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Correio da Manhã

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OLÉ ROSE

No Portugal dos anos 50, não era fácil uma mulher entrar no mundo do trabalho. Muito menos no meio tauromáquico, bastião tradicional masculino. Mas houve uma anglo-portuguesa que durante dois anos e meio colheu olés e bravos da assistência. Rose May Hatherly, a única toureira inglesa e uma das primeiras do nosso País.
18 de Julho de 2004 às 00:00
Há cerca de seis meses regressou a Portugal, depois de 32 anos a viver em Inglaterra. Em Cascais, encontrou o refúgio perfeito para si e para os dois cães de que nunca se separa. Hoje, Rose May recorda com emoção os dias em que os jornalistas ingleses a perseguiam à porta do escritório londrino onde trabalhava ou o carinho do público português nas arenas de Tomar ou Salvaterra de Magos.
Para Rose, a aventura no redondel durou dois anos e começou quando um dia o pai, Henry Hatherly, um industrial inglês radicado em Portugal (que num segundo casamento, uniu-se com a conhecida artista e escritora Ana Hatherly) a levou a uma tenta do cavaleiro José Rosa Rodrigues, no Carregal, Ribatejo. Ela tinha apenas 18 anos. “Estavam lá vários toureiros, como o António Santos. Numa tenta vai experimentar-se os novilhos da ganadaria e então entusiasmaram-me para eu entrar na arena e fazer uns ‘capotazos’. E eu assim fiz, a pé. Depois da festa vieram ter comigo, para dizer que eu tinha muito jeito e até me perguntaram se eu já tinha treinado...”
Era a primeira vez que Rose May se punha à frente de um novilho. Mas o instinto e o jeito natural entusiasmaram-na a ela e aos que a rodeavam. Os muitos anos de ballet terão ajudado na hora de ‘dançar’ com o hastado. “Foi o suficiente para eu começar a ter lições de toureio, como lidar com a capa e com a muleta. E foi Júlio Procópio, que na altura era bandarilheiro mas também tinha uma escola, quem me treinou. O Rosa Rodrigues ensinou-me a tourear a cavalo”, conta.
Tornou-se assim a primeira mulher em Portugal a lidar a pé e a cavalo. Começou a treinar regularmente no Ribatejo na casa de Rosa Rodrigues: “Ele foi quase o meu padrinho nos toiros. Era muito meu amigo, quase como um pai. Ficava muitas vezes lá na quinta dele e treinava a cavalo na alta escola. Fiz alta escola também com Nuno de Oliveira, juntamente com José Manuel Varela Cid e vários outros cavaleiros.”
O toureio a cavalo cativava-a mais, talvez por ser “mais feminino”: “Naquela altura as mulheres não eram profissionais, não podiam tirar a alternativa, nem tourear em ‘traje de luces’. Por isso, só ia a corridas de beneficência e tinha sempre que usar o traje curto.” Depois da aprendizagem, começou a ser convidada para actuar em várias praças. Santarém, Salvaterra de Magos, Tomar e Ciudad Rodrigo. “Em Espanha, foi uma grande glória para mim. Esse dia saiu-me muito bem, fui levada em ombros. Em Tomar, caí do cavalo e fui apanhada pelo touro.” Ainda hoje guarda uma grande cicatriz na perna como recordação da colhida.
Apesar do conservadorismo da sociedade portuguesa de então, as reacções foram muito positivas e nem os homens se sentiam melindrados com a chegada desta novata. “Ninguém reagiu mal, por acaso pensei que me fossem criticar. Mas só tenho boas recordações de todos os toureiros desse tempo, até do Diamantino Viseu, que já faleceu. Foram amicíssimos, acolheram-me muito bem, quase como uma mascote”.
Uma das razões foi o facto de não haver mais mulheres a arriscar a sorte nas arenas. “Hoje já até há quem o faça profissionalmente. Naquela altura dizia-se que havia outra mulher, mas nunca soube quem era – a percursora sul-americana Conchita Citron já estava reformada. Ela também fazia toureio a cavalo e a pé, como eu”, recorda, olhando para as muitas fotografias que conserva desses tempos de risco e emoção.
O público adorava-a: “Por ser rapariga, era novidade. Além disso, era jovem e inglesa. Chamavam-me a ‘lourinha’ ou a ‘inglesinha’. Tudo isso criou uma certa fama na época, talvez exagerada.”
Mesmo os aficcionados perdoavam-lhe uma ou outra falha. “Assim era. Se fosse mais velha ou se fosse um homem talvez exigissem mais. O público foi sempre muito carinhoso para mim.”
