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“Olhar para fotos para recordar os que amávamos"

Foram 25 meses muito duros, pelo perigo, pela perturbação e pelas saudades de casa que apertavam.
Vanessa Fidalgo 31 de Março de 2019 às 11:30

Nasci e cresci em Aljustrel, e aí fui mobilizado para embarcar para Angola, para a guerra do Ultramar, como aconteceu a muitos outros da minha geração. Depois da recruta, integrei o batalhão de Cavalaria 3871, Companhia de Cavalaria 3487, que tinha como destino a zona de Cabinda.

A minha especialidade era a de soldado de transmissões. Ora isto significava   andar   muitas   horas   e muitos dias no mato com um rádio pesadíssimo às costas. Essa é a causa da minha maior mazela da guerra: hoje tenho a minha coluna um bocado ‘desfeita’. Apesar de nunca ter sido ferido, foram 25 meses da minha vida muito duros e que me deixaram   memórias   pesadas   e marcantes.

O meu batalhão chegou a Angola a 14 de março de 1972 e regressou a Portugal a 14 de junho de 1974. Passei em Cabinda o 25 de Abril, mas a verdade é que   nós   naquela   época - soldados, miúdos e isolados   como   estávamos   -   nem sequer   tivemos   a   verdadeira perceção   do   que   é   que tinha acontecido em Portugal e que implicações   é   que   isso   tinha para nós e para o País.

As   notícias   demoravam   a chegar a Angola, sobretudo às zonas de mato, e não eram claras. Quando se deu a revolução, estávamos na zona de Ambriz, a fazer a segurança da fazenda de óleo de palma e banana dos Mello,   e   só   quando   chegámos   a Luanda, já para retornar a Portugal, é que percebemos o que tinha acontecido. Ficámos um bocado perturbados. Até porque nessa altura   o conflito   já   tinha   praticamente cessado no mato mas ocorria com mais força nas cidades.

Mas quando   lá   chegámos,   dois anos antes   da   revolução,   juntá-mo-nos à CCS na zona de Sanga-Planície e Miconge (Cabinda).

Vivi vários episódios marcantes, muitas   emboscadas,   mas   resta-me   a consolação   de lá ter feito muitos amigos também. Volvidos todos estes anos, continuamos a encontrar-nos sempre no último fim de semana de maio para conviver. E devemos muito ao nosso capitão, António Inácio Nogueira, um homem de Coimbra, que percebia   de   guerra   e   que instaurou uma   disciplina   que   nos   salvou. Saíamos sempre bem armados e preparados,   nunca   em   grupos muito grandes. Mas há certas coisas   que,   em   tempos   de   guerra, nem toda a preparação e cuidado conseguem evitar, como é o caso da   perda  de   vidas   humanas.   E apesar do cuidado do nosso capitão,   perdemos   um   furriel   e   um soldado,   que   foram   vítimas   de uma granada, quando estávamos no Miconge, mesmo junto à fronteira com o Congo.

Perigo na berma

Emboscadas   também   sofremos algumas. Lembro-me de uma a 6 de agosto de 1973, que aconteceu de   noite.   Fomos   apanhados   de surpresa porque ali o inimigo não costumava   atacar   à   noite.   Mas naquele   dia   atacou,   houve   uma troca de tiros no meio da escuridão,   um   terror...   mas   tivemos muita   sorte:   para   começar   não perdemos ninguém e depois porque sabíamos que na berma, ao longo de 14 quilómetros, estava enterrado TNT. Se alguma bala lá tivesse   acertado,   tínhamos   ido todos pelos ares!

As rotinas dão sempre balas ao inimigo. Eles já sabiam que íamos passar ali... era o que costumávamos sempre fazer.

Ainda   assim,   continuo   a   dizer que tivemos muita sorte, porque só sofremos duas baixas e tivemos alguns feridos. Por comparação, a companhia   que   tínhamos   ido render   estava   completamente destroçada e tinha perdido muita gente.   Apesar   da   sorte,   foram tempos terríveis, pelo perigo, pela perturbação e pelas saudades de casa que apertavam. Lembro-me de chegar a uma altura em que eu e os outros tínhamos de olhar para as fotografias para termos a sensação de que ainda nos recordávamos   dos   rostos   daqueles   que amávamos.  

A Minha Guerra Angola
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