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Os absurdos premiados com Ig Nobel

Ciência tola e inventos sem interesse galardoados na Universidade de Harvard.
Fernando Madaíl 23 de Dezembro de 2018 às 05:13
Marc Abrahams, o criador dos prémios Ig Nobel  e editor da revista ‘Annals of Improbable Research’ (‘Anais da Pesquisa Improvável’) é um antigo aluno da prestigiada Universidade de Harvard, nos EUA
O Parlamento de Taiwan ganhou o Ig Nobel da Paz em 1995 por demonstrar que os deputados ganham maior notoriedade em andar ao murro e ao pontapé do que se declarassem guerra a outros países
‘Clocky, o despertador que foge’, um relógio com rodas capaz de fugir ao dono que o queira desligar para continuar a dormir, valeu à sua inventora, Gauri Nanda, investigadora do MIT, o Ig Nobel da Economia de 2005
Um momento sempre aguardado em todas as cerimónias de entrega dos Ig Nobel na Universidade de Harvard: quando a assistência atira aviões de papel para o palco
Marc Abrahams, o criador dos prémios Ig Nobel  e editor da revista ‘Annals of Improbable Research’ (‘Anais da Pesquisa Improvável’) é um antigo aluno da prestigiada Universidade de Harvard, nos EUA
O Parlamento de Taiwan ganhou o Ig Nobel da Paz em 1995 por demonstrar que os deputados ganham maior notoriedade em andar ao murro e ao pontapé do que se declarassem guerra a outros países
‘Clocky, o despertador que foge’, um relógio com rodas capaz de fugir ao dono que o queira desligar para continuar a dormir, valeu à sua inventora, Gauri Nanda, investigadora do MIT, o Ig Nobel da Economia de 2005
Um momento sempre aguardado em todas as cerimónias de entrega dos Ig Nobel na Universidade de Harvard: quando a assistência atira aviões de papel para o palco
Marc Abrahams, o criador dos prémios Ig Nobel  e editor da revista ‘Annals of Improbable Research’ (‘Anais da Pesquisa Improvável’) é um antigo aluno da prestigiada Universidade de Harvard, nos EUA
O Parlamento de Taiwan ganhou o Ig Nobel da Paz em 1995 por demonstrar que os deputados ganham maior notoriedade em andar ao murro e ao pontapé do que se declarassem guerra a outros países
‘Clocky, o despertador que foge’, um relógio com rodas capaz de fugir ao dono que o queira desligar para continuar a dormir, valeu à sua inventora, Gauri Nanda, investigadora do MIT, o Ig Nobel da Economia de 2005
Um momento sempre aguardado em todas as cerimónias de entrega dos Ig Nobel na Universidade de Harvard: quando a assistência atira aviões de papel para o palco

Treinar pombos para distinguirem as pinturas de Picasso dos quadros de Monet, sustentar que a água é um "líquido inteligente", contribuir para a felicidade dos mexilhões dando-lhes Prozac, cultivar uma pimenta não picante, obter uma receita química para ‘descozinhar’ parcialmente um ovo, conceber um estilo de penteado para carecas, catalogar os cheiros de 131 espécies de sapos em situações de stress, calcular a exata probabilidade de Gorbachev ser o anticristo – eis alguns exemplos de estudos, investigações ou conclusões que, desde 1991, têm sido contemplados com os Prémios Ig Nobel (um trocadilho que a palavra inglesa ‘ignoble’ permite).

Na lista dos laureados há pesquisas insólitas, descobertas inúteis ou invenções absurdas, desde a avaliação do efeito, em ratos que foram submetidos a um transplante de coração, da audição de árias de ópera até à verificação que os escaravelhos, quando se perdem, encontram o caminho de regresso observando a Via Láctea, da constatação que o cérebro dos taxistas londrinos é mais desenvolvido do que o dos outros cidadãos até à pioneira ‘Elucidação dos Componentes Químicos Responsáveis pelo Chulé do Pé’.

A iniciativa partiu de Marc Abrahams – que, mais tarde, lançou também a revista de humor com base na Ciência ‘Annals of Improbable Research’ (‘Anais da Pesquisa Improvável’) – e a cerimónia com os vencedores das descobertas mais estranhas do ano, que decorre em setembro na prestigiada Universidade de Harvard, chega mesmo a ter alguns verdadeiros Nobel a entregar os troféus aos Ig Nobel, enquanto a assistência costuma atirar aviões de papel para o palco.

Ao longo dos anos, o Ig Nobel da Medicina contemplou pesquisas como ‘O Efeito da Música Country no Suicídio’ ou a tese que tentava provar que os sintomas da asma podem ser tratados com uma simples viagem numa montanha-russa. O da Física já foi entregue pela demonstração de que um pão, a maior parte das vezes, cai com o lado da manteiga virado para baixo ou o estudo teórico da forma como se amachucam as folhas de papel. O da Química enalteceu, por exemplo, o desenvolvimento de um spray de deteção de infidelidade que as mulheres podem aplicar nas cuecas dos maridos ou o projeto de se extrair fragrância de baunilha a partir do esterco de vaca. O da Economia foi ganho pelo Principado do Liechtenstein, por permitir alugar o micropaís para congressos ou casamentos, e também pelo inventor do despertador com rodas, que foge e se esconde do dono que o quer desligar para continuar a dormir, contribuindo assim para haver muito mais horas de laboração.

