Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
8

"Obama continua a ser terra-a-terra"

Durante três anos, a objectiva do luso-descendente Pete Souza não perdeu de vista Barack Obama. A corrida do senador à Casa Branca terminou em Chicago, onde registou a vitória. A ascensão do primeiro presidente dos EUA afro-americano deu um livro. Os Açores dos seus avós podem dar um documentário
9 de Novembro de 2008 às 00:00
'Obama continua a ser terra-a-terra'
'Obama continua a ser terra-a-terra'

De Obama, recorda o dia em que o senador deixou uma mensagem de bom prenúncio a um pequeno afro-americano: 'Sonha em grande'. Dois dos sonhos de Pete são simples: documentar uma digressão de Bruce Springsteen. E as festas religiosas dos Açores. A relação com o arquipélago perde-se e encontra-se nas suas raízes. Pete Souza, fotojornalista de 53 anos, sombra do recém-eleito presidente durante três anos, é neto de emigrantes açorianos.

Em imagem, capturou milhares de momentos de uma campanha histórica. Imagens inéditas antes e depois da corrida de Obama à presidência, um homem 'acessível e terra-a-terra'. Hoje como no dia em que o conheceu, quando se estreou no Senado.

Pete coleccionou instantâneos das suas filhas. Da mulher. Da avó. Com o adversário John McCain. Com a candidata democrata derrotada Hillary Clinton. A visita ao Quénia. À prisão sul-africana onde Nelson Mandela esteve detido. Ou à Rússia, onde Obama ficou retido na sequência de problemas burocráticos.

O material foi compilado no livro ‘The Rise of Barack Obama’, lançado em vésperas da convenção que consagrou o senador como candidato pelo partido Democrata. Mas a longa maratona só terminou terça-feira à noite em Grant Park, Chicago, onde fotografou a euforia da vitória. Ou talvez não tenha terminado ainda. Mais de 20 anos depois de ter sido fotógrafo oficial da Casa Branca, o luso--descendente pode regressar a Washington em Janeiro, agora na companhia do primeiro presidente afro-americano da história do seu país. Apesar de avançar que 'é pouco provável'.

Na década de 80, durante mais de cinco anos, Pete seguiu a par e passo o presidente com quem fez a sua única visita até à data a Portugal. Ocupando um 'lugar na fila da frente da História', acompanhou Reagan em público e em privado. Na vid e na morte. Foi escolhido pela família para registar o funeral do antigo presidente.

Sempre com a objectiva em cima do acontecimento, esteve entre os primeiros a cobrir a queda de Cabul, no Afeganistão, após o 11 de Setembro. Só não revela em quem depositou o seu voto nas eleições presidenciais. Respondeu à Domingo, via e-mail.

Obama acaba de ser eleito. Como viveu esses dias frenéticos imediatamente antes e após a eleição?

Estive em Chicago a fotografar Obama e a multidão em Grant Park.

Como americano, como viu toda a campanha? Quais eram as suas expectativas e qual foi o sentimento após o resultado?

Esta campanha foi diferente pelo facto do nosso país ter claramente ultrapassado uma importante barreira: a eleição de um afro-americano.

Como se conheceram? A sua primeira impressão conferiu com a imagem actual que tem dele?

Conheci-o no seu primeiro dia no senado norte-americano. Achei-o bastante acessível e terra-a-terra. É o mesmo hoje em dia. Sim, ele tem um discurso inflamado. Mas quando estamos só com ele, continua a ser acessível e terra-a-terra.

Quando começou a segui-lo com a sua lente?

Nesse mesmo dia. Nessa altura estava a trabalhar para o ‘Chicago Tribune’, em Washington. Eu e um repórter abordámo-lo com a ideia de documentar o seu primeiro ano no Senado com uma série de artigos e fotografias. Precisávamos da sua colaboração para aceder aos bastidores.

Durante estes últimos três anos, que momentos mais recorda?

Lembro-me de Obama a assinar um dos seus livros para um pequeno rapaz afro-americano, no início de 2005. Fotografei-o por cima do seu ombro. A inscrição no livro dizia: 'Sonha em grande'.

Não é a primeira vez que fotografa presidentes. Como foram os anos que passou na Casa Branca na qualidade de ‘sombra’ de Ronald Reagan?

Tive um lugar na fila da frente da História.

Que memória guarda dele, como homem e presidente, e até da sua família, que o escolheu para registar o funeral?

As minhas fotos são as minhas memórias. Não sou de guardar momentos.

Que tipo de relação se estabelece com alguém que se segue durante tanto tempo? É puro trabalho ou sente que há algum tipo de envolvimento emocional com aquela pessoa?

Claro, ficamos ligados de uma forma positiva. Mas tentei sempre não me tornar amigo de ninguém. Olho para o meu trabalho como se fosse um historiador visual profissional.

É natural de South Dartmouth, Massachusets, mas tem raízes portuguesas. Quando é que os seus avós se mudam dos Açores para os EUA?

Sim, cresci em South Dartmouth. A minha mãe ainda lá vive. Os pais dela saíram dos Açores em adolescentes. As memórias da minha avó são escassas, mas lembro-me do meu avô, que viveu até aos 96 anos.

É verdade que gostaria de ir aos Açores para registar em imagens a vida do arquipélago?

Estive nos Açores em 1988 com um dos meus tios. Gostava de regressar para documentar as festas religiosas nas diferentes ilhas.

Que relação tem com Portugal hoje em dia?

Só visitei Portugal uma vez, numa viagem com o presidente Reagan.

Acompanhará Obama na ida para a Casa Branca em Janeiro?

É pouco provável.

Se tivesse que escolher apenas uma das fotos que fez até hoje, qual seria?

Aquela que ainda estou para tirar. Tenho que pensar desta maneira.

Quem gostaria de fotografar e ainda não teve oportunidade para isso?

Gostava de acompanhar o Bruce Springsteen, ter acesso livre a uma das suas digressões e fazer um documentário fotográfico.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)