tudo eram complicações.

"A palavra ‘milagre’ tem de ser usada no sentido de ‘coisa excecional, de que antes não era possível’, porque, para mim e para o dicionário, ‘milagre’ significa que uma coisa é impossível. Quando comecei a tratar o cancro nas crianças, morriam 80%, agora, salvam--se 80%. Antes das vacinas morria-se de tudo e mais alguma coisa. Isto não são milagres, é a evolução da medicina", diz, pragmático.

Na verdade o que hoje parece milagre, amanhã torna-se rotina. Carlos Saleiro, ex-jogador do Sporting e atual atleta do Oriental, seria um bebé igual a tantos outros, mas por ter sido concebido através de uma técnica de procriação medicamente assistida (fertilização in vitro – FIV) – a 25 de fevereiro de 1986, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa – teve honras de primeira página durante dias seguidos. A revista de ‘O Jornal’ chamava-lhe ‘Um milagre com paredes de vidro’, numa alusão à criação de bebés em tubos de ensaio.

Por essa altura já tinham nascido no mundo 220 bebés-proveta, desde o parto de Louise Brown, em 1978, mas Carlos era o primeiro bebé-proveta português, o que fazia de António Pereira Coelho, o médico que liderou o procedimento clínico, o ‘Doutor-Proveta’. O médico tinha estado em Paris "com o objetivo de trabalhar na sua tese sobre aplicações endoscópicas, mas apercebeu-se de que o futuro passava pela FIV, a técnica de procriação medicamente assistida que consiste na junção dos espermatozoides e óvulos em meio laboratorial e posterior implementação no útero da mulher (...) Regressou de Paris em 1984 com vontade de ser o primeiro. No Hospital de Santa Maria, em Lisboa, começou a criar a unidade pluridisciplinas de reprodução e a selecionar os casais que tinham indicação para se submeter a um tratamento de FIV", escreve Sandra Moutinho no livro ‘Filhos da Ciência’, editado pela Marcador.

"Este bebé adorável [Carlos Miguel Saleiro] sempre teve alguma dificuldade em entender o interesse em redor da sua figura. Ao lado da mãe, com quem revela grande cumplicidade, o ‘menino milagre’ contou- -me que desde sempre se apercebeu de que o seu nascimento tinha alguma coisa de diferente", conta a autora do mesmo livro.

Em 2012 – o último ano para o qual há dados relativos a este assunto – nasceram em Portugal 2134 crianças com recurso a técnicas de procriação medicamente assistida, o que corresponde a 2,4% do total de nascimentos no País naquele ano, um número em franco crescimento. O que na altura de Saleiro foi um milagre, hoje é uma prática clínica feita tanto no público como no privado por casais que não conseguem engravidar de outra forma e que é assumida com mais naturalidade.

A ciência continua a dar uma ajuda, mas à medida que os anos passam muitos destes ‘milagres’ tornam- -se comuns. Como os bebés que nascem prematuros – há 20 anos, as hipóteses de sobrevivência de um bebé com 500 e 600 gramas eram praticamente nulas. Hoje, em mais de metade dos casos com 25 semanas já é possível completar o trabalho cá fora, com o esforço e dedicação das equipas de neonatologia dos hospitais e uma grande coragem por parte dos pais que veem os filhos nascerem (muito) antes da data prevista.

MÃES MORTAS

O bebé da mãe S., a portuguesa que o Hospital de São José manteve viva até completar oito meses de gravidez, não foi caso único no Mundo. Um dos casos mais mediáticos aconteceu em Oakland, nos EUA, em 1993. Trisha Marshall, de 28 anos, foi atingida a tiro quando fazia um assalto. Mantiveram-na viva três meses e meio. A 3 de agosto de 1993 nasceu um menino, às 32 semanas de gravidez, com 1,8 quilos, e foi desligada a máquina de suporte de vida que a mantinha em condições de servir de casa ao bebé que não chegou a conhecer. Em 2015, Karla Perez, de 22 anos, sofreu uma hemorragia cerebral a 8 de fevereiro de 2015, no Nebraska, também nos EUA. A mulher estava grávida e por isso foi mantida viva no Hospital Metodista por 54 dias. A 6 de abril, nasceu Angel, uma menina, de cesariana, ao mesmo tempo que a mãe foi declarada morta. Nunca a morte e a vida estiveram tão próximas como nestes casos.

Não se sabe como é que S. descobriu que estava grávida. Como contou ao companheiro. Se já tinha escolhido o nome do bebé. Se tinha o quarto mobilado e as roupinhas na gaveta. Mas a equipa médica que durante 108 dias zelou para que o corpo desta mãe fosse uma boa casa para o filho que gerava quer acreditar que S. ficaria feliz com a decisão que tomaram de o fazer viver mesmo sem ela.

 

FUTEBOLISTA FOI PRIMEIRO BEBÉ-PROVETA PORTUGUÊS

 

O futebolista Carlos Saleiro nasceu 11 anos após o casamento dos pais. Ao fim de três anos de tentativas para engravidar, o diagnóstico da mãe, Alda, acusou uma obstrução nas trompas de Falópio. Depois de uma intervenção cirúrgica infrutífera, integraram um lote de 11 casais em circunstâncias semelhantes e submeteram-se a um processo até então inédito em Portugal. Só três mulheres conseguiram engravidar e duas delas abortaram. Alda foi a única a manter a gestação até ao fim, a 25 de fevereiro de 1986.  

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)