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O 'rei' segue para o Panteão

Na próxima sexta-feira, Eusébio da Silva Ferreira entra na galeria dos notáveis da nação.
José Carlos Marques 28 de Junho de 2015 às 13:30
Adolfo Leal fabricou arca funerária de Eusébio na sua oficina de Vale do Lobo, em Sintra
Adolfo Leal fabricou arca funerária de Eusébio na sua oficina de Vale do Lobo, em Sintra FOTO: João Santos

A oficina de Adolfo Leal, em Vale do Lobo, concelho de Sintra, os dias correm atarefados. Especialista em arte fúnebre, tem nas mãos a construção de um túmulo que será certamente um dos mais visitados do País: trata-se da arca funerária em que vão ficar depositados, no Panteão Nacional, os restos mortais do futebolista Eusébio da Silva Ferreira, falecido em 2014.


"É um grande orgulho fazer o monumento fúnebre de um homem grande, como foi Eusébio. Eu até sou sportinguista, mas Eusébio é uma figura que merece todas as homenagens", conta Adolfo à ‘Domingo’. O artista funerário já tinha sido o autor do monumento ao ‘King’ que está no cemitério do Lumiar, mas agora as regras são bem diferentes. "As arcas funerárias do Panteão Nacional são todas iguais, não há um desafio criativo. A dificuldade é encontrar pedra de lioz por ser uma peça muito grande."


A arca em causa mede 2,7 metros de comprimento, por 1,10 de largura e terá a altura de 1,75 m. São quatro toneladas de pedra, que deverão chegar ao Panteão Nacional a 1 de julho (quarta-feira), dois dias antes da grande cerimónia da trasladação que vai levar o futebolista à sala II do monumento, onde estão os túmulos de Humberto Delgado, Aquilino Ribeiro e Sophia de Mello Breyner. Os dois últimos são obras de Adolfo Leal.


"O primeiro trabalho que fiz para o Panteão foi a gravação do nome de Amália Rodrigues na arca que está no Panteão, em 2001. Na altura, o trabalho foi acompanhado por uma equipa do Museu de Etnologia, que registou as técnicas de gravação dos nomes na pedra. São coisas que se estão a perder." Adolfo começou a trabalhar na arte fúnebre ainda jovem. O pai e o avô já se dedicavam ao negócio, para ele, foi natural pegar no escopro e martelo. Tem formação em desenho técnico e construção civil e concebeu, ao longo dos anos, dezenas de jazigos, campas e mausoléus. Aos 48 anos, vê as encomendas escassear: "Hoje, as pessoas preferem ser cremadas e já há poucas famílias a querer construir monumentos fúnebres." Com obra espalhada por cemitérios de todo o País, quase todas nascida da sua criatividade, Adolfo Leal lembra os monumentos fúnebres que fez para o antigo ministro das Finanças Sousa Franco, ou para os pais do professor Marcelo Rebelo de Sousa. Mas considera especiais as arcas que construiu para depositar os restos mortais de Manuel de Arriaga, Aquilino Ribeiro, Sophia de Mello Breyner e agora Eusébio. "Os túmulos do Panteão não se destacam pela originalidade, mas pela presença e notoriedade. Estão ali as grandes figuras da nação."

EUSÉBIO É O 12º

As cerimónias da trasladação de Eusébio, marcadas para a próxima sexta-feira, deverão levar ao Campo de Santa Clara uma multidão equiparável àquela que, em 2001, compareceu para prestar homenagem a Amália Rodrigues. A fadista foi a primeira mulher a entrar na galeria de notáveis, onde também está, desde julho de 2014, o corpo da poeta – a designação foi escolhida pela própria – Sophia de Mello Breyner.


Outros dois ‘inquilinos’ da antiga Igreja do Campo de Santa Clara chegaram já neste século: Manuel de Arriaga, o primeiro Presidente da República foi trasladado do Cemitério dos Prazeres em 2004, o mesmo local onde, até 2007, jaziam no talhão dos poetas as ossadas do escritor Aquilino Ribeiro.


A primeira figura a receber honras de Panteão Nacional no período democrático foi Humberto Delgado, cuja urna chegou em 1990. O general que desafiou o regime salazarista ao candidatar-se às eleições presidenciais de 1958 conheceu então a segunda trasladação. Assassinado pela PIDE em Espanha, em 1965, foi inicialmente enterrado em Villanueva del Fresno, localidade junto à fronteira onde foram encontrados os corpos do general e da sua secretária. Negados os pedidos da família para o general ser enterrado em Lisboa ou na antiga vila portuguesa de Olivença, só em 1975 as ossadas puderam vir para Portugal. O destino foi o Cemitério dos Prazeres, em Lisboa. Quinze anos depois, a Assembleia da República decidiu por unanimidade a sua trasladação para o Panteão Nacional.


