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Os chorrisos do Gui

“São birras homéricas seguidas de gargalhadas tonitruantes e vários momentos em que fica ali na fronteira”
21 de Agosto de 2011 às 00:00
Os chorrisos do Gui
Os chorrisos do Gui FOTO: Ilustração de José Carlos Fernandes

Não, caro leitor, "chorrisos" não é a nova forma de escrever "sorrisos" ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico. "Sorriso" continua a escrever--se sorriso. "Chorriso" é uma outra coisa, que os dicionários de língua portuguesa ainda não contemplam, mas que o meu filho mais novo pratica todo o santo dia.

O chorriso, como o próprio nome indica, é uma mistura de choro e riso, um estridente cruzamento de felicidade e tristeza simultâneas, ao ponto de ninguém conseguir decidir-se (nem o próprio praticante) qual o estado de espírito que domina. Qualquer pai já se deparou com os chorrisos de um filho, porque é uma actividade muito comum em crianças bêbedas de sono e à beira do esgotamento físico (experimente manter um miúdo de dois ou três anos acordado até à uma da manhã e vai ver). O Gui, contudo, pratica o chorriso mesmo estando perfeitamente sóbrio e fresco que nem uma alface – o que torna a coisa bastante mais irritante.

Pode ser uma forma enviesada de orgulho paterno, mas estou certo de que o meu filho é recordista nacional da passagem do choro ao riso. Tanto que nos últimos tempos tem andado a treinar para os campeonatos mundiais da especialidade. São birras homéricas seguidas de gargalhadas tonitruantes e vários momentos em que fica ali naquela estranhíssima fronteira onde o chorriso habita. Precisamos de fazer um compasso de espera, deixar a gritaria prolongar-se mais um bocadinho, até concluirmos "ah, boa, desta vez não é preciso enfiar-lhe um tabefe – ele está-se a rir".

À primeira nós ainda achamos graça. Ao fim de dez dias de chorrisos consecutivos a piada começa a esmaecer. É certo que todos os filhos atravessam fases, umas mais difíceis do que as outras. E também é certo que todas as crianças põem uma intensidade doida na vida, o que faz com que a simples mudança do Canal Panda para o Telejornal possa gerar nelas uma reacção histérica semelhante à que teriam se o pai entrasse em combustão espontânea. Mas há limites para tudo – limites que o Gui manifestamente desconhece.

Daí que o mínimo desagrado acabe em tragédia shakespeariana: embirra com os irmãos a toda a hora, bate o pé para fazer as coisas mais absurdas, é teimoso que nem uma mula. E no final das suas tristes figuras ainda protesta por nos zangarmos com ele. "Não foi de popósito", diz num lamentável português. E chorrisa mais um bocadinho.

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