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O último a rir é quem ri melhor

Fidel tentou matá-lo e ele vinga-se com livro que conta tudo.
2 de Novembro de 2014 às 15:00
"Tenho licença de porte de arma nos EUA. Até em casa a uso. Sim, estou preparado!"
'Tenho licença de porte de arma nos EUA. Até em casa a uso. Sim, estou preparado!' FOTO: Pedro Simões

Fidel Castro tem um iate de luxo, uma ilha privada (Cayo Piedra, paraíso que poucos conhecem), bebe quase uma garrafa de whisky por dia (ou bebia, até há pouco tempo) e tem pelo menos nove filhos de relacionamentos com várias mulheres. Ao contrário da imagem que tem publicamente – a de um homem de hábitos espartanos e ideais puros –, o líder cubano raramente se levanta antes das dez ou onze da manhã e mantém uma conta secreta recheada em parte incerta, depositada para assegurar um futuro confortável à prole. E embora os cubanos continuem com alimentação racionada, os Castro alimentam-se de produtos biológicos criados nas propriedades da família e cada um tem a sua própria vaca – para assegurar que o leite produzido tem o "sabor certo".

Está tudo escrito, preto no branco, no livro-bomba da temporada, assinado por Juan Reinaldo Sánchez [com o jornalista Axél Gyldén] e editado em Portugal pela Planeta. ‘A Face Oculta de Fidel Castro’ conta o percurso de Sánchez, guarda-costas e chefe de segurança de Fidel durante 17 anos, caído em desgraça por pedir a reforma dois anos antes do período regulamentar. Julgado como "traidor da pátria", acusado de estar a planear fugir do país, foi condenado a dois anos e meio de cadeia e jurou que, se saísse com vida do cativeiro, contaria tudo em livro.

"Quero que esta obra mude a forma como se conta a história de Cuba", disse à ‘Domingo’. "Quero que as pessoas tenham acesso a outra fonte de informação que não apenas a versão oficial e estou em condições privilegiadas para o fazer. Aquilo que conto neste livro eu vi e vivi. Ninguém me contou."

Na prisão, o antigo guarda-costas temeu pela vida. Depois de dois meses de isolamento, sem ver a luz do dia, foi posto numa cela com um colchão de arroz contaminado que lhe deixou o corpo coberto de borbulhas com pus. E quando contraiu uma otite, o médico da prisão receitou--lhe medicamentos que agravaram o seu estado de saúde. Salvou-se graças à intervenção de um médico externo.

"Ele viu-me e disse-me que se continuasse a tomar os comprimidos que me tinham receitado acabaria por ter um AVC. Disse-me: ‘Sánchez, não vás à enfermaria por nada. Querem matar--te’. Assim fiz. Tive dores de cabeça, gripes, mas dizia sempre estar bem. Mesmo que estivesse a morrer."

PARANOICO E TRAFICANTE

Perito em espionagem e contrainformação, treinado para traçar o perfil psicológico do ‘inimigo’, Juan Reinaldo Sánchez define o líder comunista como "inteligente, manipulador, carismático e totalmente egocêntrico". Diz que é impossível contrariá-lo seja no que for e que quando se joga com Fidel Castro é preciso perder. Sob o risco de ele não parar de jogar.

Paranoico da segurança, Fidel exige que aquilo que ingere seja previamente submetido a análises bacteriológicas e químicas e, de vez em quando, alguém do seu staff tem de provar as bebidas alcoólicas, quando a garrafa é oferecida. Exatamente como na Idade Média. No livro, o tenente-coronel, atualmente com 65 anos, afirma ainda que Fidel anda sempre acompanhado de dois guarda-costas que têm o mesmo grupo sanguíneo que ele. Em caso de atentado, os médicos poderão fazer uma transfusão sanguínea de veia a veia para salvar a vida do chefe.

Além disso, o líder cubano tem instalado em sua casa um pequeno hospital privativo – um recurso precioso que já lhe salvou a vida por duas vezes (em 1983 e 1992), quando lhe rebentou uma úlcera cancerosa no intestino. Em ambas as vezes, para que o povo não notasse a ausência, Fidel mandou circular pelas ruas de Cuba um sósia (de nome Silvino Álvarez), que, com maquilhagem e recurso a uma barba falsa, passa relativamente bem por El Comandante, sentado no banco de trás da limusina presidencial.

Tudo isso relata Juan Reinaldo Sánchez, sem omitir o momento em que no seu espírito se instalou a desconfiança em relação ao patrão. Aconteceria no final dos anos 80, quando confirmou aquilo que os Estados Unidos suspeitavam desde o início da década: que Fidel Castro se envolve pessoalmente no tráfico de droga, para assim "financiar a Revolução".

"Tenho provas de que era Fidel quem estava a dirigir o tráfico", diz o ex-guarda-costas. "O que não posso provar, porque não é certo, é que se tenha reunido pessoalmente com Pablo Escobar. Enquanto trabalhei com ele isso não aconteceu e sinceramente estou convencido de que nunca se exporia dessa forma. É para isso que tem os seus testas de ferro", afirma.

