Os caçadores de OVNIs

Sacode a ‘caixa de Pandora’ à passagem de um (suposto) ovni. Serão extraterrestres que nos visitam? Acima de tudo, para quê? As conjecturas exaltam os ânimos dos ovnilogistas, que não perdem a oportunidade para procurar resposta às dúvidas – ou confirmar a natureza do objecto voador não identificado.
29.04.07
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A mais recente esperança, que vem de fora do sistema solar, é a descoberta de um planeta com características idênticas à Terra: temperaturas entre 0 e 40 graus centígrados; apenas 50 por cento maior que o nosso planeta; água; e talvez... vida! Só que este é o futuro das descobertas; no passado histórico inscreveu-se o astrónomo norte-americano Edwin Hubble, que na década de 20 observou galáxias para lá da Via Láctea. Quem já acreditava em ovnis, esfregou as mãos.
De acordo com Nuno Montez da Silveira, presidente da Sociedade Portuguesa de Ovnilogia (SPO), “há relatos de objectos com trajectórias de voo e morfologia anómalas, a maioria com forma de discos metálicos ou cilíndricos”. Mas só se está perante um objecto voador não identificado quando a triagem dos relatos não explica o fenómeno.”
Pedro Salgado, de 37 anos, acredita em ovnis. Ainda miúdo, acampou com a família no Parque de Campismo da Arrábida. A noite de Verão, em 1980, parecia obrigar Pedro e outro miúdo a brincar junto ao rio Sado. “Olhámos para a linha de água e vimos um objecto, de cor púrpura e com aspecto de estrela-do-mar, a descer. Nós conseguíamos acompanhá-lo com o olhar, até que o objecto submergiu.”
Com maior evidência, as fotografias que Eduardo Silva, de 27 anos, tirou na barragem de Monte Novo, entre Évora e Reguengos, mostram um objecto voador nunca identificado. “Não houve barulho. Só quando vi a fotografia é que percebi. Ainda brincámos a dizer que era um ovni. Só quando ouvi as notícias é que demos importância” – revelou na altura ao Correio da Manhã o engenheiro. Aquele objecto captado às 14h30 do dia 31 de Maio de 2004 condizia com a descrição feita pela Força Aérea, na véspera, de um objecto “tipo fusiforme” que cruzou o espaço aéreo nacional.
Flávio Areias, um bombeiro com 23 anos, avistou três objectos estranhos no céu. E sempre com desconfiança. “Não acredito em ovnis, apesar de se ter descoberto um planeta onde possa haver vida...” Em Junho de 2004, os Bombeiros Municipais de Abrantes estavam no rescaldo de um incêndio em Concavada quando um colega olhou o céu: não havia estrelas; só a Lua aparecia... e um estranho objecto com luzes azuis e de tons alaranjados. “Estava parado. Algum tempo depois acelerou, em linha recta, a uma velocidade enorme.” Apesar do descrédito que concedeu ao fenómeno, Flávio observou meses mais tarde dois fenómenos semelhantes.
UM GRUPO
Um grupo de investigadores do Centro Transdisciplinar do Estudo da Consciência, da Universidade Fernando Pessoa, em Lisboa, compilou os casos relatados a três associações de ovnilogia (entretanto extintas), de 1908 a 2000. Mesmo sem evidências, registaram 618 casos, dos quais 14,8 por cento em Lisboa, 22,5 por cento no Porto e 8,2 por cento em Faro. O estudo indica ainda que os avistamentos produzem efeitos nos humanos de quatro tipos: físicos, principalmente suores e perturbações da visão; afectivos, como o medo, terror ou alegria; ‘a posteriori’, como pesadelos ou de sonhos; e cognitivos, como impressão sobre o carácter do fenómeno.
Já a SPO credita 764 avistamentos às últimas nove décadas (ver gráfico). A Força Aérea norte-americana e a agência espacial NASA fizeram também, de forma independente, estudos sobre ovnis e a hipótese de vida extraterrestre. Dos 12 618 relatos que constam no ‘Livro Azul’, entre 1947 e 1969, 701 são “inconclusivos”. Agora, a NASA prepara-se para lançar em 2011 o Terrestrial Planet Finder – um satélite que vai estudar as características de planetas fora do sistema solar. Objectivo igual terá o satélite ‘Corot’, da Agência Espacial Europeia. Há vida fora da Terra? É pois a dúvida do comum mortal.
A França foi o único país que tornou públicos os arquivos oficiais sobre ovnis. O Grupo de Estudo e Informações sobre Fenómenos Aeroespaciais Não-Identificados (Geipan), do Centro Nacional de Estudos Espaciais (CNES) – em www.cnes.fr –, abriu em Março a ‘caixa de Pandora’ para casos que, dizem, um em cada três não têm explicação. É a conclusão a que se chega após o despiste de fenómenos de origem natural (auroras boreais, furacões, efeitos das nuvens e neblina, ou relâmpagos) e de origem humana (foguetes, efeitos laser, aviação, balonagem, ou satélites).
