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“Os EUA controlavam ao milímetro Soleimani”

Entrevista a Armando Marques Guedes, cientista político e ex-diplomata.
Fernanda Cachão 12 de Janeiro de 2020 às 13:00

A morte cirúrgica de Qasem Soleimani foi uma ação planeada, em sua opinião, em quanto tempo?
Foi com toda a certeza uma ação planeada. Já em 2003, num artigo no ‘New York Times’, a CIA tinha publicamente considerado Soleimani como "o mais perigoso operacional no Médio Oriente", isto dois anos depois do ataque de Osama Bin Laden nos EUA e no ano da intervenção dos norte-americanos no Iraque de Saddam Hussein. O general foi então classificado como o mais letal, mais do que estes dois, e também acima do Aiatola Khamenei. Desde 2003 que os EUA controlavam ao milímetro os movimentos de Soleimani.

Em dois momentos, um na administração de George W. Bush e outro na de Barack Obama, foi levantada ao mais alto nível a hipótese de o matar - para, por um lado, estancar a ‘agitprop’ e a mobilização dos xiitas que ele estava a levar a cabo no Médio Oriente; e, por outro lado, pelo facto de ele ser o cérebro da estratégia de Bashar al-Assad numa Síria a titubear.

Soleimani orquestrou com grande perícia a mobilização do exército pró-Assad, a mobilização das forças regulares do Exército Iraniano que começaram a entrar na Síria pelas fronteiras do Iraque e do Irão, da brigada ou força Al Quds, que já então liderava, e também da mais informal ‘proxy’ iraniana, que tem desde então atuado na Síria e no Iraque com grande eficácia e hoje em dia também no Líbano - o Hezbollah.

Mas porquê agora?
Os dois presidentes norte-americanos que tiveram oportunidade de atuar recusaram fazê-lo porque consideraram que poderia ser contraproducente, como julgo que o poderá ser mais ainda agora, dada a emergência e a tentativa agora gorada de contenção do programa nuclear de Teerão.

Em minha opinião, a decisão de Donald Trump tem a marca de água de tudo o que este presidente tem vindo a fazer. Primeiro, reagir instintivamente às imagens de um inimigo mortal para os EUA; Trump tende, para o efeito, a apontar o dedo a inimigos tradicionais dos americanos: nunca a Rússia, como é evidente, por razões que desconhecemos, mas a Venezuela, o Irão, a China, a Coreia do Norte ou os mexicanos.

A ‘invenção’ de um adversário capital é uma das marcas de água deste presidente, e Trump tinha indiciado o general Soleimani como o chefe militar iraniano e mobilizado em torno disso a base popular que, sobretudo nos estados do sul e do ‘corn belt’, o apoia quase incondicionalmente.

Por outro lado, Trump empreendeu um ataque numa altura em que apareceram novos indícios, nova documentação, que tornam evidente que ele, Trump, interferiu sistematicamente na entrega de armas ao presidente ucraniano Zelensky, caso este não denunciasse Joe e Hunter Biden - o primeiro dos quais geralmente visto como o democrata mais capaz de evitar uma sua reeleição.

Tem sido típico do presidente Trump, para além disso, distrair a atenção de uma questão que não interessa pondo outra, ainda que imaginária, em cima da mesa. Uma outra marca de água de Trump tem sido a vontade expressa de acabar com a presença militar norte-americana nas parcelas do Grande Médio Oriente que se lhe opõem. O que ele acha, na ignorância que o caracteriza, ser fazível ao liquidar o maior agitador das águas naquelas paragens: os iranianos e, por consequência, o general deles, Soleimani.

Por outro lado, Trump tem feito ponto de honra em cumprir as promessas eleitorais que fez durante a sua campanha: atacar a China, o Irão, resolver o problema da Coreia do Norte, o da Venezuela. Coisas que tem tentado sem nenhuma eficácia, mas que o presidente norte-americano reivindica como sucessos.

Trump tem a tendência de resolver as questões mais sensíveis não por via diplomática mas pelo uso da força, ou na ameaça disso; no que é apoiado por Mike Pompeo, como o foi por John Bolton e pelos outros ‘falcões’ que insiste em ter à sua volta. Trump acha que grupos de ativistas só funcionam se e quando tiverem líderes fortes, e como corolário toma por líquido que liquidando esse líder se erradica o problema.  

Soleimani é uma figura facilmente substituível?

Muito dificilmente. No Médio Oriente, a eficácia das ações depende amplamente das relações pessoais estabelecidas. Soleimani foi sempre muito próximo de Khamenei e dos outros aiatolas; foi sempre visto como o segundo homem mais importante do Irão; o relacionamento dele com o governo xiita iraquiano, ao contrário do de Saddam Hussein, sunita, era também muito próximo; no caso de Bashar al-Assad, na Síria, a relação entre ambos sempre foi fortíssima.

Neste último caso, a presença iraniana foi pesada: houve uma altura em que estavam, em simultâneo, seis oficiais generais iranianos na Síria. Era de Soleimani que dependia a eficácia da ligação entre o Irão e al-Assad. No entanto, Soleimani tomou sempre uma posição firme contra o Daesh por este ser sunita e por aquilo que ele queria divergir do que Teerão pretendia: aquilo que o Irão e os aiatolas querem é a criação de uma ponte ‘terrestre’ que ligue o Irão aos mares quentes do Mediterrâneo - uma ponte que passa do Irão para o sul do Iraque, de maioria e governo xiita, para a Síria, de maioria sunita, mas com um al-Assad xiita, e depois para o Líbano, que é um ‘pupett state’ tributário da Síria.

