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O tempo não volta para trás

Anúncio de imobiliária não deixa dúvidas: o edifício do Ritz Club está à venda. Acaba uma certa ideia de Lisboa
Vanessa Fidalgo 15 de Maio de 2016 às 15:00
O Ritz Club traduzia a revolução de valores dos anos 70
O Ritz Club traduzia a revolução de valores dos anos 70 FOTO: Luís Pavão

Casa de poetas e burgueses, coristas e músicos, chulos e prostitutas. Durante cem anos, o Ritz Club foi salão de baile, palco de striptease e concertos de rock, cenário de amores e ciúmes, confusões de faca e alguidar e álcool. Um mito na história cultural e boémia de Lisboa. Agora está à venda por três milhões de euros, de acordo com o anúncio publicado no site de uma empresa de mediação imobiliária.

No número 57 da Rua da Glória, o Ritz abriu portas em 1908, ainda no tempo da monarquia, como Tuna Comercial de Lisboa, um lugar para se escutar música ao vivo. Depois, chamaram-lhe o Treze da Glória, Cabaré Montanha e Dancing Concha até que, finalmente, nos anos 30 assentou como Ritz Club.


Mas nos anos 20 já era um local amado pela boémia. "O jogo contribuía de forma decisiva para tornar o clube noturno num local ambivalente: centro de luxo e de marginalidade civilizada", descreve Júlia Leitão de Barros, na obra ‘Os nightclubs de Lisboa dos anos 20’.


ATÉ O PESSOA

Conta-se que aquele foi o primeiro poiso da cocaína, introduzida em Lisboa por uma certa senhora francesa, nos tais loucos anos 20. Que Fernando Pessoa passava por ali para beber absinto e ‘pernod’. Passava o poeta mas também os soldados que depois partiam para o Ultramar, derradeiras horas antes de descerem em direção à Rocha do Conde de Óbidos para embarcar para a guerra e despedirem-se com lágrimas embriagadas da terra, das mães, das namoradas e das irmãs de lenço branco na mão. Janita Salomé foi um deles, recorda Vitorino.


O irmão do músico rumou para a guerra nas antigas colónias depois de uma noitada no Ritz Club, muito tempo antes de o próprio vir a ser promotor cultural do espaço a partir dos anos 80. "Comecei a vir com 20 anos, com os amigos. Era uma aventura de moços novos da província em Lisboa. Apanhávamos a camioneta que passava pela ponte de Vila Franca, visto que ainda não havia a 25 de abril e a noite fazia-se no Ritz até de manhã. Pagava-se 20 escudos para entrar, o que até era barato. Era o fascínio da noite, da boémia, com uma certa decadência de que nós na altura não nos dávamos conta", recorda Vitorino.


"Havia duas orquestras, uma de tango, outra de fado-canção. Havia os bandoneons (um tipo de concertina popular na argentina), o Pepe Cardinali, as espanholas que dançavam, um casal que tinha vindo do Parque Mayer e que esteve ali a atuar quase até morrer... faziam uma rábula com palavras. Havia mágicos, circo e coristas. O Ritz era muito rico em personagens que faziam parte dessa boémia lisboeta. Dentro e fora do palco. Porque ali conviviam as prostitutas, os chulos, os estudantes, a burguesia com pouco dinheiro que gostava de dançar e gente do espetáculo de vaudeville. Mas acima de tudo era um espaço de liberdade cultural. E, por isso, havia também muitas histórias de amor – amores trágicos, violentos, ciúmes...", conta Vitorino.


Ao longo de mais de um século, o Ritz conheceu muitas fases, umas mais douradas que outras. A primeira transformação dá-se ainda na década de 30 do século passado, quando António Antunes Araújo, então chefe de mesa, ascende a gerente do então ‘dancing’ e o transforma num popular cabaret.


Ao gerente deve-se o nome que carrega até hoje – Ritz Club. O tecto era trabalhado, com um magnífico lustre central, paredes floridas e chão de madeira policromática. No rés do chão havia uma florista e um barbeiro, "para os senhores se aprumarem para a noite ou, mais vezes ainda, para se arranjarem condignamente para, depois da noite, irem trabalhar no dia seguinte", recorda o músico. No primeiro andar servia-se fado-canção e bacalhau à Brás. No segundo piso, a mítica sala de espetáculos com mezanine. A Grande Orquestra do Ritz ficava ao meio para que à volta se dançasse: bolero, tango. As "danças modernas" da época, entenda-se. Sempre com um certo travo a transgressão… A meio do caminho, o Ritz passou para as mãos de uma viúva, "uma antiga mulher do então proprietário que com ele casou já em idade mais avançada". A típica história da sopeira e do patrão, que sempre fez parte da sina de Lisboa. À falta de filhos, a senhora deixou depois a sala a um afilhado.


