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O triunfo sobre os porcos

Gonçalo Antunes e João Alferes integraram o bando da Rovio, criadora dos ‘Angry Birds’.
Leonardo Ralha 29 de Maio de 2016 às 15:30
Porcos e pássaros passam dos jogos para o cinema
Porcos e pássaros passam dos jogos para o cinema FOTO: D.R.

Fazer compras com a roupa do trabalho garantia que Gonçalo Antunes não passava despercebido. "Juntava-se a miudagem, todos a perguntar onde podiam arranjar igual", recorda o português, de 38 anos, que foi viver para a Finlândia em 2008, e passou três anos como responsável de garantia de qualidade e produtor de jogos na Rovio Entertainment, a criadora dos ‘Angry Birds’, personagens de jogos de vídeo protagonistas de um filme de animação que estreia em Portugal na quarta-feira.

Apesar de as peças de roupa estarem entre os artigos mais populares de um ‘merchandising’ que vai de gel de banho a bonecos, quando Gonçalo vestia a camisola – melhor dizendo, casaco com capuz – da Rovio estava a usar um produto exclusivo. Além das pestanas espessas, olhos cheios de fúria e bico amarelo de Red – o cardinal que lidera os pássaros zangados contra os porcos ladrões de ovos –, o casaco vermelho tinha o símbolo ‘Member of the flock [membro do bando]’, só entregue aos trabalhadores.


O "emblemático uniforme da companhia" também tem lugar no roupeiro de João Alferes, de 43 anos, que trabalhou ano e meio na Rovio como Senior QA Tester. Passava meses a fazer testes para assegurar, enquanto especialista em ‘quality assurance’ [garantia de qualidade], que seriam encontradas tão poucas falhas quanto possível na chegada ao mercado.

"Num jogo moderno, por mais simples que aparente ser na sua mecânica, falamos de meses ou anos de desenvolvimento, muitas e muitas linhas de código e variáveis. Tentamos testar o máximo de funcionalidades do jogo, mas é humanamente impossível prever tudo. Há sempre coisas que vão escapar", reconhece o também músico, que, tal como Gonçalo, vive em Tampere, a maior cidade do interior do país, 180 quilómetros a norte de Helsínquia.


ATRÁS DAS MULHERES

Como é que dois portugueses, que em comum tinham a nacionalidade e o gosto por jogos de vídeo, foram parar à Finlândia?"É a clássica história de muita gente expatriada", conta João Alferes, que conheceu a sua mulher em Portugal e a acompanhou no regresso ao país natal, aceitando o desafio de aprender "uma das línguas mais difíceis do Mundo".

Algo parecido aconteceu a Gonçalo. "Conheci uma rapariga finlandesa e as prioridades mudaram. Vinha cá a cada três meses. Depois concluímos que à distância não dava", revela o português, que vivia no Estoril e era supervisor na Esegur, dedicando-se à segurança de sistemas de alarmes e à intranet. "Apaixonado por tecnologia e gadgets" desde sempre, procurou emprego, encontrando-o numa subcontratada da Nokia, que mais tarde se ressentiu da queda do gigante finlandês dos telemóveis.


"Vali-me de uma das minhas grandes paixões. ‘Não jogues, que isso não te leva a lado nenhum’, diziam-me em miúdo. Tinha que provar o contrário", diz, entre risos. Assim fez. Entrou para o estúdio da Rovio em Tampere em maio de 2012, trabalhando em ‘Angry Birds Space’ e ‘Angry Birds Rio’, e na versão do ‘Angry Birds’ original para a plataforma Kakao Talk.


João Alferes juntou-se ao bando dos pássaros zangados em agosto de 2013, após um ano a trabalhar como consultor, integrando a equipa de controlo de qualidade, com o estatuto de Senior QA Tester. Trabalhou nos mesmos jogos que o compatriota, que conheceu na Finlândia, apesar de ter vindo da Parede, a poucos quilómetros do Murtal, de onde Gonçalo é natural.


Encontraram um ambiente de trabalho diferente daquele que existia na sede da Rovio, em Espoo, perto de Helsínquia. "É muito mais fácil haver ligação entre as pessoas quando são 30 do que quando há 800 no mesmo escritório", realça Gonçalo Antunes, garantindo que "a grande maioria daqueles que trabalharam lá consideram-se amigos". Para a descontração contribuía a televisão ligada a uma consola de jogos, onde se podia descontrair por entre horas de trabalho intensas.


EXCLUÍDOS DO BANDO

Gonçalo teve o primeiro contacto com ‘Angry Birds’ numa versão que vinha no telemóvel N9 da Nokia, ficando com a impressão de que era um jogo em que se podia "simplesmente desfrutar daquele momento", embora se destine a dois tipos de utilizadores. "Estes jogos são fáceis de jogar e extremamente difíceis de dominar. Quando se passa do ‘jogar por jogar’ e começamos a tomar atenção a recordes, transforma-se em algo completamente diferente."

Habituado a testar "como cem utilizadores muito nabos que vão fazer tudo mal", João Alferes teve a recompensa das críticas positivas. "A métrica é verificar a quantidade de erros encontrados", sendo questão de "orgulho QA" aspirar a que nenhum erro seja encontrado, tendo presente aquilo que irão sentir. "Estes menus são intuitivos? Este nível é divertido de jogar ou é impossível de passar?", eram perguntas frequentes que fazia a si próprio.


Até que a quebra nos lucros de 2013, de 55,5 para 26,9 milhões de euros, levou a Rovio a despedir 110 trabalhadores e a fechar Tampere. Tal como Gonçalo, João foi excluído, abraçando novos projetos. Primeiro à Yousician, testando a aplicação que ensina a tocar piano, guitarra, baixo e ukelele. "Interessou-me por fazer a ponte entre música, tecnologia e jogos", diz, embora quatro horas e meia de viagens diárias para Helsínquia tenham contribuído para nova mudança. A Solteq Oyj fez-lhe "uma proposta bastante agressiva", e agora assegura a qualidade de páginas de e-commerce de um grupo de bricolage. "Tem de estar tudo extremamente bem testado, para que a experiência seja agradável e não haja confusões em transferências monetárias", diz.


Nos jogos continua Gonçalo, que se juntou à Kopla Games, fundada por ex-Rovio. É gestor de produto de ‘Nonstop Knight’, um ‘role playing game’ para plataformas móveis. "Estamos a tentar fazer um jogo para uma audiência mais vasta", conta.


Quanto ao filme dos ‘Angry Birds’, conta ir vê-lo com o primogénito, quase com três anos, na esperança de que o seu índice de atenção vá além dos 20 minutos. E já conhece uma cena, vista num encontro da Rovio. Maiores reticências tem João: "Ainda me é difícil encarar a marca dos ‘Angry Birds’ após a grande deceção do encerramento do estúdio de Tampere. Todos nos sentimos um bocado traídos." Mas a vontade de ver pássaros zangados a triunfarem sobre os porcos, com o filho de dez anos ao lado, poderá ser mais forte.

Angry Birds Rovio Animação Jogos de vídeo Finlândia Tampere
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