A presença naval iraniana no Mediterrâneo é uma realidade desde 2013/14. O percurso desta ponte territorial é complicadíssimo. Tal só é possível para alguém como Soleimani, que conheça os líderes desses países e saiba com que linhas se cosem as alianças.

Suponho que quem hoje o substitui, que era o seu número dois, vá tentar o mesmo; mas não tem o charme, o carisma, nem a intimidade que tinha Soleimani com os agentes em causa. O que põe em risco este desígnio do Irão.

A morte de Soleimani foi um ‘tiro no porta-aviões’ mas levanta uma série de questões complicadas para a política externa dos EUA
Extraordinariamente complicadas. Uma das coisas que prevejo é que Teerão vá estar muito menos preocupado com a convergência que tem tido com os EUA no que diz respeito à contenção do Daesh, que está a renascer. O Irão tem agora um inimigo muito mais perigoso que são os EUA, numa adversariedade em que o Daesh convergirá.

Acresce alguma precipitação: por muito que Trump tenha dito que ia retirar tropas da região (o que fez retirando 150 homens da Síria), o facto é que este último fim de semana foram 1500 americanos deslocados para lá em B52, que se juntam aos 10 mil soldados norte-americanos estacionados no Iraque, aos 7 mil na Arábia Saudita, à dezena de milhar no Iraque e aos milhares distribuídos pela vintena de bases americanas estabelecidas em redor do Irão.

A contenção dos iranianos continua a ser fácil mas tornou-se mais aguerrida porque vai haver maior confrontação, parte da qual assimétrica e distribuída por várias zonas do Médio Oriente e do Mundo.

Como antecipa o xadrez geopolítico?
Como complicadíssimo. No Grande Médio Oriente há duas enormes potências muito ativas, o Irão e a Turquia, num cenário em que o Iraque e a Síria já não o são, e o Egito ainda o é, mas arredado e a Arábia Saudita está a começar a ser a nível económico, político e militar.

Como referi, é intenção iraniana dividir os sunitas e criar uma ponte até ao Mediterrâneo; enquanto o aparente desígnio turco é o de recriar uma espécie de Império Otomano virtual em toda esta região, até ao Egito, passado pela Arábia Saudita, Síria, Iraque, chegando à fronteira com o Irão.

Curioso é que o maior parceiro comercial da Turquia sunita é o Irão xiita e o maior parceiro comercial do Irão é a Turquia. É raríssimo inimigos serem os maiores parceiros comerciais. É bastante tenso o relacionamento de Teerão com a Turquia como o é a relação do Irão com Moscovo - que no domínio do nuclear se lhe opõe e no domínio do armamento tem preferido apoiar a Turquia.

O xadrez geopolítico é imprevisível, mas é de prever que o Irão vá atuar em várias áreas ao mesmo tempo, com ritmos diferentes e de maneiras diferentes, atingindo alvos de natureza militar e política na Arábia Saudita, Israel, Iraque, Síria, Líbano - de certo fá-lo-á cirurgicamente e sempre de forma assimétrica pois tem muito menos força cinética do que os EUA.

Foram já identificadas células adormecidas residentes nos EUA, passíveis de fazerem ataques no país. Mais uma vez, Trump utilizou imagens simbólicas evocativas da supremacia americana quando disse que vai atacar 52 alvos que representam os 52 diplomatas e cidadãos norte-americanos que em 1979 foram retidos na embaixada em Teerão.

Julgo ter havido um erro estratégico de Trump, embora taticamente existam vantagens, pois logrou decapitar a capacidade iraniana de causar uma tão consistente turbulência no Grande Médio Oriente. Parece-me que esta ação precipitada ampliou a capacidade iraniana de reagir, pois já pôde romper os acordos de 2015 e as centrifugadoras recomeçarão a trabalhar na purificação de urânio e plutónio.

Erros estratégicos destes pagam-se caro. Temo que os EUA comecem a distinguir ataques a alvos norte-americanos e a alvos NATO, o que porá em dúvida a aplicabilidade do artigo 5º do Tratado de Washington. Talvez pior: desde 1967, a Rússia não tinha um pé no Médio Oriente e, sistematicamente, Trump tem aberto à Rússia a possibilidade de interferir fortemente na região.

Este tipo de situações podem descambar numa guerra. Que tipo de guerra poderá ser esta?
Não me parece que seja mais do que uma guerra regional, altamente improvável será a terceira guerra mundial, como já se disse.

Em todo o caso, será uma guerra contida e com alvos específicos mas assimétrica e holística: assimétrica no sentido em que a parte mais fraca, o Irão, vai atacar pontos mais fracos dos americanos e das alianças americanas; holística no sentido em que se vão usar ataques militares, propaganda, ataques terroristas e ataques a populações, o que vai causar a deslocação de pessoas, provocando uma nova onda de refugiados.

Temo que venhamos a assistir a uma série de pequenas guerras, algumas delas ‘proxy wars’ (guerras ‘por procuração’). Temo ver a situação aquecer no Iémen, a par com uma tentativa do Irão de reforçar o posicionamento que já tem com algumas fações taliban dentro do Afeganistão.

E vamos ver os EUA numa posição cada vez mais periclitante naquelas areias movediças de onde Trump disse que queria sair.

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