A “TOUREIRA INGLESA”
Rose May sempre encarou o toureio como um interlúdio na sua vida: “Foi uma maneira de me exprimir, era nova e não estava a interromper nada. Mas nunca foi algo que pensasse seguir. Já sabia que uma vez que casasse e tivesse filhos nunca mais voltaria a tourear. Foi uma aventura e eu sempre fui um bocadinho aventureira.”
Os ecos dos feitos da ‘toureira inglesa’ chegaram a Inglaterra. A agência Reuters entrou em contacto com o pai dela, em Portugal. “Ele disse-lhes que eu estava em Londres e deu a morada do sítio onde trabalhava. Depois descobriram-me e andaram imenso tempo atrás de mim.”
Logo que apareceu a primeira entrevista vieram mais jornais e revistas. Do ‘Mirror’ ao ‘Reader’s Digest’ e ‘Woman’s Own’. Nessa altura saíram muitas notícias que Rose May só soube depois através de amigos, que lhe enviavam recortes de jornais. “Até na Austrália e Nova Zelândia”, sublinha. Deu também uma entrevista na TV inglesa. E quase sempre trocavam o seu nome para Rosemary...
Também saíram artigos nos jornais portugueses. Rose May, que tinha partido para Londres no fim da sua segunda temporada, voltou para Portugal, mas nunca mais voltou a tourear. “Entretanto, fiquei noiva, casei e parei. Se fosse homem admito que seria diferente. Mas fiz muitos amigos e gostei imenso desse período.” E recorda que quando aparecia nas feiras do cavalo na Golegã e em Santarém continuava a ser reconhecida entre o público e os profissionais: “A pessoa que estava ao microfone no recinto dizia ‘e agora a nossa bem conhecida Rose May’”.
A família sempre a apoiou na aventura: “O meu pai até estava muito orgulhoso e ia às touradas.” A mãe, receando os perigos, recusava-se a assistir às lides e aguardava em casa, ansiosamente, pela filha. Depois de abandonar as corridas, Rose May continuou a seguir a ‘fiesta’, mas na bancada. “Quando os amigos toureiros me viam, saudavam-me sempre. Mas depois fui perdendo o contacto com todos, depois de casar voltei para Inglaterra.”
Ainda regressou a Portugal quando nasceu a filha. Foi então que tirou o brevet, em Tires, “outra loucura”: “Tínhamos um grupo de rapazes e raparigas e muitas vezes alugávamos um avião e íamos ao Algarve ou a Vigo almoçar. Comecei a ter gosto por pilotar porque o meu pai era agente dos aviões Cessna e ofereceu-me o brevet. Eu mostrava o avião a futuros compradores.”
Mas acabou por voltar para Inglaterra: “O meu filho estava lá num colégio interno e era muito difícil vê-lo e estar com ele.” E por lá ficou durante 32 anos. Os dois filhos também, mas foram os primeiros a querer regressar ao país onde deram os primeiros passos. E Rose May seguiu-os. “Resolvi voltar para Portugal, tenho cá os filhos e as amizades de sempre.”
Actualmente, considera-se mais inglesa do que portuguesa: “Os meus hábitos, a minha cultura e o sentido de humor talvez sejam ingleses. Mas sempre tive saudades de Portugal. Claro que em termos de mentalidade e de burocracia estranhei um pouco quando voltei...”
Em Cascais, espera agora exercer a profissão a que se dedicou. “Em Inglaterra, já com os filhos criados, decidi voltar aos estudos, pois queria dar um novo rumo à minha vida. Formei-me em Psicologia Aplicada e tirei também o curso de Hipno-terapia e de Massagem Terapêutica que quero exercer cá.”
Ali bem perto da Praça de Touros de Cascais, perguntamos--lhe se tem vontade de voltar a ver uma tourada: “Só na televisão”, responde prontamente. “O bichinho já não me morde.”
GUERRA DE SEXOS
Joaquim Bastinhas não se assusta de cada vez que entra em praça ao lado de uma mulher. Para o conhecido cavaleiro, a única diferença que separa os sexos é uma certa graciosidade feminina na altura das cortesias. Fora isso, diante de um touro não há nada que os distinga. “As nossas miúdas já deram provas do seu talento, mostraram que são corajosas, e orgulho-me de ser padrinho de alternativa da Ana. Aliás, acho mesmo que a entrada delas neste meio pecou apenas por ser tardia. Devia ter acontecido há mais tempo”, revela com um ar paternal.