FALANDO DE OVNIS
E falando de ovnis vem à memória o caso de Alfena, Valongo. É o mais significativo no País. Três dezenas de pessoas garantem ter visto o fenómeno, às 09h00 do dia 10 de Setembro de 1990. As crianças brincavam na rua quando descobriram um balão no céu – mas os adultos identificaram um estranho objecto aéreo em forma de “tartaruga com patas”. Disco voador? Fica a dúvida.
“Podemos considerar a hipótese de psicose (colectiva). Mas as fotos descartam essa possibilidade.” Para Luís Aparício, presidente da Associação de Pesquisa Ovni (APO), estes registos traduzem um ovni. E porque não nos contactam? Luís muda a postura e responde com teorias balanceadas entre a ‘conspiração’ e a ‘preservação’. “Primeiro, [os extraterrestres] não interferem cá para não ficarem com esse ónus porque mudaríamos a nossa maneira de pensar; segundo, a contaminação por micróbios poderia ser fatal.” Sem medos, a verdadeira caça ao ovni está instalada, através das vigílias nocturnas organizadas pelas associações.
No início da segunda metade do século XX, tinham sido os pilotos da Força Aérea Portuguesa (FAP) a relatar um dos fenómenos ovni mais emblemático. Resulta daí o pragmatismo que enche as palavras do general José Lemos Ferreira, antigo chefe de Estado-Maior da Força Aérea, ao admitir fenómenos estranhos. Ovnis? “Não posso acreditar noutra coisa!” – exclama à Domingo.
Tudo começou na noite de 4 de Setembro de 1957: o então capitão Lemos Ferreira comandava uma formação de quatro aviões F-84G que foi surpreendida por uma luz brilhante no horizonte. A esquadrilha de caças-bombardeiros fazia a volta inversa do voo entre a base da Ota e a cidade espanhola de Granada. Só a Lua quase cheia os iluminava. Ao sobrevoar Portalegre avistaram um ponto luminoso diferente dos corpos celestes que conheciam. O objecto, cintilante, variava a cor – entre o verde e azul; entre amarelos e vermelhos. “O que nos chamou a atenção foi o objecto a expandir-se e depois voltar à dimensão inicial. Fez isto três ou quatro vezes” – relata o general. Incomodados, decidem regressar à base. Mas, para espanto dos pilotos, já estavam rodeados por objectos semelhantes, de dimensões menores. Ao sobrevoar Coruche, o objecto maior – que até ali estava estático num horizonte longínquo – precipitou-se sobre os caças, que logo romperam a formação. Acossada, a esquadrilha regressou à base.
“Entrei para as torres dos radares de Montejunto nesse dia; coincidência não é?” Para Heitor Morais ouvir o capitão Lemos Ferreira perguntar aos radaristas se havia registos do ovni – e havia mesmo –, era o prelúdio para uma série de acontecimentos. No mesmo ano, com o vento e o frio a arrepiar as almas vivas na serra de Montejunto, conta, desapareceu misteriosamente um sentinela da torre – rapaz de 19 anos, bem constituído e protegido pela própria espingarda. Da guarida, ninguém fugia por ser tudo a pique; nem subia porque a vista era plena. Só que o soldado desapareceu. Chegaram 40 militares para reforçar as buscas no meio do breu da noite e do mato. Uma hora depois, 40 metros abaixo do posto de retransmissão de TV, ali estava ele. Encolhido. Branco. Sem movimentos e com a mão cravada à espingarda. “Revelou que estava a ler quando viu um carro. Saiu da guarida, com a espingarda em punho. Viu então que o veículo com duas luzes não era um carro. A única coisa que se lembra depois foi de ter visto dois olhos amarelos”, diz Morais.
A estas observações de ovnis, com seres extraterrestres, aqueles que nestes crêem, os ovniologistas, chamam encontros imediatos do terceiro grau. Segundo o estudo da Universidade Fernando Pessoa, nos anos 40 os extraterrestres eram descritos como vultos ou ‘fantasmas’. Uma década depois, relatam-se seres com capacete e, nos anos 60, com escafandro. A partir de 1975, são descritos humanóides.
