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'OPERAÇÃO DA CEJ' - ENTRE AS GENTES E OS AGENTES

Esta é a história de um ‘furo’ jornalístico. Das imagens dos arguidos do caso Casa Pia, captadas no primeiro dia de Setembro, aquelas que mais ninguém conseguiu para memória futura.
7 de Setembro de 2003 às 16:23
Tudo começou ainda Agosto ia no início. Um almoço do grupo destacado para cobrir o escândalo da Casa Pia levou-nos até às portas do CEJ – Centro de Estudos Judiciários. Primeira descoberta – A Divina Comida, é um restaurante... divinal.
Logo aí, vários dias antes do primeiro carro celular iniciar os testes de trajecto até aos portões do CEJ, com muitos dias de avanço sobre a primeira incursão de representantes das diversas forças que garantiriam a segurança da delicada operação, o CM já tinha identificado as melhores tomadas de imagem para o pátio do CEJ.
Depois o namoro secreto foi constante. De um lado, os populares, gente desconfiada cuja afabilidade foi necessário conquistar – ali ficou um punhado de amigos que não esqueceremos; do outro, a presença cada vez mais visível e intimidatória de agentes, ora fardados ora à paisana. As gentes das redondezas foram-se abrindo às nossas intenções e aderindo ao que pretendíamos fazer; os agentes iludidos pela naturalidade com que tudo se passava. O Largo do Limoeiro tinha mais um punhado de habitantes. E o prazer de um copo à conversa com o Sr. Manuel.
Escolhidos os locais possíveis, entrou em campo o nosso editor de fotografia. Coube a Orlando Almeida a aprovação do esconderijo – afinal era ele que ia dar o corpo ao manifesto. De forma insuperável como é de timbre. Colocado todo o material de véspera, iludida a vigilância, na madrugada, foi “só” disparar.
SEGREDO DO FURO JORNALÍSTICO
UMA SEMANA A PLANEAR E SEIS HORAS A FOTOGRAFAR
Para Orlando Almeida, de 33 anos, editor de fotografia do “Correio da Manhã”, as imagens exclusivas da manhã do arranque adiado das inquirições sobre a pedofilia na Casa Pia constituem o maior furo jornalístico da sua carreira. O êxito conquistado mostra ainda que nem tudo é sorte na vida.
Quanto tempo demorou a planear o trabalho?
A partir da ideia do Octávio Ribeiro, houve cerca de uma semana de preparação em que fiz o reconhecimento à procura do melhor sítio, até me decidir pelo eleito que tinha visibilidade sobre o local por onde passariam os arguidos, advogados, procuradores e juiz. Procurei um sítio alto, bem no enfiamento do pátio interior de entrada no CEJ e recuado para não chamar a atenção da segurança. Os contactos decorreram muito bem e houve até uma pontinha de sorte que acabou por tornar menos complicada a logística. Para evitar intromissões da polícia, tive a preocupação de levar o equipamento de fotografia para o local com a devida antecedência. Era de prever que em cima dos acontecimentos, a segurança não iria permitir o acesso de fotógrafos.
O Orlando Almeida não foi para lá de véspera?
Fui para o local só na manhã de segunda--feira. Ainda era noite escura, mas não madruguei muito mais do que o juiz Rui Teixeira. A rua estava sobre controlo especial e até encontrei um polícia junto à porta do prédio escolhido, mas não se passou nada. Ia pacatamente com um saco de plástico com compras feitas numa loja de conveniência, meti a chave à porta e não despertei a mínima suspeita.
Ficou nervoso com a presença do polícia?
Disfarcei, mas ainda me enganei na chave. Emendei sem dar parte fraca. E aqui é que está a tal pontinha de sorte.
Não teve mais problemas?
Complicados, não. Mas foram umas seis horas sempre a prevenir qualquer hipótese de ser apanhado. Estava numa varanda e tive de fotografar sempre deitado no chão para evitar ser visto. Havia apenas uma fresta entre as grades e nalgumas imagens tinha pela frente as ervas de um beiral onde eu não chegava para as arrancar. Para manter levantada a objectiva (uma 300 mm com duplicador), tive de fazer um esforço de abdominais que me deixou de rastos no dia seguinte.
Foi muito longa a espera para fotografar?
Não, porque às 7h20 chegou o juiz Rui Teixeira. Da vista que tinha, pareceu-me que ainda não estavam montados todos os procedimentos de segurança. A partir daí foi um frenesim. Chegou o procurador João Guerra, depois outros juristas do Ministério Público e o rolar dos acontecimentos nunca mais parou. Vieram as furgonetas com os arguidos, o Carlos Silvino, o Carlos Cruz, o Jorge Ritto, os advogados, todos.
Quantas fotografias disparou?
Enchi dois cartões de máquina digital, cada um com 150 imagens, e tive cautela em escondê-los separadamente, não fosse apanhado. Mantive-me atento a tudo e contei com as simpáticas cumplicidades. A certa altura, uma senhora viu-me de uma varanda ao lado, mas nem disse nada com o meu sinal de pedido de silêncio.
Depois do trabalho feito que medidas de prevenção tomou?
Tive sempre as fotografias importantes em segurança. Depois de levantarem a segurança visível, cerca do meio dia, desci à rua com dois cartões com imagens sem interesse. Vinha pronto para ser revistado e havia outro repórter fotográfico do CM, o Tiago Sousa Dias, em frente do prédio pronto para fazer a cobertura de qualquer incidente. Afinal, não aconteceu nada. Fomos tomar um café e, depois de ter a certeza que não haveria azar, fui buscar os cartões com as imagens exclusivas. Quanto ao equipamento fotográfico, só voltei para buscá-lo depois de ter a reportagem em absoluta segurança no jornal.
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