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Correio da Manhã

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Os dois moradores do rossio

Não haverá vida no Rossio para além da morte de Raul e Natividade. Os dois idosos são os últimos moradores na praça das revoluções, transformada em cemitério de bancos, lojas e pensões. Sentem-se sozinhos no meio da multidão de turistas, vendedores de rua e gente anónima a correr para o emprego.
3 de Abril de 2005 às 00:00
Raul e Natividade, os últimos moradores do Rossio.
Raul e Natividade, os últimos moradores do Rossio. FOTO: Pedro Catarino
De passo vagaroso, Raul e Natividade passeiam com o seu belo fato domingueiro em frente à esplanada da pastelaria Suíça, onde um grupo colorido de turistas ingleses bebe canecas de cerveja como esponjas ao sol. As gargalhadas estridentes confundem-se com as vozes esganiçadas das ciganas gordas a apregoar camisolas da moda. É uma pechincha, gritam, enquanto as notas de cinco euros circulam de mão em mão e as blusas baratas acabam dentro de sacos de supermercado. Os dois idosos cruzam-se com o mar de gente apressada a sair da boca do Metro indiferente aos vendedores de aspecto sinistro, que impingem óculos de sol, telemóveis e outras bugigangas a quem passa. O corrupio vai e vem, ao ritmo do apito intermitente do sinal verde para peões.
“Está melhorzinho do coração?”, pergunta Rogério Ramalho, o prestável porteiro do 93, o prédio onde Raul nasceu há 82 anos em frente à movimentada praça do Rossio. “Foi só um susto. Estive no Desterro uns dias mas mandaram-me embora”, responde o alfacinha, erguendo a caixa dos comprimidos, como se fosse um troféu. Só os toma quando tem um aperto no peito. O porteiro de farda azul coçada sorri, condescendente. Costuma ajudar o casal a transportar os sacos das compras até ao longínquo 4.º andar. O elevador está avariado. Há cinquenta anos. Aliás, todo o prédio pombalino parece ter parado no tempo. No hall de entrada ainda há reclamos a preto e branco colados nas paredes a precisar de tinta: ‘Calista Mendes’, ‘Lanifícios da Covilhã’, ‘Alfaiate Caldeira’, anunciam. Nem todos os estabelecimentos fecharam portas, mas os fregueses contam-se pelos dedos das mãos. Os inquilinos morreram ou mudaram-se de freguesia.
“Eu e a minha mulher somos os últimos sobreviventes”, revela o octogenário, enquanto sobe a passo de caracol a longa escadaria com a mulher. No 1.º andar, limpa o suor da testa. No 2.º faz uma pausa para descansar. Raul da Silva já não pode brincar com o coração: “Não há mais moradores no Rossio. Depois de nós isto ficará sem ninguém”, diz antes de desaparecer no escuro.
HÁ TIROS NO ROSSIO
Aos oito anos de idade, Raul coleccionava amigos em todos os patamares do prédio. O João, filho de um empregado do cabeleireiro do 1.º andar, e o Álvaro, filho do porteiro, eram os compinchas da bola. Depois das aulas, iam para os largos corredores do número 93 imitar os seus ídolos: Vítor Silva, do Benfica, ou Pinga, do Sporting. O soalho de madeira fazia de relvado. As jogatanas só terminavam com as vozes esbaforidas dos vizinhos, a refilar com os estrondos da bola de couro: “Já disse que não vos quero ver aqui. Vão jogar à bola para a rua”, berravam de chinelo na mão. Os três amigos fugiam escadas abaixo, entre risadas e caretas e iam fazer fintas e golos para a rua.
