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“Os dias mais felizes eram os da chegada do correio”

Agraciado com dois louvores, chefiei a secção de cavalaria na terra de Jonas Savimbi
Miguel Balança 11 de Outubro de 2018 às 11:58
As águas daquele mar eram-nos desconhecidas. Tenro, assentei praça aos 21 anos no Centro de Instrução de Condutores Auto, em Lagos. Recruta feita, segui para a Escola Prática de Serviço de Material, em Sacavém, de onde retornei a Sul para ingresso, meses depois, em estrutura semelhante, em Tavira. Do Sotavento algarvio, parti depois para o Regimento de Cavalaria Nº6, no Porto. Acabei mobilizado na Invicta. Para o Ultramar formavam-se pelotões vários – para Angola destacavam-se dois, o 3004 e o 3005. Cada formação tinha 14 militares, chefiada por um alferes e um sargento. Pelotões de reconhecimento, os ‘Pelotões Daimler’. Do Cais da Rocha, em Lisboa, embarquei no ‘Vera Cruz’, a 9 de junho de 1971. Lembro-me bem: o Dia de Portugal, a 10, havia de ser passado ancorado na Madeira. Como as de tantos outros militares, o mar adensou-se ali com as minhas lágrimas.

Em dia quente, apeámo-nos em Luanda, pelo menos uma semana depois. Estacionaríamos um par de dias no campo militar do Grafanil até recebermos ordem para seguir para Norte. Calhou-nos em sorte Ambriz, para onde partimos em rendição da Comissão de saída. A missão exigia a proteção plena de uma pista de aviação – de terra batida – e o controlo dos civis em jornada de agricultura.
De Daimler para Panhard

Seguíamos nas velhinhas Daimler – em coluna, três vezes por semana – do Caxito ao Ambrizete. Aquele ‘carro de combate’ – veículo com metralhadoras, mas sem rádio – transportava condutor e atirador sob um calor infernal. Era "só aço". Meses depois, aquele pelotão foi extinto.

Regresso a Luanda, para os ‘Dragões’. Já nos novos ‘Panhard’, garantíamos a escolta para proteção e reabastecimento. Seguia-se invariavelmente para Norte. Era difícil, não havia estradas, mas picadas abertas à força militar. Os carros civis - bastantes, sem tração e que só integrando uma coluna militar se podiam movimentar - obrigavam-nos a andar a passo de caracol. A saída da capital da "Província Ultramarina" far-se-ia morosamente, com paragem obrigatória em Quiteche, Quibache, Zala e Nambuangogo. Fui transferido para os Dragões de Silva Porto, onde permaneci apenas cinco dias. Saí para o 1º Esquadrão a Cavalo, no leste, em Munhango – terra de Jonas Savimbi e apeadeiro afamado dos Caminhos de Ferro de Benguela. Permaneci ali, onde havia sido colocado para chefiar a secção Auto na ausência de primeiro-sargento, até ao fim da Comissão. Recordo a grande operação a cavalo pelo leste, onde, destacado por sete dias consecutivos, prestei apoio a colunas de reabastecimento. Lembro um esquadrão imenso, a cavalo. Era composto por um médico, um veterinário e dois enfermeiros, acompanhados de um grupo de GES, tropa especial nativa.

Não gosto de recordar por palavras momentos tristes. Mas houve um que, gravado para sempre, não posso - nem consigo - esquecer. Encontrava-me no quartel; era meio-dia, tanto quanto posso precisar. Ouviram-se rebentamentos e uma leitura pronta fez- -me crer que se tratava de uma mina no comboio. Seguiram-se outros rebentamentos. Tornava- -se manifesta a fumaça vinda das cavalariças. Uma tragédia. Não esqueço aqueles animais mortos, a rebentar. Note bem: uns totalmente queimados, outros em fuga desesperados. A censura não impediu que, à socapa, recolhesse imagens do episódio funesto.

Foi uma guerra sem razão de existir. Mas que se cumpriu - obrigatoriamente. Os dias mais felizes eram os que ditavam a chegada do correio e das notícias de casa. Regressado a Lisboa, fui agraciado com dois louvores.
Termino com um abraço a todos quantos me acompanharam e fizeram do Pelotão Daimler a força no Ambriz.


Relato de António Baroa

Comissão 1971-1973
Força Pelotão Daimler

Aos 69 anos, é casado e tem três filhos. Foi Oficial de Justiça
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