Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
8

OLÁ, HOLLYWOOD!

A sua vida dava um filme? Agora, já não precisa de sair de casa para enviar um argumento para Hollywood. Basta ir ao ‘site’ do actor Kevin Spacey
31 de Janeiro de 2003 às 20:32
Vive no Cercal mas quer chegar a Hollywood? Está convencido de que é capaz de escrever um bom guião? Então, este é o seu dia de sorte. Foi a pensar nestes casos que o actor Kevin Spacey – já galardoado com dois Óscares da Academia – decidiu lançar um ‘site’ para ‘caçar’ argumentistas e dramaturgos escondidos; jovens talentos que até agora não tiveram a oportunidade de mostrar a ninguém (e muito menos vender) as suas ideias para um guião cinematográfico. A porta para este ‘paraíso’ está à distância de um clique, na morada www.triggerstreet.com. Um nome algo peculiar para um ‘site’, mas que remonta à infância de Spacey, que cresceu na rua Trigger, em Los Angeles, e que também serviu para baptizar a sua produtora, a Triggerstreet Productions.

Fascinado pelas novas tecnologias, há anos que o actor andava a trabalhar neste projecto, mas só no final de 2002 conseguiu lançá-lo: “Esta indústria tratou-me sempre tão bem que estava na altura de ajudar uma nova geração de cineastas, que aguardavam que alguém lhes desse a primeira oportunidade”. É desta forma convincente que Kevin explica a sua intenção de “estender a mão” aos menos afortunados, para quem a Meca do cinema não passa de um sonho impossível de concretizar: “Com este projecto a velha ‘cunha’ pode ter os dias contados. Agora, para triunfar no cinema já não é preciso conhecer o amigo de um amigo. Este é o primeiro passo a caminho de Hollywood”, reafirma a directora do ‘site’, Dana Burnetti, para quem esta indústria não parece ter segredos. Mas será mesmo assim tão simples vingar como argumentista nos Estados Unidos da América? Em conversa com o guionista Nuno Artur Silva, fundador e director criativo da empresa Produções Fictícias, o facilitismo deste diálogo não condiz com a realidade americana: “Se tiver sorte e conseguir que o seu argumento desperte o interesse de algum produtor, o mais provável é comprarem-lhe a ideia e depois pedirem-lhe para desaparecer para sempre”, responde Nuno, entre risos.

Afinal, para atravessar o Atlântico, talvez precise de mais do que um golpe de sorte: “Há mil boas ideias. Mas só uma consegue gerar uma história interessante”, constata Nuno Artur Silva, que teve de esperar mais de dez anos para vender o seu primeiro guião. E que truques é que este especialista pode partilhar com os aspirantes a guionistas? “Um bom guião salta logo à vista. Já deverá estar construído para o cinema. O início deve prender os telespectadores. Não deve ter irrelevâncias. E as personagens devem ser fortes”, explica o guionista português.

Na opinião deste ex-professor de Português, a profissão de argumentista está na moda: “Mas só se vai lá com talento, disciplina e determinação. Essas são as principais diferenças entre um curioso, que fica logo satisfeito com o que escreve, e os profissionais, que nunca estão contentes com o resultado final”.

Os AMIGOS

De Kevin Poucos acreditaram na viabilidade económica de um ‘site’ criado com o propósito de promover o talento dos aspirantes a cineastas, a troco de um pequeno favor: Em “triggerstreet.com” o dinheiro não é moeda de troca. Para enviar o seu argumento, e ver a sua curta ou longa metragem avaliada por um júri de respeito – composto por amigos de Kevin Spacey como Sean Penn, Mike Myers, Billy Cristal, Cameron Crowe, Bono ou Annette Bening – só lhe é pedido que critique dois argumentos já disponíveis no ‘site’. Os guiões mais apreciados pelos “cibernautas” registados em “triggerstreet.com” serão reencaminhados para os festivais cinematográficos “on-line”, que três vezes por ano quebram a rotina deste ‘site’.

Os vencedores podem vir a ser contactados pelos produtores da “Triggerstreet Productions”. É uma questão de sorte, e de algum talento. Mas será que essas duas coisas chegam? Paulo Filipe Mon-teiro, presidente da Associação Portu-guesa de Argu-mentistas e Dra-maturgos, partilha das preocupações de Nuno Artur Silva: “Qualquer pessoa tem oportunidade? Bom, pode, pelo menos, lutar por ela. São precisas boas ideias, mas também conhecimento da linguagem cinematográfica, televisiva, e como em tudo, trabalho, muito trabalho”, defende.

Os dois especialistas já não são tão unânimes na avaliação do panorama nacional. Para Paulo Filipe Monteiro “há bons guionistas”. O responsável acredita que “as possibilidades de trabalhar exclusivamente nessa área estavam a crescer, mas a crise do ano passado veio interromper uma continuidade que é necessária”. Uma apreciação que não convence o fundador das Produções Fictícias: “Em Portugal não há cinema comercial. Além disso, não temos produção contínua de telefilmes ou boas séries de televisão. Para sobreviver, aos argumentistas só lhes resta os ‘reality shows’, os programas de anedotas ou as telenovelas”, constata o director criativo.

A SORTE DOS BONS REBELDES

Histórias como as dos actores Matt Damon e Ben Affleck, que durante os anos de anonimato foram escrevendo o argumento de “O Bom Rebelde” – que acabou por ser comprado pela Miramax, realizado por Gus Van Sant e revelou-se um verdadeiro êxito de bilheteiras – não acontecem todos os dias. Os dois amigos foram premiados com o Óscar de melhor argumento original, em 1998, mas talvez seja preciso esperar mais alguns anos até que essa “sorte” bata à porta de algum português.

A coordenadora de projectos da Casa da Criação, Lúcia Feitosa, (um projecto apadrinhado pela produtora NBP) conta que o concurso de guionismo promovido por esta produtora, em Março do ano passado, “foi um verdadeiro sucesso”. “Recebemos mais de 150 argumentos para cinema, telenovelas e séries de televisão, o que mostra que em Portugal há um sem-número de pessoas talentosas à espera de uma oportunidade”, revela. Os vencedores nacionais podem esperar que as suas ideias ganhem vida.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)