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Os dramas de Bento XVI

A entrevista onde o Papa fala dos abusos sexuais, do preservativo e da crise está agora em livro
28 de Novembro de 2010 às 00:00
O livro, com mais de 200 páginas, contraria a imagem do papa obscurantista e retrógrado
O livro, com mais de 200 páginas, contraria a imagem do papa obscurantista e retrógrado FOTO: Matt Dunham, Reuters

Excertos do livro ‘Luz do Mundo – O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos’ [ed. Lucerna], que apresenta a entrevista de Peter Seewald ao Papa Bento XVI .

"(...) abateram-se sobre a Igreja Católica as nuvens mais negras. Como que de um abismo profundo, surgiram do passado inúmeros e inacreditáveis casos de abusos sexuais cometidos por padres e religiosos. (...) Qual é a dimensão desta crise? Trata-se mesmo, como tivemos oportunidade de ler, de uma das maiores crises na História da Igreja?

Sim, é uma grande crise, temos de admiti-lo. Foi perturbadora para todos nós. De súbito, tanta sujidade! Foi realmente quase como uma cratera vulcânica da qual tivesse sido expulsa de repente uma enorme nuvem de sujidade que tudo escureceu e conspurcou, de modo a que, de entre todas as coisas, o sacerdócio parecesse subitamente um local vergonhoso e que todos os padres ficassem sob a suspeita de o serem também. Muitos sacerdotes confessaram já não se atrever sequer a dar a mão a uma criança, quanto mais a organizar um campo de férias com crianças.

A coisa não foi completamente inesperada para mim. Já tivera de lidar com os casos americanos na Congregação para a Doutrina da Fé; e também assistira à escalada da situação na Irlanda. Mas, a uma escala tão grande, foi, mesmo assim, um choque inaudito. Desde a minha eleição para ocupar a Cátedra de Pedro, já me tinha encontrado várias vezes com vítimas de abusos sexuais.

Três anos e meio antes, em Outubro de 2006, tinha dirigido um discurso aos bispos da Irlanda no qual os exortei a trazerem a verdade à superfície, a fazerem tudo o que fosse preciso para que não se repetissem esses crimes monstruosos, para que se respeitassem os princípios do direito e da legalidade e, acima de tudo, para que se ajudasse as vítimas a sarar. [...]

Os casos de abusos no seio da Igreja são mais graves do que em qualquer outro lugar. Quem possui uma moral mais elevada também tem de satisfazer exigências maiores. Como Vossa Santidade dizia, já no início do século se sabia de uma série de casos de abusos nos Estados Unidos da América. Com a divulgação, pelo Relatório Ryan, da dimensão inaudita dos abusos sexuais também na Irlanda, a Igreja ficou, num outro país, perante um monte de cacos. Segundo o sacerdote irlandês Vincent Twomey, "serão precisas gerações para voltar a pôr tudo em ordem".

Na Irlanda, o problema coloca-se de uma forma muito específica. Trata-se, por assim dizer, de uma comunidade católica fechada, que permaneceu sempre fiel à sua crença apesar de séculos de repressão, tendo-se desenvolvido em torno de atitudes manifestas e determinadas. [...] Para um país que deu ao mundo tantos missionários, bem como tantos santos, que, na história missionária, esteve também presente no despontar da nossa fé na Alemanha, encontrar-se numa situação destas é muitíssimo perturbador e deprimente. [...] Tem razão: este é um pecado particularmente pesado, porque alguém que deveria, precisamente, ajudar a aproximar o Homem de Deus, e em quem uma criança, um jovem, confiam para que os ajude a encontrar o Senhor, em vez disso abusa deles e afasta-os do Senhor. [...]

Não é apenas o abuso que abala – é também a forma como se lida com ele. Os actos em si foram silenciados e encobertos durante décadas. É uma declaração de falência para uma instituição que usou o amor como bandeira.

Sobre isso, o arcebispo de Dublin contou-me algo muito interessante. Disse-me que, apesar de não estar completo, o Direito Penal Canónico funcionou até ao final dos anos 50 e, embora muito nele fosse criticável, mesmo assim foi aplicado. Mas, a partir da segunda metade dos anos 60, simplesmente deixou de ser aplicado. Reinava a consciência de que a Igreja não deveria ser uma Igreja de direito, mas uma Igreja de amor; e de que ela não poderia punir. Assim, foi apagada a consciência de que a punição pode ser um acto de amor. Nessa altura, assistiu-se ao obscurecimento do pensamento de muito boa gente. [...]

Que os jornais e a televisão relatem intensamente estes assuntos faz parte do serviço irrenunciável de esclarecimento. A parcialidade com um toque de ideologia e a agressividade de alguns meios de comunicação social assumiram neste caso, sem dúvida, a forma de uma guerra de propaganda, em que se sentiu a falta de qualquer moderação. O Papa deixou contudo ficar claro que "a maior perseguição à Igreja não vem de inimigos de fora, mas nasce do pecado da Igreja".