Numa dessas tardes de galhofa, porém, não chegaram a sair da porta do prédio. Uma multidão enfurecida invadira o Rossio. De bola debaixo dos braços e boca aberta, Raul recorda-se de observar os rostos irados e ouvir palavras de ordem, que não percebia: “Abaixo o Governo. Abaixo a situação”. Os tiros soariam mais tarde. E com eles os gritos de pânico dos manifestantes. No meio do nada, surgiram polícias de cacete na mão a disparar indiscriminadamente. As pessoas fugiam em todas as direcções, como baratas tontas. “Fecha a porta. Fecha a porta”, gritou-lhe o porteiro, esbaforido. Raul semicerrou os olhos, escondendo-se num canto com medo. As palavras da mãe soavam-lhe na cabeça como uma campainha: “Não temos janelas viradas para o Rossio porque não quero que entre uma bala perdida para dentro de casa.” Era a primeira manifestação a que assistia. “Anos depois, quando havia confusão na rua ia, às escondidas, espreitar pela janela que dava para a praça”, recorda o lisboeta. “Principalmente nos 1.os de Maio, que terminavam sempre em pancadaria.”
Embora não percebesse nada de política, o pequeno Raul bebia as palavras do pai, José Augusto, um republicano tão anticlerical que se recusou a baptizar os três filhos com nomes de santos, um costume da época. “Não poderíamos ter nomes mais laicos: Raul, Rui e Berta.” No balcão do café que geria nos Restauradores, a Leitaria Global, não se coibia de criticar o Estado Novo em alta voz, o que lhe deu amargos de boca. José Augusto foi preso pela PIDE, ainda Raul não sabia ler nem escrever. “Por sorte, a minha tia trabalhava na Cooperativa Militar, onde conhecia gente influente na polícia política. Mexeu os cordelinhos e o meu pai foi libertado dois dias depois.” No Liceu Machado de Castro, as influências subversivas do pai viriam ao de cima: “À saída das aulas, eu e os meus colegas gozávamos com os polícias. Só fazia aquilo pela coboiada. Nunca me interessei pela política”, afiança.
ENTRE VACAS E ELÉCTRICOS
Nos anos 30, a Praça D. Pedro IV não era atravessada por carros a cem à hora. Só havia engarrafamentos quando as manadas de vacas barravam os eléctricos com destino a Algés na paragem do Teatro Dona Maria. “Os donos levavam os animais até à porta da manteigaria Martins & Rebelo, ao lado da pastelaria Suíça. Nós esperávamos que os ordenhassem e comprávamos leite e manteiga fresquinha”, relata Raul.
Quando não havia distúrbios nem banhos de sangue, o Rossio era uma festa. No Carnaval, os carros alegóricos coloriam as ruas de serpentinas. Antes das brisas de Verão, a praça era pequena para os ajuntamentos dos santos populares. “Acabávamos o dia a comer pastéis de bacalhau, iscas e farturas nas barraquinhas.”
As memórias da infância teriam sido pintadas apenas em tons rosa se o pai não tivesse morrido quando ele tinha 12 anos, com problemas no fígado. Dona Rosa ficou a tomar conta da leitaria mas não tinha o mesmo olho para o negócio que o marido. “Os tempos eram de crise. Ela foi obrigada a vendê-la em 1941, o célebre ano de racionamentos.” Nessa altura, Raul já com 18 anos, era um dos sócios. “Ainda ganhei uma pipa de massa com o dinheiro do trespasse. Mas espatifei-o logo.” Perdeu a cabeça por uma potente Royal, a primeira das suas quatro motas. “Foram vinte contos muito bem dados. Adorava andar de cabelo ao vento.”
Se as bombas de duas rodas eram a sua paixão, as mulheres não ficavam atrás no ‘top’ de preferências. Aos fins-de-semana acelerava até à Ericeira, terra da família. Não que apreciasse as praias de água gélida. Mas, durante a II Guerra Mundial, a vila piscatória foi porto de abrigo de refugiados provenientes de França, Alemanha e Inglaterra. “Ia aos bares frequentados por belas estrangeiras. Eram mais divertidas do que as nossas”, segreda.
O filão acabou tão depressa como começou. “Num belo domingo cheguei ao baile do Clube Ericeirence e já não havia inglesas. Tinham sido repatriadas para os Estados Unidos.” Raul não se atrapalhou. Pediu uma gasosa ao balcão e trocou olhares galantes com Maria da Natividade, uma das mais bonitas raparigas da terra. Ao fim de uns minutos convidava-a para dançar e três anos depois para trocarem de alianças. “O namoro foi problemático. Ainda nos chateámos uma vez. Ele embeiçou-se por uma professora no Algarve”, recorda a idosa num tom de voz acusatório. “Acabou por voltar para os meus braços.”