Especialista em motivar a 'aficcion', Bastinhas acredita que o facto de as mulheres se tornarem profissionais tem alterado a festa brava, principalmente ao chamar novos públicos, uma opinião partilhada por João Pedro Cerejo: “Nota-se que há mais mulheres nas praças, e que os verdadeiros aficionados quando assistem às usas lides valorizam mais a vertente do espectáculo e não tanto o rigor. Nisso elas levam vantagem, assim como no facto de serem mais bonitas do que nós”, diz em tom de brincadeira.
Só este ano, João já participou em cinco corridas ao lado de Sónia Matias. Não se sente ameaçado pela presença da colega e até finge ignorar os piropos que de vez em quando ouve. “É natural que haja quem não se contenha, afinal somos um povo de machos latinos”. E acrescenta que, no aspecto técnico, existem diferenças em relação a quem está em cima do cavalo, principalmente porque os homens têm mais força.
Profissional há mais de 20 anos, Joaquim Bastinhas apenas teme que elas não consigam realizar uma carreira tão longa: “Se quiser ter um filho, uma cavaleira sabe que terá de hipotecar pelo menos uma época da sua vida, e isso pode ser complicado.”
SUCESSOS E FRACASSOS
Como amadora, Rose May Hatherly não era paga, apenas recebia uma quantia que cobria as despesas. A corrida que mais a marcou foi a de Tomar, com profissionais, apesar de cair do cavalo e se magoar: “Depois, ainda voltei à praça e fui bem recebida.” Relembra igualmente com emoção a ida a Ciudad Rodrigo, em Espanha: “Foi um desses dias onde eu não podia falhar. Mas todos os passos estavam correctos e correu tudo tão bem... Fui muito aplaudida”.
Em Salvaterra, numa corrida a pé, de beneficência, foi arrastada pelo toiro. “Colheu-me e rasgou-me as calças. Ainda voltei à praça assim, mas depois uma senhora chamou-me para ir a casa dela, coseu-me as calças e quando o público começou a chamar-me, regressei à praça já recomposta. No fim, tinham uma taça e um verso para me dar.”
DANÇAS COM TOUROS
Os recortes da época diziam que era a única mulher em Portugal a tourear a pé e a cavalo. Os jornais ingleses puxavam a brasa à sua sardinha e clamavam que era a única toureira inglesa no mundo. Foi certamente uma das primeiras mulheres a tourear nas praças nacionais, em 1956, depois da sul-americana Conchita Citron em 1944, no Campo Pequeno.
A sua ‘afición’ e a sua coragem foram enaltecidas pela imprensa da época. Filha de um inglês, Henry Hatherly e de uma portuguesa, Maria Isabel, levava “uma vida dupla única” nas palavras do “Mirror” num artigo intitulado ‘The typist is a bullfighter! (A dactilógrafa é uma toureira)’ – quando acabou a época tauromáquica Rose May foi para Londres, onde trabalhava como secretária-dactilógrafa.
O jornal escrevia “O público adora esta loura cuja coragem compensou a sua falta de altura e depressa progrediu nas arenas mais importantes.” O ‘Graphic Post’ de Londres sublinhava a luta entre a “bela e o monstro” e levou-a a simular a arte de manejar a capa com o seu próprio blazer, tendo como fundo a catedral de St. Paul. “Antes de cada corrida estou aterrorizada. Vou sempre à capela rezar. E nunca entraria na arena sem os três medalhões que uso”, confessava Rose May aquele jornal.
'Olé for Rosemary say the stockbroker' titulava outro jornal. O jornalista George Whiting rendia-se aos encantos da jovem loura que trabalhava num escritório da City londrina, onde se concentravam os corretores e a Bolsa: “Testei os seus bíceps e isso trouxe-me uma recordação viva do dia em que aceitei um convite semelhante de Rocky Marciano.”
Em seguida, recordava o dia em que Rose mergulhou no mar a 45 metros de profundidade, da paixão de muitos anos pelo ballet que tanto ajudou no ‘bailado’ com os touros. E de como esta novilheira de olhos azuis e cabelos louros deixava os corretores de olhos em bico...
“Rose May nasceu artista. É natural pois, que tudo quanto saia das suas mãos tenha um sopro de arte”, escrevia por sua vez F. Borges de Sousa num jornal nacional, não se cansando de elogiar os talentos da aluna de Júlio Procópio, Nuno de Oliveira e Rosa Rodrigues.
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