OUTROS COSTUMES

A liberdade cultural, pelo visto, entendia-se bem com a polícia dos costumes do regime de Salazar. "Até porque depois desta coisa das despedidas no cais, que vem desde o século XV e que continua a ser a triste realidade portuguesa, a corrupção também foi uma coisa muito nossa. No Ritz entrava a polícia dos costumes mas ficava para beber. E quase nunca se sabia onde acabava o polícia e começava o chulo... Uma das maiores brigas a que assisti no Ritz foi entre um polícia local e um desses polícias dos costumes. E de certeza que estavam a disputar território...", recorda com um sorriso de saudade.


A noite que desafiava os conceitos morais atraía portugueses mas também muitos estrangeiros, sobretudo depois do 25 de Abril, claro.  


"Lisboa estava parada no tempo. Já a Europa toda evoluíra e Lisboa continuava a ser ingénua, genuína e kitsch. Isso atraía muitos estrangeiros", recorda Vitorino. Alguns simples noctívagos, artistas e intelectuais curiosos, outros marinheiros traquinas, desembarcados no Cais do Sodré para as aventuras da aguardente, champanhe e meninas.


A partir dos anos 70 a degradação tomou conta do espaço e do ambiente, até que no verão de 1985 encerrou as portas. O alvará foi depois comprado por um grupo de artistas – além de Vitorino, Janita Salomé, Maria do Céu Guerra, Hélder Costa, entre outros – com o objetivo de ali fazer mexer um centro artístico multicultural. Conseguiram-no, pelo menos por algum tempo.


"A seguir à Revolução de Abril, havia uma geração inteira sedenta de liberdade. O funaná, que era proibido pelo anterior regime, dançava-se ali quase todas as noites. Aliás, o Ritz foi um dos locais que nos anos 80 e até ao final da década de 90 mais expressão deu à música das comunidades lusófonas, mas havia jazz, rock e algumas das mais experimentalistas performances que se faziam na Europa. O encenador Hélder Costa e a atriz Maria do Céu Guerra recriaram ali ‘O Baile’, um dos maiores êxitos teatrais da época, recriado a partir do filme homónimo de Ettore Scola (1983) e que contava precisamente "a história da evolução do País, dos anos 30 aos 80, através das personagens que povoavam um clube noturno".

Era o "cenário ideal", recorda o encenador do grupo de teatro A Barraca, que ainda hoje está em Lisboa, que também conheceu a casa na juventude. "Era o sítio que reunia as pessoas interessantes da cidade. Era vibrante. Toda a gente queria lá ir", recorda Hélder Costa.


Nos anos 90, quase todos os nomes da música portuguesa passaram no Ritz graças a Kadafi, o gerente, relações-públicas, programador, entre outras funções acumuladas. "Fazia-se o que fosse preciso para que o palco estivesse sempre a funcionar. As bandas só tinham de chegar e tocar. Estava sempre cheio", recorda.


Após um concerto dos Da Weasel (aliás, um dos primeiros da carreira do grupo), no ano de 2000, o Ritz voltou a fechar as portas por razões de segurança. Mas, mesmo fechado, funcionava como sala de ensaios para nomes como Sérgio Godinho, Rio Grande ou Jorge Palma.


Em 2012 ainda abriu renovado, mas sem o necessário isolamento sonoro e com um conceito mais virado para o clubbing, e não voltou a ser o mesmo.


Agora, na página de uma agência imobiliária na internet, o cartaz é outro. O anúncio refere-o simplesmente como "edifício de referência, à Avenida da Liberdade que foi antiga sala de espetáculos". Os seus três pisos estão à venda por três milhões de euros, sendo o valor "negociável" e com "possibilidade para conversão em habitação/turismo".


Vitorino não se espanta que ali nasça um hotel, mas a ideia abre feridas na classe artística: "eu compreendo que os donos queiram ganhar dinheiro. É legítimo. Mas o Ritz está classificado como património municipal, sempre foi uma casa da cultura, conta a história do País e cabe a quem legisla defendê-lo".

 

HAVIA 21 CLUBES NOTURNOS EM LISBOA
 

No início do século passado, o Ritz Club era apenas um dos lendários ‘nightclubs’ de Lisboa. Aliás, chegaram a ser 21 contando--se entre os mais emblemáticos: o Clube dos Restauradores, o Clube dos Patos, o Palais Royal, o Majestic Club, o Bristol Club, o Club Mayer, o Olympia Club e o Alster Pavillon. Eram conhecidos como os ‘clubes da baixa’, frequentados pelos jogos de azar e espetáculos em que a graça feminina se libertava das amarras da época.

Mas nenhum igualava o Ritz, nem nas noites, nem na beleza das suas salas ou da sua fachada. Fachada essa que ainda hoje se mantém, graças às obras de conservação de João Soares enquanto presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e que mantém os azulejos do século XIX da viúva de Lamego, ao estilo Arte Nova, e o nome original do estabelecimento quando abriu portas em 1908: Tuna Comercial de Lisboa. "Depois de ele sair da Câmara, mais nenhum presidente quis saber daquilo. O que é pena", lamenta Vitorino.  

Ritz Clube Noite Lisboa
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