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“Os estilhaços passaram sob o carro e atingiram-me”

Fui ferido no decorrer da Operação Nó Górdio, na qual participei de junho a agosto de 1970.
Vanessa Fidalgo 20 de Outubro de 2019 às 11:00
FOTO: Direitos Reservados

Fui mobilizado a 11 de novembro de 1969 e passei à disponibilidade a 30 de dezembro de 1971. Fiz parte do Batalhão de Caçadores Paraquedistas n.º 31, sediado na cidade da Beira. Assim que chegámos, partimos quase de imediato para a província de Cabo Delgado.

Havia sempre dois batalhões, tanto em Nacala como na cidade da Beira, que iam e vinham para a zona operacional, no norte. Quando o avião levava um batalhão, trazia outro de volta para o quartel. Mas mesmo no quartel também fazíamos muitas operações no mato.

Logo no dia 19 de dezembro de 1969, acabados de chegar ao teatro de guerra, tivemos o nosso batismo. Seguíamos numa picada em direção a Mocimboa do Rovuma quando rebentou uma mina que matou um alferes. Era uma mina do tipo ‘fornilho’ – assim chamávamos na época - que o inimigo fazia com vidros, metais, ferros, etc. Aquilo quando rebentava atirava tudo pelos ares. A prova é que fomos apanhar esse colega a uns 20 metros de distância do rebentamento.

Perdi vários companheiros ao longo da comissão. Um dos que melhor recordo era o Simeão, natural de Leiria, um rapaz porreiro, que até já era casado e que por lá ficou também numa emboscada.

Uma das coisas mais difíceis de suportar no mato era a sede. Fazia muito calor e, mesmo fazendo furos, não encontrávamos água. Com tanta sede nem sequer tínhamos vontade de comer. Andávamos fracos e tínhamos de evitar evacuações a todo o custo, porque a partir do momento em que o helicóptero viesse para evacuar um homem, denunciava a nossa posição e, a seguir, éramos atacados. Nós estávamos na zona dos macondes… ali tínhamos de lutar para nos defendermos, porque eles procuravam-nos mesmo para atacar.

Também fui ferido uma vez, no decorrer da Operação Nó Górdio, na qual participei de junho a agosto de 1970. Estávamos acampados e a dormir em abrigos subterrâneos, quando a meio da noite começa a chegar uma companhia de madeirenses. Depois começámos a ver morteiros no ar. Eu estava de plantão, a avisar os nossos camaradas do Exército junto à Berliet Tramagal quando um dos morteiros rebentou atrás dela. Os estilhaços passaram por baixo do carro e atingiram-me. Lembro-me de sentir primeiro o choque de ter sido atingido e depois pôr as mãos nas pernas e sentir sangue. Fui perdendo as forças e desmaiei. No dia seguinte, levaram-me de héli para Mueda, depois para Nampula e daí para o Hospital Miguel Bombarda de Lourenço Marques. Tiraram-me muitos estilhaços, mas outros ainda cá os tenho comigo.

Passei à disponibilidade em 1971, mas só regressei a Portugal após a independência, já em 1975. Fiquei a trabalhar em Moçambique. Quando cá cheguei, porém, depois das rebeliões de 25 de novembro, fui um dos militares que foram novamente convocados, pois tinha estado na guerra. Quando me bateram à porta, a minha mulher disse que eu não estava. E era verdade. Andava nas embarcações de pesca, no norte de Espanha. Passava cinco e seis meses seguidos no mar, longe dos meus filhos, que na altura eram pequeninos. Por isso, resolvi regressar à Força Aérea. Prometeram-nos muita coisa nessa altura: que iam promover-nos e aumentar-nos, mas nada disso aconteceu. Só 20 anos depois passaram muitos dos soldados e cabos convocados em 75 a furriéis. Apesar de ter entrado e saído várias vezes, fiz 42 anos de vida militar. Hoje continuo a tocar fado como dantes. Muitas vezes, quando toco, lembro-me da viola que levei para o mato, à volta da qual se reuniam os rapazes, naqueles pequenos momentos de alegria que algumas vezes antecederam, por dias, a sua morte.

Testemunho de:
Joaquim Rocha

Comissão
Moçambique 1969-1971

Força
Companhia Caçadores paraquedistas 31

* Info
72 anos, vive em Ourém

Cabo Delgado Batalhão de Caçadores Paraquedistas Beira Moçambique
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