Em Agosto de 1960, foi a vez de Heitor Morais assistir a um fenómeno classificado ovni. O céu estava limpo. O radarista fumava com o colega dos monitores quando o chamaram para resolver um problema. Dentro da torre dos radares predominava o escuro. “Ouvi um ruído que não esqueço. Abrimos uma porta enorme e a sala foi inundada por luz. Um objecto brilhava e deixava um rasto de qualquer coisa.” O ovni deslocava-se a uma velocidade alucinante: “Tínhamos uma régua de medição de velocidade; ia a 4800 km/h! Até me estou a arrepiar; o que seria?”
RUMORES ENTRE PILOTOS
Nos 60 e 70 só havia rumores entre os pilotos da FAP que diziam ter avistado ovnis. Acontece que “muitos não escreviam relatórios”, explica o major Paulo Gonçalves, das Relações Públicas. Trinta anos volvidos e são os radares que primeiro acusam presenças estranhas no ar – na linguagem militar, alvos (ou ’target’). E não ovnis. Que só em caso de ameaça nacional fazem os aviões F16 levantar voo para os interceptar (ver caixa). “Não há avistamentos com frequência, mas quando acontecem as pessoas telefonam – e bem – para a FAP [pelo telefone 214723509].”
Quem não caça com predadores F16, como António Silvério, de 46 anos, inventa uma forma de não perder a presa de vista. O ovnilogista fabricou um radar que alerta para fenómenos estranhos no céu de Midões, a sete quilómetros de Tábua. É lá que está o engenhoso aparelho, plantado entre carvalhos da Quinta de Cáparos: dois arcos cruzados na vertical; localizador; alarme; máquina fotográfica; e cabos estendidos até ao computador em casa, que regista graficamente os fenómenos. António Silvério defende que estes radares deviam ‘povoar’ o País e fazer uma cobertura nacional via internet.
António não quer perder a oportunidade de voltar a avistar um ovni, tal como o que lhe apareceu a 15 de Julho de 1978 (ou 79, não sabe precisar), o dia do seu aniversário, como se fosse uma prenda. “No início parecia uma estrela cadente, mas o rasto era alaranjado e não branco. E era mais lento. Aquilo deu um ‘flash’ tão intenso que tive de desviar o olhar. Eram duas da madrugada, mas ficou dia por 15 segundos – até os galos cantaram!”
CIENTISTAS DESCREDIBILIZAM
Miguel Gonçalves, coordenador em Portugal da associação norte-americana ‘Planetary Society’, considera que os ovnis apenas existem por estarem no céu e não serem identificados. Daí a associá-los à presença de extraterrestres na Terra vai uma distância separada por um precipício, o das incertezas científicas. Mesmo os relatos de quem avistou ovnis, ou que afirma ter sido contactado por seres não-humanos, defende, “são sempre mensagens moralistas e nunca a comprovação de teorias científicas”. Os cientistas admitem haver vida noutros planetas, mas que poderá nem ser inteligente. “Há biólogos que ficariam satisfeitos se houvesse simplesmente bactérias em Marte.”
CASOS RELATADOS EM 50 ANOS
11 DE NOVEMBRO DE 2006
Miguel Horta avistou no quintal de casa, em Altura (Algarve), um objecto que não teria mais de 40 centímetros de diâmetro. Emitia um barulho “infernal”. Na mesma noite, também o seu amigo Noel Rodrigues avistou o mesmo objecto na varanda da sua casa.
1 DE JUNHO DE 2004
Será talvez um dos fenómenos ovni mais presentes na memória, já que portugueses e espanhóis relataram ter avistado uma espécie de cometa, com um rasto de fumo. Foi detectado pelos radares da Força Aérea, embora os registos já não existam. Nunca se chegou a uma conclusão.
10 DE SETEMBRO DE 1990
Cerca de três dezenas de pessoas avistaram nesta manhã em Alfena, Valongo, um objecto voador semelhante a uma “tartaruga com patas”.
1982
O piloto da Força Aérea Júlio Guerra estava numa sessão de treinos de acrobacias quando detectou outra aeronave a sobrevoar o chão. Ao tentar alertar a torre de controlo, constata que aquele aparelho não tinha asas nem cauda. Segundo relatou anos mais tarde às câmaras da SIC, estava perante o que acredita ser um ovni.
1974
Aparecimento da revista portuguesa ‘Insólito’, publicada pelo Centro de Estudos Astronómicos e de Fenómenos Insólitos, dirigida por Joaquim Fernandes.
31 DE JANEIRO DE 1968
Serafim Vieira Sebastião, então guarda das instalações militares da Azores Air Station, na Ilha Terceira, Açores, deparou-se com um objecto estranho, brilhante, a aproximar-se do paiol de munições. Viu dois homens no interior e dois no exterior, cor de chumbo.
1960
O radarista Heitor Morais estava na torre de Montejunto quando os radares detectaram um fenómeno estranho e ele então avistou um aparelho que brilhava ao Sol, deixando um rasto enquanto subia em altitude a uma velocidade vertiginosa.