O casamento foi celebrado na Igreja de São Domingos, no Rossio, em 1954. Raul tinha 27 anos e Natividade 24. “Vim viver para casa da família dele, a custo, pois gostava da paz da Ericeira.” Maria da Natividade ainda se recorda do valor da renda da casa de seis assoalhadas: 180 escudos. “Uma exorbitância”.
AO SERVIÇO DE SUA MAJESTADE
A vida de marialva de Raul da Silva terminou no dia em que jurou fidelidade eterna à mulher. As viagens de mota seriam trocadas pela escura oficina de um cunhado galego. “Embora não tivesse curso nenhum, descobri muito cedo ter sido talhado para o ofício de ourives”, reconhece. Ambicioso por natureza, não descansou enquanto não foi trabalhar para o balcão da ‘Ferreira Marques’, a mais prestigiada joalharia do Rossio (ainda hoje existe). “Uma só manhã bastou-me para convencer o dono a contratar-me”, diz sem falsa humildade. Como? “Havia pouca gente em Lisboa que distinguisse sem pestanejar uma safira de um topázio.” Bingo. Não foi a sorte grande, mas andou lá muito perto: “O salário era de 400 escudos por semana, quando a maioria dos portugueses nem 200 escudos ganhava. Não me podia queixar”, regozija-se.
A clientela pertencia à mais fina-flor alfacinha. Agustina-Bessa Luís perdia-se de amores por pulseiras, anéis ou pregadeiras. Amália Rodrigues chegou a comprar um colar de dez mil contos. “Um dia, ao chegar ao trabalho, dei de caras com um imponente Aston Martin estacionado à porta. A polícia tinha vedado o Rossio ao trânsito para poderem fazer as filmagens de James Bond”, recorda. Apesar de nunca ter visto tantas estrelas por metro quadrado não se intimidou. “Não descansei enquanto não dei uma palavrinha a algumas pessoas do ‘casting’.”
O filme era ‘007 – Ao Serviço de Sua Majestade’ e uma das cenas ia ser rodada no interior da ourivesaria. Ao agente secreto, personificado por George Lazenby, tinha-lhe sido destinada uma missão especial: oferecer uma pedra preciosa à ‘Bond Girl’, interpretada pela bela Diana Rigg. “Para minha surpresa, o realizador Peter Hunt veio ter consigo e pediu-me para ser eu a entregar-lhes um tabuleiro com as jóias. Fiquei nervoso. Nunca tinha actuado. Ainda por cima ao lado de duas grandes estrelas. Acho que me portei bem…”. As velas derretidas foram o único dano das filmagens: “O calor dos projectores foi tal que tivemos de comprar umas novas no dia seguinte.”
Quando assistiu à estreia do filme, em 1969, ficou um pouco desapontado. A sua cena fora parcialmente cortada. “Só aparecem as minhas mãos a oferecer as jóias.”. A produção compensou-lhe o esforço, enviando-lhe de Londres uma fotografia a preto e branco com os três intervenientes: George Lazenby, Diana Rigg e Raul da Silva, um dos poucos portugueses a entrar na saga James Bond.
ROMANCE D’OURO
As 24 horas do dia do casal eram passadas no Rossio. Depois de acordar, Maria Natividade vestia o avental, dedicava-se à lida da casa e mais tarde a mimar o filho único. Raul saía de manhãzinha, fato, gravata e pose formal, até ao balcão da ourivesaria. Ao fim de tarde, um hábito sagrado: beber imperiais no Paladium com os amigos ‘motards’. “Andava cada vez menos de mota. A minha mulher não gostava. Mas ouvia, fascinado, as aventuras de viagem dos meus companheiros de estrada.” Aos domingos, os dois engalanavam-se, iam às matinés dançantes do Chave d’Ouro, um café majestoso de quatro andares, rival, em ‘glamour’, do Nicola e da Brasileira. “Parecia um hotel. Tinha até elevador”, recorda Raul.
