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Os bastidores do vídeo de Marcelo (COM VÍDEO)

Os alemães recusaram a exibição de ‘Ich bin ein berliner’ em espaço público de Berlim mas o filme é um sucesso na internet
18 de Novembro de 2012 às 15:00
Marcelo Rebelo de Sousa com dois figurantes
Marcelo Rebelo de Sousa com dois figurantes

O que fazem na vida real a grande maioria das pessoas que desfilam no vídeo ‘Ich bin ein berliner’ é, de facto, um retrato de Portugal em 2012. São na sua maioria desempregados que preenchem o parco orçamento e o muito tempo livre com todas as figurações que conseguem. Essa imagem não chega aos alemães, a quem o vídeo é destinado. Mas, para já, o filme de cinco minutos atingiu o fim para que foi criado: tornou-se viral. Em apenas 48 horas, registou 113 254 visualizações no Youtube, a que se somam os muitos telespectadores que o viram nos noticiários das televisões portuguesas e no ARD, canal público alemão. E para o ano há mais, promete o professor Marcelo Rebelo de Sousa, mentor do projecto.

"O importante é incentivar mais portugueses a tomarem, eles próprios, a iniciativa de multiplicarem contactos de esclarecimento aos cidadãos alemães", frisa à Domingo o conselheiro de Estado e ex-presidente do PSD, que contou com a ajuda de Rodrigo Moita de Deus, autor do blogue 31 da Armada e membro da comissão política do mesmo partido.

OS NÚMEROS E A HISTÓRIA

Filmado junto ao Padrão dos Descobrimentos, em Belém, o vídeo desfila números da nossa História, desde a revolução de Abril, à evolução do índice de alfabetização, ao parque automóvel, aos inevitáveis submarinos comprados à Alemanha, e exibe jovens e menos jovens, executivos e gentes do povo, polícias e manifestantes, portugueses e alemães.

"A ideia inicial era passar o vídeo em Berlim. E, porque se dirigia ao cidadão comum, daí o título escolhido", frisa Rebelo de Sousa. ‘Ich bin ein Berliner’ (Eu sou berlinense’) é uma frase emblemática proferida pelo antigo presidente norte-americano John F. Kennedy e apela, antes de mais, à solidariedade entre os povos. No entanto, apesar de idealizado, filmado e montado em tempo recorde – menos de uma semana – e com um orçamento limitado, "suportado pelos seus mentores", diz Moita de Deus, o filme acabou por ver recusada a sua exibição num espaço publicitário de Berlim (Alemanha).

"Comprámos o espaço publicitário, mas vetaram a exibição e à boa maneira alemã ,nem houve lugar a pagamentos. Entenderam que a mensagem era inadequada, mas acho que os critérios foram seguidos demasiado à risca", garante Moita de Deus, que recusa o rótulo de ‘conteúdo politizado’. "Queríamos acabar com o preconceito, que existe na Europa do Norte, de que trabalhamos pouco, pagamos poucos impostos. Parece que os sacrifícios que nos são impostos são normais. E o vídeo queria também mostrar que o projecto europeu é um projecto de solidariedade", frisa.

O filme acabou por ser entregue aos jornalistas da ARD, canal público alemão, que em Lisboa cobria a visita da chanceler Angela Merkel. Sobre a reacção dos alemães, apenas se podem medir os ‘like’ e os comentários às versões em inglês e alemão que passam na internet, onde uns defendem que "a Alemanha não tem culpa da crise" e afirmam que as políticas de Merkel são melhores que as de "Barroso, Monti e Draghi", e outros lembram que a crise "é global".


"Saber como os alemães irão reagir, é matéria que só se poderá, eventualmente, apurar daqui por alguns meses. Quem sabe se mais perto das eleições parlamentares do próximo ano", avança o professor.

Por cá, o vídeo serviu também para mostrar que na arte do improviso, continuamos a dar cartas.

"Foi feito em tempo recorde. Fechámos o guião na terça-feira, filmámos na quinta, o único dia dessa semana em que não houve chuva, entre as 12h00 e as 16h00", explica o realizador Mário Brito da produtora Comsom, que assina trabalhos para a REN ou o Pingo Doce, e outras marcas.

"Tivemos cinco horas de gravação, editámos o filme nessa noite e estava pronto na manhã de sexta-feira. Foi uma produção barata, com recursos técnicos limitados, em que o sucesso surge pelo conteúdo, o que é normal nestes trabalhos virais para internet", adianta. Também a figuração, da Valente Produções, foi conseguida a baixo custo, pois usaram "pessoas que representassem objectivamente o povo português, e fugimos ao tradicional casting de pessoas com beleza extrema, usado em publicidade".

CRISE E MAIS FIGURANTES

Reflexo da crise, o que mais se encontram hoje são "pessoas normais a oferecerem-se para figuração", diz José Valente, da Valente Produções, que garante estar habituado a responder nestes prazos. "Temos 30 mil pessoas inscritas, e por isso é fácil reunir as 80 pessoas necessárias para este filme. Quem se inscreve aqui não paga nada e recebe pelos trabalhos que faz. Noto é que são cada vez mais e de todas as idades. Procuram um complemento ao ordenado, ao subsídio ou a nada, como acontece em muitos casos."

Márcio Correia, 32 anos, desempregado – depois de vários anos no departamento comercial de uma empresa de serviços e eventos – tem nas figurações a sua única fonte de rendimento. "Sempre fiz figuração, a diferença é que agora tenho total disponibilidade. Não dá para viver, mas é um apoio a juntar à ajuda da família". Este ano, já participou em cinco produções estrangeiras e na novela ‘Dancin’ Days’, da SIC. Quando foi contactado para entrar em ‘Ich bin ein berliner’, nem sabia ao que ia. "É sempre assim. Dizemos se temos ou não disponibilidade, mas, neste momento, estes trabalhos são a oportunidade de sair de casa, e arejar. Deste até gostei. Foi bom estar envolvido neste projecto".

No vídeo, Carla Esteves, 50 anos, assume o papel da ‘consumista’ e mostra um cartão de crédito na mão, imagem bem distante da sua realidade. "Há seis anos, fui obrigada a fechar a minha loja e deparei-me logo com a falta de perspectivas. Se aos 44 anos foi difícil, aos 50 não se consegue trabalho, e a figuração é um escape. Faço publicidade, filmes, telenovelas, pagos entre 25 euros e 150 euros, consoante os trabalhos", diz. A preparação "é simples. Levamos sempre um saquinho com alguma da nossa roupa, no caso de a que é dada pela produção não nos servir, e lá somos maquilhados e penteados. Gostei da mensagem, mas a verdade é que só as pessoas muito próximas me reconhecem".

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