As restantes seis personalidades que têm as suas ossadas na antiga Igreja de Santa Engrácia foram lá colocadas por ordem do Estado Novo. Em 1964, Salazar visitou a igreja, cujas sucessivas obras de remodelação ou recuperação duravam há três séculos.


Nessa altura, há muito que o edifício tinha perdido as funções religiosas. No século XIX, aquando da extinção das ordens religiosas, a igreja foi ocupada pelo Exército e aí chegou a funcionar uma fábrica de calçado. O escritor Ramalho Ortigão foi o primeiro a sugerir que ali fosse instalado o Panteão Nacional, em 1896, ideia que motivou mais uma mão cheia de projetos arquitetónicos que nunca saíram do papel. Iniciaram-se várias obras, nunca acabadas, e o impasse deu origem à expressão "obras de Santa Engrácia".

António de Oliveira Salazar empenhou-se em completar o monumento em dois anos. Fez questão de que a obra estivesse pronta a tempo da comemoração dos 40 anos da revolução de maio de 1926, que abriu caminho ao regime ditatorial. Durante o período em que decorreram as obras, houve acesa discussão acerca de quem seriam as personalidades a figurar no novo Panteão Nacional, que completaria os túmulos já existentes nos Jerónimos. A escolha acabou por recair em seis personalidades relativamente consensuais à época. Três escritores e poetas: Almeida Garrett – um dos primeiros a defender a construção de um Panteão Nacional, no século XIX; Guerra Junqueiro e João de Deus. Seguiram também dos Jerónimos os restos mortais dos antigos Presidentes da República Teófilo Braga, Sidónio Pais e Óscar Carmona, um dos líderes da revolução de 1926 .


TÚMULOS VAZIOS

Em 1966, o governo decidiu homenagear outras seis personalidades, cujos restos mortais estão noutros locais ou cujo paradeiro se perdeu. O Panteão Nacional presta homenagem a Luís de Camões, cujos restos mortais, ou antes as ossadas que se supõe serem do poeta, foram trasladadas da Igreja de Santa Ana, em Lisboa, para os Jerónimos, em 1880, a propósito da comemoração do terceiro centenário da morte do poeta d’‘Os Lusíadas’.


Na mesma data, foi levada da Vidigueira para o mosteiro de Belém a urna do navegador Vasco da Gama, falecido em Cochim por volta de 1524. Os túmulos do poeta e do navegador permanecem nos Jerónimos. 


Os monumentos fúnebres de dois outros heróis nacionais perderam-se no terramoto de 1755. Foi o caso do vice-rei da Índia, Afonso de Albuquerque, que estava sepultado na Igreja de Nossa Senhora da Graça dos Eremitas Santo Agostinho, em Lisboa. A urna de D. Nuno Álvares Pereira, que repousava no convento do Carmo, fundado pelo próprio no séc. XV, ficou destruída com a ruína do edifício, destruído pelas chamas  naquela fatídica manhã de 1 de Dezembro de 1755. Mas no caso do Condestável, parte das ossadas foram encontradas e repartidas pela Capela da Ordem Terceira, em Lisboa, e a Igreja do Santo Condestável, em Campo de Ourique, construída no século XX, em pleno Estado Novo.


Outros dois túmulos lembrados através de Cenotáfios colocados na ala sul da antiga igreja permanecem longe de Lisboa. A urna do descobridor Pedro Álvares Cabral está na Igreja da Graça, em Santarém, mas parte das ossadas foi doada à antiga Sé do Rio de Janeiro, para onde seguiu em 1903. Quanto ao infante D. Henrique, este tem a última morada no Mosteiro da Batalha, depois de uma primeira sepultura em Lagos. Repousa nas capelas imperfeitas, onde estão também os seu pais, o rei D. João I e Filipa de Lencastre, e os irmãos que Camões apelidou de "Ínclita Geração".

 

CORTEJO PASSA PELO ESTÁDIO DA LUZ

As cerimónias de trasladação de Eusébio da Silva Ferreira começam às 15h30 de sexta-feira no Cemitério do Lumiar, de onde vai sair a urna. Segue-se uma missa privada, para a família, no Seminário da Luz e o cortejo continua depois para o Estádio da Luz. Estão previstas paragens no alto do parque Eduardo VII, onde serão prestadas honras militares, na sede da Federação Portuguesa de Futebol (no Rato) e no Parlamento. O cortejo deverá chegar ao Panteão pelas 19h00, onde Dulce Pontes entoa o Hino Nacional. O elogio fúnebre cabe ao ex-futebolista António Simões e Rui Veloso vai cantar.

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