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"Os guerrilheiros eram donos e senhores"

Um soldado disparou por nervosismo e seguiu-se o tiroteio. Éramos os alvos do descontrolo dos soldados, que disparavam sem nexo.
6 de Maio de 2014 às 19:06
António Carapito e outros soldados da Companhia de Caçadores 206 durante uma operação militar
António Carapito e outros soldados da Companhia de Caçadores 206 durante uma operação militar FOTO: D.R.

Sou transmontano de Murça, mas a minha família, mãe e dois irmãos, foi para Angola em 1957, para se reunir ao meu pai que tinha deixado a nossa aldeia em 1955 em busca de uma vida melhor. Vivemos em Angola até à declaração de independência em 1975, quando regressámos definitivamente.

Fui incorporado em 1969, mas pedi adiamento para terminar o 2º ano do Instituto Industrial de Nova Lisboa (hoje Huambo), o que me possibilitava fazer a tropa como oficial. Iniciei o serviço militar em 2 de agosto de 1970. Fui graduado em alferes e tomei o comboio para ser colocado na Companhia de Caçadores 206/72, na Vila de Nova Chaves, hoje Muconda. Aí conheci um alferes, tipo baixo, louro e de óculos que me contou algumas peripécias da guerra. Pela sua brutalidade, ficou-me na memória apenas um episódio: o pelotão dele intercetou, em plena zona operacional, uma família negra que se deslocava numa bicicleta, constituída por um menor, pai e mãe. Os soldados em autogestão, sem qualquer interferência dele (tanto quanto recordo...), fizeram um breve interrogatório ao homem e fuzilaram de seguida a família inteira, incluindo a criança.

Cheguei ao princípio da tarde. Fui apresentar-me ao capitão, que marcou um briefing para o final do dia. Chamei o barbeiro, fiz um corte à Cherokee, fiz-me fotografar e de seguida cortei tudo à máquina zero. Seria a minha imagem de marca durante os 14 meses no Leste de Angola.

IMAGEM DE MARCA

O capitão queria que eu fosse fazer uma operação militar de busca e destruição de um aguerrido grupo do MPLA na zona do rio Lufige. Saímos dia 1 de março em direção ao Samugimo, com o meu grupo de combate reforçado pelo GE 318 - grupo especial formado por nativos da região, comandado pelo chefe de grupo Levu Uemba, um dos mais extraordinários guerrilheiros que conheci. O guia pegou o rasto e seguiu-o como um perdigueiro. Os guerrilheiros eram donos e senhores da área e as preocupações de segurança não eram nenhumas. No dia 3, fomos dar a um local onde o grupo guerrilheiro tinha morto uma palanca, antílope de grande porte, cuja carne estava a secar ao sol. Daí, o rasto voltava para o rio Lufige. Ao fim da tarde atravessámos o rio e percebemos que estávamos próximos da base. Ao escurecer, ouvíamos já as vozes das pessoas. Combinei com o Levu e com os furriéis do meu grupo atacar de madrugada. Mal acordei, fui chamado pelo Levu, que tinha detetado o grupo inimigo a atravessar o rio Lufige.

Resolvemos atacar, já que tínhamos a certeza de que voltariam por aquele trilho. De repente, em surdina, instalou-se um grande burburinho e percebi um guerrilheiro do MPLA na zona de morte. O homem já tinha detetado a nossa presença, olhou desconfiado na nossa direção, tirou a arma do ombro e desatou a correr em sentido oposto. A intensa fuzilaria que se seguiu, com muitos soldados a disparar sem ver qualquer alvo, foi muito difícil de controlar, mas o elemento inimigo tinha caído no meio do capim. Alguém, dos homens que permaneceram emboscados, suponho que um soldado negro do meu grupo, disparou nesse momento um tiro, julgo que por nervosismo incontrolado. Generalizou-se nova e intensa fuzilaria, mas desta vez na nossa direção. Éramos nós os alvos do descontrolo dos soldados e dos GE. Um soldado foi atingido num calcanhar e caiu. Atirámo-nos para o chão, esperando o fim do tiroteio. Por milagre mais nenhum de nós foi atingido.

ANTÓNIO CARAPITO

Comissão

Angola, 1970/72

Força

Companhia de Caçadores 206/72

Atualidade

Reformado, viúvo, dois filhos e dois netos

 

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