Existem, pois, inúmeros projetos muito úteis para a vida do cidadão comum, como saber que ouvir música de elevador estimula o sistema imunológico a produzir anticorpos e, assim, ajuda a prevenir a constipação; a análise da fricção que se gera entre a sola do sapato, a casca de banana que se pisou e o chão por onde se caminha; a confirmação de que as vulgares galinhas preferem ver humanos bonitos; o efeito da cerveja, do alho e do creme azedo no apetite das sanguessugas; o censo de todos os ácaros que vivem nas nossas camas; o apuramento dos efeitos colaterais de se engolir espadas; a ideia de que qualquer um pode correr sobre uma superfície de água desde que esse indivíduo e o lago estejam na Lua.

O polaco ‘Prawo Jazdy’

Se a Academia Sueca tem sido criticada, ao longo das décadas, por não ter atribuído o Nobel da Literatura a vultos como Tolstoi, Ibsen, Proust, Joyce, Kafka ou Borges, os Ig Nobel desta categoria não merecem contestação, seja a escolha de um manual de seis páginas com o modo mais apropriado de se fazer um chá, uma estatística capaz de provar que a ‘Bíblia’ tem um código secreto escondido ou um livro de Medicina com cem vezes mais autores do que páginas.

Surgem temas bastante relevantes, como o rol de ‘Corpos Estranho Retais: Exemplos e Estudo da Literatura Mundial’, em que se revela que já foram extraídos do ânus de doentes objetos como um amolador de facas, duas lanternas, um rabo de porco congelado, sete lâmpadas, uma chávena de lata, um copo de cerveja – e, num só paciente, uma autêntica coleção, com um par de óculos, uma chave de mala, um saco de tabaco e uma revista.

E existem escritores prolixos, como o universitário que publicou mais de 80 relatórios académicos de assuntos que o incomodavam, como as percentagens de jovens que usam os bonés com a pala para trás, de transeuntes que calçam ténis brancos em vez de coloridos, de clientes que excedem o número de artigos permitidos na caixa mais rápida dos supermercados, de banhistas que nadam na parte da piscina em que têm pé em vez de o fazerem na mais funda ou de estudantes que não gostam de comer couves-de-bruxelas.

Há títulos que, só por si, evidenciam a importância da obra, seja ‘Consequências do Vernáculo Erudito Utilizado sem Necessidade: Problemas de se Usar Palavras Compridas Inutilmente’ ou ‘Seu Idiota! Investigação da Experiência da Indignação Dentro das Organizações’. Além da publicação do Departamento Geral de Contabilidade do Governo dos EUA de "um relatório sobre relatórios sobre relatórios que recomenda a preparação de um relatório sobre o relatório sobre relatórios sobre relatórios" ou o espanto de uma equipa de investigadores que não percebe por que motivo há tradução para todos os idiomas da expressão ‘Eh!’.

Mas, em termos de criatividade linguística, nada parece suplantar a façanha da polícia da Irlanda, ‘ignobelizada’ porque, apesar de escrever mais de 50 multas de trânsito ao cidadão do país que mais infrações cometeu ao volante, nunca encontrou esse estrangeiro, o ‘Prawo Jazdy’ – que, em polaco, significa carta de condução.

Outra das escolhas que tem suscitado polémicas é a atribuição do Nobel da Paz. Mas as do galardão criado por Marc Abrahams parecem ser "pacíficas": já contemplou o Parlamento de Taiwan, por demonstrar que os deputados ganham maior destaque ao esmurrarem-se e pontapearem-se, em pleno hemiciclo, do que se declarassem guerra a outras nações; a Marinha Inglesa, por ordenar aos militares que deixassem de usar balas de canhão verdadeiras nos exercícios e passassem a gritar "bang!"; o presidente da Bielorrússia, Alexander Lukaschenko, por decretar que é ilegal aplaudir em público; os cidadãos suíços, por adotarem o princípio legal de que as plantas têm dignidade; um autarca de Vilnius, a capital da Lituânia, por pugnar que a campanha mais eficaz para evitar o mau estacionamento é passar com um carro de combate blindado por cima dos veículos infratores; os inventores de um repelente sonoro para afastar adolescentes embirrentos, aparelho que emite sons agudos desagradáveis, não audíveis pelos adultos; ou os criadores de uma ‘bomba gay’, que teria o efeito dos soldados inimigos passarem a ser sexualmente atraídos uns pelos outros.

Mas a melhor justificação foi a de eleger o japonês Daisuke Inoue por ter inventado o karaoke. O júri considerou que esse aparelho, que permite a qualquer um cantar em público, originou uma maneira inteiramente nova das pessoas aprenderem a tolerar-se umas às outras. Já o seu compatriota Aki Maita, popularizando o tamagotchi, foi contemplados com o Ig Nobel Economia, quando se apurou que milhões de trabalhadores desperdiçam imenso tempo laboral a cuidarem daquelas mascotes virtuais.