Em 1989, para descartar as suspeitas, Fidel faria executar, por pelotão de fuzilamento, dois dos seus homens de confiança: os generais José Abranches e Arnaldo Ochoa, acusados do narcotráfico que ele, Fidel Castro, supostamente desconhecia...

CONHECEU OTELO

Juan Reinaldo Sánchez nasceu em 1949 e diz que desde cedo se fascinou pelas armas de fogo. Campeão de tiro, especialista em várias artes marciais, deu formação no ultrassecreto campo de treino de Punto Certo de Guanabo, por onde passaram, conforme admite, "90% dos líderes das guerrilhas latino-americanas" mas também militantes do movimento separatista basco (ETA); do Exército Republicano Irlandês (IRA); da Frente Popular para a Libertação da Palestina ou até dos americanos Panteras Negras, entre muitos outros. Tudo em nome da "subversão internacional".

Diz que "certo dia, em 1975", Otelo Saraiva de Carvalho lhe foi apresentado.

"Vinha de uniforme militar e disseram-me que pertencia ao Movimento dos Capitães. Pediram-me para fazer uma demonstração e eu disparei sobre os alvos, primeiro com a mão direita, depois com a esquerda, acertando sempre. Acho que ele nunca tinha visto nada assim, porque pareceu surpreendido", recorda. "Penso que Fidel, caso as coisas tivessem sido diferentes em Portugal, gostaria de intervir na vossa realidade – tal como fez e tentou fazer com muitos outros países. Quis impressionar Otelo e abrir caminho através dele..."

No livro, o homem-forte de Fidel explica como Cuba foi fundamental para o triunfo do MPLA de Agostinho Neto em Angola, ou para o triunfo da Revolução Sandinista na Nicarágua, e descreve os encontros que teve com líderes mundiais que desprezava, como o ditador norte-coreano Kim Il-sung ou o líbio Muammar al-Kadhafi (que apelidou de "excêntrico exibicionista"). Fala ainda da amizade que sempre o uniu a Gabriel García Márquez, a quem no auge da fama como escritor tentou convencer a candidatar-se a presidente da Colômbia. Gabo não quis.

É preciso dizer que todas as conversas oficiais de Fidel – dentro ou fora de Cuba – foram gravadas pelos seus agentes, dada a verdadeira obsessão que o líder cubano tem pelo registo das suas comunicações. E não só. Sánchez vai mais longe e escreve: "Os estrangeiros que fiquem prevenidos: em Cuba, ninguém escapa à vigilância da Segurança do Estado, o G2." E os "alvos de interesse" são vários, desde homens de negócios a universitários, de profissionais de cultura a artistas ou jornalistas.

FELIZ EM MIAMI

Quando saiu da cadeia, em 1996 (com menos 20 quilos), Juan Reinaldo Sánchez diz que passou a viver obcecado com a ideia de sair de Cuba. Mas teria de esperar 12 anos – e de fazer dez tentativas falhadas – antes de ser bem-sucedido.

Durante esse tempo nunca deixou de olhar para trás das costas. "Se me tinham tentando matar na cadeia, a partir do momento em que pus o pé na rua sabia que estava em perigo. Podia acontecer tanta coisa. Um acidente, um atropelamento… Até que consegui sair", lembra. E não pensa em voltar. Pelo menos enquanto os irmãos Castro se mantiverem no poder. A viver em Miami com a família, diz que nunca se sentiu tão feliz, mas nem por isso descura a segurança.

"O governo de Cuba tem braços compridos, mas eu tomo precauções. Quando me desloco a lugares públicos vou sempre acompanhado, não bebo um café que um amigo não veja a ser tirado. E tenho licença de porte de arma nos EUA. Até em casa a uso. Sim, estou preparado!"

VAI HAVER SANGUE EM CUBA

Até ao momento, o governo de Cuba ainda não se manifestou oficialmente sobre o livro de Juan Reinaldo Sánchez, que aguarda esse dia com expectativa. "Estou louco para que me desmintam", diz, com um sorriso. "Tenho provas de tudo o que afirmo."

Mas com Fidel doente e a viver os seus últimos dias, talvez não venha a acontecer. Depois da morte do líder, o ex-guarda-costas diz que tudo mudará. "Há três tendências no país: a dos velhos comunistas; a dos militares; e a do povo. Os generais vão aliar-se aos comunistas porque só eles podem garantir a manutenção dos privilégios, mas a maioria dos militares vai aliar-se ao povo porque está a passar as mesmas dificuldades."

O exilado cubano diz que haverá sangue. "Aqueles a quem assassinaram filhos e irmãos vão querer vingar os mortos e quando tiverem a oportunidade vão exigir sangue. Tenho pena, mas vai acontecer", conclui.

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