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O primeiro ano da professora

Inês Machado é a única professora que vai iniciar carreira no público.
Vanessa Fidalgo 21 de Setembro de 2015 às 19:11
Inês Machado sempre teve vocação para professora
Inês Machado sempre teve vocação para professora

Inês Machado já arrumou a mala e a pasta na Marinha Grande, onde vivia com os pais até há poucos dias, e apresentou-se preparada para o início do ano letivo no Agrupamento de Escolas de Alcochete. Chegou cheia de entusiasmo e expectativas. O caso não é para menos. Inês é a única nova professora que este ano conseguiu colocação no sistema de ensino público, pelo menos segundo os últimos dados fornecidos pelos sindicatos de professores, a uma semana do início das aulas.

"Não diria que é propriamente um bom motivo para sorrir, porque isso só ilustra as dificuldades que os professores hoje em dia enfrentam para poderem exercer a sua profissão, mas pessoalmente era uma coisa que eu queria muito e por isso estou muito feliz e entusiasmada por ter conseguido. Há já dois anos que me candidatava e agora chegou finalmente a minha vez", justifica a professora de Português e Espanhol, que irá lecionar a língua de Cervantes a turmas do oitavo e do nono ano.

Quando atravessa os corredores da sua nova escola, as auxiliares sorriem. Elas, que ali estão há décadas, já se habituaram ao vai e vem anual de professores, mas brindam com especial carinho os mais jovens e inexperientes como Inês, a única que chegou com zero horas de experiência no formulário de candidatura validado pelo Ministério da Educação. "Vai ver que corre tudo bem, professora. Eles até lhe vão ter mais respeito... Já vi muitos casos assim", garante a funcionária da biblioteca escolar. Inês também acredita.

Não será propriamente a primeira vez que enfrentará uma turma. "Já passei por essa experiência no estágio, que fiz em Vilar Formoso. Era um sítio calmo e fui muito bem recebida pelos alunos. É óbvio que eles sabem que nós também estamos ali a ser avaliados. E também estão nervosos. Mas tive uma sensação de grande colaboração da parte deles e nunca senti que se estivessem a aproveitar da situação ou a dificultar-me a vida", recorda. Ainda assim, Inês confessa que os nervos fazem parte do primeiro dia de aulas, este ano agendado para amanhã, 21 de setembro.

"Os alunos estão nervosos e os professores também, mesmo aqueles que já lecionam há vários anos. Quem ensina tem a expectativa de conhecer as turmas e os alunos, de saber que relação de empatia vai conseguir estabelecer com eles...", confessa. Inês sabe, para já, que terá alguns alunos da Academia do Sporting, que fica também em Alcochete e com a qual a escola onde vai dar aulas tem um protocolo. "E isso é logo uma boa notícia, porque consta que são alunos muito motivados para a aprendizagem de línguas, sobretudo do castelhano, pois têm um enorme mercado de trabalho em Espanha", revela.


NO PRIVADO, PRIMEIRO

Apesar de ter apenas 24 anos, esta será a sua terceira experiência profissional. Antes já tinha passado por um estabelecimento de ensino privado em Cernache do Bom Jardim e também esteve um ano em Salamanca, onde trabalhou como auxiliar de conversação de português.

Desde que se lembra que quis ser professora. "Sou e sempre fui apaixonada pelo meio escolar. Aliás, antes mesmo de andar na escola já sentia essa grande expectativa de aprender a ler e a escrever. Adoro o sítio, a organização do espaço-escola, e penso que isso foi a base da minha escolha muito prematura, apesar de também desde cedo ter tido a noção de que não seria um caminho fácil. Por outro lado, tive professores que me marcaram muito, que me ajudaram e que ainda hoje tenho como referências na minha vida", recorda.

A vontade de transmitir conhecimento veio muito depois. "Talvez só tenha sentido essa vocação com a aquisição de uma certa maturidade. Confesso que a minha motivação inicial para ser professora era uma coisa mais fantasiosa", acrescenta.

Inês sabe o que a espera. Ou pelo menos imagina. Quase uma centena de adolescentes na idade de questionar tudo e mais alguma coisa!

"É uma idade desafiante em todos os sentidos. Geralmente custa-lhes a perceber porque é que têm de estar tanto tempo na escola e nem sempre estão dispostos a ouvir tudo o que temos para lhes dizer, mas também já não são criancinhas… É uma idade em que têm um espírito muito vivo e entusiasta." Todavia, apressa-se a dizer que o essencial do trabalho de um professor é ensinar aos alunos mais do que a matéria: "O espírito crítico, a vontade de saírem da sua zona de conforto."

Agora, a Inês só falta concluir a mudança de casa. No meio da lotaria que é o concurso de professores até teve sorte. Vai partilhar morada em Alcochete com a irmã, que é bióloga na Herdade de Pegões. "Está quase tudo pronto e estou feliz, numa casa com vista para o rio, numa cidade calma mas perto de Lisboa", congratula-se.

Para o fim, fica o último desejo, também o mais difícil de concretizar: "Ter colocação para o ano também!" O ideal seria que ficasse na mesma escola, mas sabe que é praticamente impossível. Não se importa. Inês levará a pasta e as memórias dos seus primeiros alunos para onde o destino a mandar.

Inês Machado Agrupamento de Escolas de Alcochete
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