O Ig Nobel que foi Nobel

Ao contrário das categorias fixas dos clássicos Nobel, neste prémio há uma grande flexibilidade. Uma das que prevalece é da Psicologia, na qual há dissertações como a que diz que virar a cabeça para a esquerda faz a Torre Eiffel parecer mais pequena ou inquéritos como o feito a mil mentirosos para saber com que frequência eles mentem e qual é a probabilidade de que eles tenham sido sinceros nas respostas a esse teste. Outra área privilegiada é a da Biologia, em que surgem autores de trabalhos como o que assegura que as pulgas dos cães saltam mais alto do que as dos gatos ou descobertas como a de uma espécie de besouro que se acasala com um modelo de garrafa de uma cerveja australiana. E a Matemática, em que há cálculos da quantidade de fotografias que é necessário tirar a um grupo para se ter a certeza que ninguém fica de olhos fechados numa das imagens, ou estimativas, como a efetuada por uma igreja batista, de quantos cidadãos do Alabama irão para o Inferno se, entretanto, não se arrependerem.

Mas ainda há outras que surgem de vez em quando, como a Meteorologia, em que se destaca a reportagem ‘Depenagem de Galinhas Como Meio de Medir a Velocidade do Vento de um Tornado’; a Engenharia de Segurança, atribuída a um canadiano que, não só inventou como também testou ele próprio uma roupa à prova de ursos pardos; a Arqueologia, para um grupo de escuteiros franceses que apagaram pinturas rupestres de uma gruta convencidos
de que eram umas pichagens modernas; a Ornitologia, para cientistas de duas universidades americanas que conseguiram explicar porque motivo é que o pica-pau não tem
dor de cabeça.

Entre as inúmeras distinções de temas bizarros, contam-se ainda o da Entomologia, para o autor de um livro no qual identifica os diferentes insetos que se esmagaram contra o vidro do seu carro durante uma viagem; o da Medicina Veterinária, para a pesquisa em que se anuncia que as vacas com nomes próprios dão mais leite do que as que não foram ‘batizadas’ pelos donos; o da Neurociência, pela tentativa de entender o que acontece no cérebro de quem vê a face de Jesus numa fatia de torrada; o da Nutrição, dedicado ao primeiro relatório acerca do ‘Sangue Humano na Dieta do Morcego-Vampiro-de-Perna-Peluda’; ou o da Pesquisa Interdisciplinar, por um muito completo dossier sobre o cotão do umbigo.

Também houve já curiosos prémios para as Ciências da Computação, pela interessante invenção de um software capaz de detetar se o gato passou por cima do teclado do computador; para a Arte, entregue ao criador de um elemento de decoração para jardins considerado como um dos mais revolucionários de sempre, o flamingo de plástico cor-de-rosa; para as Ciências Árticas, pela investigação sobre como é que as renas reagem ao verem pessoas disfarçadas de ursos; para a Anatomia, pela tentativa de se saber ‘Porque É que os Velhos Têm Orelhas Grandes?’; para a Astrofísica, pela descoberta que os buracos negros reúnem todos os requisitos para ser ali a localização do Inferno.

Em 1999, o Ig Nobel da Educação Científica foi atribuído às Secretarias de Educação dos Estados do Kansas e do Colorado (EUA) por terem decidido que os alunos não devem acreditar nas teorias de Pasteur (os germes provocam doenças), de Newton (Gravidade), de Darwin (Evolução) e de Faraday e Maxwell (Eletromagnetismo). Nada comparado com o da Tecnologia, conquistado pelo Australian Patent Office, em 2001, por aceitar que um cidadão tivesse patenteado algo que se conhece há quase seis milénios – a roda.

Mas a situação mais caricata foi a do holandês que foi Ig Nobel e, depois, Nobel. Em 2000, Andre Geim, da Universidade de Manchester, foi brindado com o primeiro, por fazer levitar um sapo recorrendo a imanes; em 2010, estava em Estocolmo (com Konstantin Novoselov) a receber os sérios diploma e medalha da Física pelas suas "experiências inovadoras com o grafeno bidimensional".

Logo, nada nos garante que também não venham a ser premiados com o verdadeiro Nobel alguns dos triunfadores dos sarcásticos galardões atribuídos este ano. Como o da Literatura, em que os autores demonstraram que a maioria dos consumidores que utiliza produtos complexos não lê o respetivo manual de instruções. Ou o da Economia, que condecorou a investigação se é ou não eficaz o recurso aos bonecos de vudu pelos funcionários que querem castigar um chefe. Ainda o da Paz, que selecionou o trabalho que mediu a frequência, a motivação e os efeitos de gritar e de insultar os outros quando se conduz um automóvel. Até mesmo o da Antropologia, em que se fez uma amostragem, num Jardim Zoológico, para se chegar à conclusão de que os chimpanzés imitam os humanos com a mesma frequência com que os humanos imitam os chimpanzés – o que é, evidentemente, ignóbil.

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