4 DE SETEMBRO DE 1957
No final da tarde, a esquadrilha de caças bombardeiros comandada pelo capitão Lemos Ferreira (mais tarde, Chefe de Estado-Maior da Força Aérea) foi surpreendida pelo que o comandante acredita ser um ovni.
TÍTULOS DO CINEMA E DA LITERATURA SOBRE VIDA EXTRATERRESTRE
'EX', DE MIGUEL CLARA VASCONCELOS
Estreou a semana passada no Festival Indie de Lisboa o documentário ‘EX’, da Andar Filmes. Relata a relação entre o divino das aparições de Fátima e ovnis.
'FICHEIROS SECRETOS', DE CHRIS CARTER
A série da TVI onde dois agentes do FBI, Fox Molder (o crente) e Dana Scully (a céptica) investigam casos sobrenaturais, até ali sem qualquer explicação.
'ENCONTROS DE 3º GRAU', DE STEVEN SPIELBERG
Um pai de família vê o seu comportamento alterado por um econtro imediato com extraterrestres. Um filme surpreendente, com muitos efeitos especiais.
'CONTACTO', DE ROBERT ZEMECKIS
Carl Sagan escreveu o livro ‘Contacto’, que depois inspirou Robert Zemeckis a realizar um filme com título igual, sobre a vida inteligente dos extraterrestres.
TESTEMUNHOS DE HÁ QUASE 30 ANOS
Só quinze anos depois de Pedro Salgado, de 37 anos, ter avistado o que afirma ser um ovni, é que quebrou o pacto de silêncio que mantinha desde 1980 com um amigo de infância. Os dois miúdos brincavam no parque de campismo da Arrábida, quando um objecto voador estranho desceu do céu e submergiu.
Dois anos antes – talvez antes, porque a memória duvida se foi em 1978 ou 79 –, António Silvério, de 46 anos, foi surpreendido por um estranho objecto voador. Nunca mais esqueceu, era o dia do seu aniversário. Da surpresa nasceu a paixão pela ovnilogia e, a partir daí, construiu um radar para detectar ovnis que gostava de espalhar pelo País.
OUVIU FALAR E VIU OVNIS
Heitor Morais foi radarista militar na torre de Montejunto. Assumiu o posto precisamente a 4 de Setembro de 1957. O mesmo dia em que o então capitão Lemos Ferreira voou numa missão entre a Ota e Granada (Espanha) e, no regresso, foi perseguido por um objecto que classifica como ovni. O próprio Heitor, dois anos depois, viu um ovni na sua torre de radares.
COMO REAGE A FORÇA AÉREA AO VOO DE AERONAVES ESTRANHAS?
1. Os radares do Comando Operacional da Força Aérea, no bunker a 70 metros abaixo do solo de Monsanto, detectam em qualquer ponto do País um alvo ou ‘target’ – já que não usam a designação de ovni – que não está identificado.
2. A Força Aérea Portuguesa prepara-se para defender o País: é preciso saber que tipo de ‘target’ é aquele e, acima de tudo, quais as suas intenções.
3. Se (e só se) o ‘target’ é consistente – tem rumo e velocidade – alertam-se os sistemas.
4. Liga-se a frequência de emergência e tenta-se comunicar com o ‘target’: “aeronave a voar à vertical de Coimbra (por exemplo) identifique-se e diga quais as suas intenções.” E repete-se depois a frase em inglês, a linguagem universal aérea.
5. Se não houver resposta, das duas uma: o avião tem uma avaria a bordo que afecta as comunicações; ou não quer responder. Acontece que no primeiro caso, a aeronave tem códigos de voo para alertar as autoridades, através de manobras próprias.
6. Se não houver qualquer resposta, tudo indica que o ‘target’ não tem boas intenções. Está na altura de fazer sair os caça (F16) da base de Monte Real. No máximo, em 15 minutos estão a voar.
7. Faz-se o um primeiro contacto visual; tenta-se depois a intercepção. Mas caso o ‘target’ não acate as indicações dos caça a decisão passa para a esfera política, do primeiro-ministro ou do ministro da Defesa – por indicação expressa do anterior.
8. “Assim que se descubra que afinal o aviãozinho é de marcianos e que ia de Marte para Vénus, nós deixamo-lo passar”, afirma o major Paulo Gonçalves, das Relações Públicas da Força Aérea (FA). “O objectivo da FA é a defesa do País.”

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1 Comentário
  • De Victor Santos05.08.13
    Finalmente um artigo interessante. Embora não seja do interesse de todos, o que é pena, até os mais céticos podem mudar de opinião. Há muito para descobrir e compreender do que se passa além fronteiras. A verdade virá!
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