Os dois amantes trocavam juras de paixão eterna pela noite dentro ao ritmo dos êxitos de Frank Sinatra, Glenn Miller, ou Astor Piazzola, tocados pela orquestra Tavares Belo. Dançavam o tango com a mestria de bailarinos profissionais e só se descolavam quando soavam as palmas finais de agradecimento: “Nunca perdemos o romance durante tantos anos de casamento”, suspira Maria da Natividade.
A Chave d’Ouro desapareceu, transformando-se numa cinzenta agência bancária. A Brasileira é hoje uma megaloja, igual a tantas outras. Só resta o Café Nicola para recordar a época dourada de Lisboa. “O Rossio envelheceu, perdeu a alma. Esvaziou-se de cafés, de lojas tradicionais e de gente”, diz em tom triste Raul da Silva, olhando em redor para as fachadas dos prédios devolutos, ou transformados em bancos, escritórios e pensões anónimas. “Depois das oito, é um autêntico deserto. Não se vê vivalma.”
A essa hora estão no conforto do lar, de pijama vestido e pantufas calçadas. É preciso puxar pela memória para se recordarem da última vez que se arranjaram para uma noite de gala. “Fomos ver o musical ‘Amália’, no Teatro Politeama. Mas não é habitual sairmos depois de jantar. Há para aí tanta história de assaltos… É mais seguro ficar a ver televisão”.
OS ÚLTIMOS RESISTENTES
Sentados ao lado da estátua do poeta Bocage, os dois idosos desfiam o novelo de um passado tão cheio de glórias como a praça do Rossio. As mesas do Café Nicola vão ficando vazias, o tilintar dos talheres e os sussurros evaporam-se no ar. Só resta um grupo de turistas a tirar ‘polaroides’ aos pilares ‘art deco’. “Uma bica. Se faz favor”, pede Raul em tom jovial. O cafezinho é o único vício que lhe custa largar. “Cresci numa leitaria. Não vou parar assim de repente”, justifica o idoso do alto dos seus 82 anos. “Não devias beber isso. O que te disse o médico?”, ralha a mulher com ternura. “O problema dele é ser muito nervoso.”
Durante a semana de internamento no Hospital do Desterro, ela dormiu sozinha na cama de casal. A primeira vez em 53 anos de casamento. “Senti medo. Percebi como era desconfortável não ter vizinhos. E se me acontecesse alguma coisa?”, interroga-se. “Pelo menos nunca fomos assaltados, nem em casa nem na rua”, consola Raul, mas sem convicção.
O filho único, Jorge, vive na Ericeira. Desde que o pai se reformou, tem tentado convencê-los a mudarem-se definitivamente para fora da cidade. Apesar de passarem largas temporadas na vila piscatória, o casal continua a preferir o calor, a poluição, o barulho, o desconforto, a solidão do Rossio. É difícil perceber porquê. “Gostamos de viver aqui. A nossa casa está velhinha mas muito bem arranjada. Enquanto tivermos pernas saudáveis, Lisboa continuará a ser o nosso lar.”
Os últimos censos, realizados em 2001, registaram doze moradores no Rossio. Hoje, restam só eles os dois. Um dos últimos a despedir-se foi Eduardo, o anterior porteiro de dia do prédio. “Sentimos muito a falta dele. Éramos muito amigos.” Eles recordam-se também de Gil, o vizinho do andar de baixo, um artesão que cozia sandálias para os actores do Teatro Dona Maria. “Antes, era tudo tão animado. Agora limitamo-nos a viver o dia-a-dia”, afirma em voz pesarosa o homem mais velho do Rossio. “E quando morrermos? Isto acaba. Só ficam os turistas.”
A bica está tomada. O casal levanta-se da mesa, enfrentando turistas tostados do sol, pegajosos vendedores de ‘time sharing’, ciganas gordas e condutores apressados. Passeiam no meio da azáfama da praça, de olhar enternecido e mãos dadas, como se dançassem o último tango no Chave d’Ouro, antes de serem engolidos pela multidão.
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