Não foi possível deixar de reparar que, subjacente a esse esclarecimento por parte da imprensa, estavam não só a vontade pura de obter a verdade, mas também uma alegria em comprometer e em desacreditar o mais possível a Igreja. Independentemente disso, tem porém de ficar sempre claro que, sendo verdade, devemos estar agradecidos por cada esclarecimento. [...] No entanto, nunca nos podemos furtar e recusar a ver, deixando que os perpetradores continuem a agir. Necessárias são, portanto, a vigilância da Igreja, a punição para quem falhou, e sobretudo a proibição de um possível acesso a crianças. [...]

A maioria destes incidentes ocorreu há décadas e, contudo, eles afectam de forma particular, agora, o seu pontificado. Pensou em abdicar?

Quando o perigo é grande, não podemos fugir. Não é, por isso, de certeza, o momento de abdicar. É precisamente num momento assim que temos de resistir e passar pela situação difícil. Esta é a minha opinião. Podemos abdicar num período tranquilo ou quando simplesmente já não podemos mais." [...]

O PRESERVATIVO

A sua visita a África, em Março de 2009, colocou mais uma vez a política do Vaticano em matéria de sida na mira dos meios de comunicação social. [...] Os críticos, provenientes também da Igreja, pelo contrário, dizem que é uma loucura proibir a utilização de preservativos a uma população ameaçada pela sida.

Em termos jornalísticos, a viagem a África foi totalmente ofuscada por uma única frase. Perguntaram-me por que é que, no domínio da sida, a Igreja Católica assume uma posição irrealista e sem efeito – uma pergunta que considerei realmente provocatória, porque ela faz mais do que todos os outros. [...] Essa foi a verdadeira resposta: a Igreja faz mais do que os outros porque não se limita a falar da tribuna que é o jornal, mas ajuda as irmãs e os irmãos no terreno. Não tinha, nesse contexto, dado a minha opinião em geral quanto à questão dos preservativos, mas apenas dito – e foi isso que provocou um grande escândalo – que não se pode resolver o problema com a distribuição de preservativos. É preciso fazer muito mais. [...]

Efectivamente, acontece que, onde quer que alguém queira obter preservativos, eles existem. Só que isso, por si só, não resolve o assunto. Tem de se fazer mais. [...] Pode haver casos pontuais, justificados, como por exemplo a utilização do preservativo por um prostituto, em que a utilização do preservativo possa ser um primeiro passo para a moralização, uma primeira parcela de responsabilidade para voltar a de-senvolver a consciência de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo o que se quer. Não é, contudo, a forma apropriada para controlar o mal causado pela infecção por HIV.

Quer isso dizer que, em princípio, a Igreja Católica não é contra a utilização de preservativos?

É evidente que ela não a considera uma solução verdadeira e moral. Num ou noutro caso, embora seja utilizado para diminuir o risco de contágio, o preservativo pode ser um primeiro passo na direcção de uma sexualidade vivida de outro modo, mais humana".

A CRISE

Quando se trata de bons exemplos, também o Estado se revela pouco exemplar. Hoje em dia, os Governos acumulam dívidas [...] Desde o despoletamento da crise financeira, as dívidas dos Estados subiram 45% em todo o mundo, tendo atingido entretanto mais de 50 biliões de dólares. [...] Só os Estados-membros da UE aplicaram em 2010 mais de 800 000 milhões de euros em novos créditos. [...] O certo é que as futuras gerações se encontram sobrecarregadas com dívidas gigantescas. Este não será também um problema moral desmesuradamente grande?

Naturalmente que sim, pois estamos a viver à custa das gerações vindouras. Até aí é fácil ver que estamos a viver na mentira. Vivemos inconscientemente na impostura e, neste contexto, as grandes dívidas são tratadas como algo que nos é inato. Também aqui todos partilham da teoria de que é necessária uma reflexão que permita identificar novamente o que é realmente possível, o que podemos fazer, o que devemos fazer. E, contudo, isso ainda não penetrou nos corações dos homens. Relativamente aos planos financeiros individuais, é indispensável um exame de consciência global". [...]

O ENTREVISTADOR DO PAPA BENTO XVI

Peter Seewald (n. 1954 ) foi jornalista da revista ‘Spiegel’ e da Stern e da revista do ‘Sddeutshe Zeitung’. Em 1993 começou a trabalhar como jornalista independente. Desde 2000 que é escritor.

Entre as suas obras destacam-se as entrevistas ao agora Papa: ‘Joseph Ratzinger. Salz derem Erde’, em 1996 (‘O Sal da Terra’, ed. Tenacitas, em 2005) e ‘Gott un die Welt’ (‘Deus e o Mundo’, ed. Tenacitas, em 2006); ‘Die Schule der Monche’, em 2001 (‘A Escola dos Monges’); ‘Bibliothek der Monche’, e os volumes iniciados em 2003 (‘Biblioteca de Monges’);‘Benedikt XVI, Ein Portrat aus der Nahe’ (‘Bento XVI Visto de Perto’, Lucerna 2007), entre outros.

O livro que a Lucerna agora publica em Portugal (na foto, a edição italiana) põe em causa a imagem retrógrada do papa, disse o vaticanista Sandro Magister. Este crítico de Ratzinger disse à AFP que o Papa manifesta agora "vontade de compreender o mundo".

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