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Os guetos de betão do realojamento

Aos olhos graduados de Cármen, a descrição do cenário cabe numa jarra. 'A chegada aqui foi como ir apanhar umas rosas muito bonitas. Deitam aquela fragrância, depois perdem o cheiro...' Há pouco mais de uma semana, o olfacto sentiu o esturro no bairro da Quinta da fonte, em Loures. Confrontos com armas de fogo. Detenções. Rixa entre dois grupos, que provocou nove feridos e danos materiais. 'Temos passado o diabo com os distúrbios', garante Cármen Dinis, que engrossou a primeira leva de realojados. Há 11 anos disse adeus à barraca de Moscavide.
20 de Julho de 2008 às 00:00
Manuel e a mulher Helena, com as netas, prontas para um casamento cigano na Bela Vista
Manuel e a mulher Helena, com as netas, prontas para um casamento cigano na Bela Vista FOTO: Sérgio Lemos

A genica das pernas, a dentição intacta, a lucidez do discurso, desmentem os seus 88 anos. O elixir da conservação deu-lhe ‘água pela barba’: 'Trabalho.' Cármen dirige um pedido à visão dos visitantes. Que as órbitas não se passeiem pelo r/c do número 12 da Rua Ary dos Santos. 'É uma casa de pobre', anuncia sem pingo de lirismo, apontando os tectos e paredes enganados pela humidade dentro da habitação.

No dia em que o conflito voltou a sair às ruas do bairro regressava do Tojal, acabada de visitar uma das três filhas. A deslocação impõe-se. Telemóveis não são com a octogenária. 'Ainda era degolada por causa da porcaria de um telefone!', atira. Na Quinta da fonte, onde 90% dos moradores têm como bóia o Rendimento Social de Inserção, a população cresceu com os anos, mas as contas entre o deve e o haver no bairro são quase todas de subtracção. 'Havia uma peixaria, fechou um dos dois talhos, já só há dois dos três cafés.' Os serviços minguaram à medida que subiu a parada de problemas.

José Gabriel Pereira Bastos, antropólogo, coordenador científico do Centro de Estudos da Migração e Minorias Étnicas da Universidade Nova de Lisboa, muito crítico deste processo de ‘guetização’, aponta os dedos todos da mão ao racismo, xenofobia e interesses, bem melhor instalados que qualquer um dos realojados. 'Por um custo muito baixo encaixota-se as pessoas, parecendo que se elimina a miséria dos bairros de lata.' Madrid, bandeira da solidariedade imigrante, segundo o especialista, dá o exemplo de que 'o que parece utopia não o é'. 'Já se decidiu não construir mais bairros sociais. As autoridades para o realojamento compram os apartamentos. Não mandam lá negros, nem ciganos, para acabar com a recusa e o racismo. E disseminam-nos pela malha urbana.'

Na Quinta da fonte, o medo de sair à rua molha as palavras de Cármen mas não lhe afoga a língua. 'Já me roubaram a mala três vezes. Tenho medo... mas não tenho remédio senão andar na rua. Limito-me ao ‘dá licença’ e ‘obrigada’. Quem dá liberdade quer conversa.'

Já Chelas, que sempre foi um colorido albafeto de zonas, dialoga com muitas letras. A fama do bairro, na parte oriental de Lisboa, estacionou na consoante J. O toldo do estabelecimento de Luís Pereira, de 41 anos, demora-se antes num par de palavras: ‘Dois Unidos.’ O nome peca por defeito. São três, quatro, cinco. Muitos. Tantos. Novos e velhos. Brancos, negros, ciganos. O café e restaurante sempre deu bola a todas as raças e credos, não fosse o responsável antigo amigo íntimo dos relvados. 'Está a falar com um grande jogador!'

Luís arrumou as chuteiras mas as lembranças dos encontros de futebol ao serviço do seu Sporting estão sempre fora do armário. Fez fintas e dribles ao lado de Paulo Futre ou Fernando Mendes. Integrou a selecção de esperanças. Depois os ‘leões’ rugiram a sentença do seu empréstimo. Louletano, Paredes, Bragança, União da Madeira, Açores. Até há oito anos, foi saltimbanco das quatro linhas. 'É um vício. Custou muito deixar de jogar...' Já do bairro não custa falar. 'Houve uma fase problemática no início, coisas provocadas por outros bairros, mas o nosso não é aquilo que se fala. Vim para aqui por causa do meu falecido pai. Fomos dos primeiros. Era só mato.'

O pessoal é 'agarrado ao bairro', no melhor dos sentidos, jura o amigo Carlos Kassimo, de 52 anos, que põe os pontos nos is nos tempos verbais. O presente virou imperfeito mas só na oração. 'O bairro não tem problemas, ‘tinha’. Há é muitas pessoas sem casa... e muitas casas fechadas.' Nos copos, ao balcão, verte-se ‘mistura branca’. Vinho branco e gasosa dão alento às conversas. 'Não se esqueça de escrever aí: faltam coisas para os miúdos se entreterem!' Está escrito. Como escrito há muito que está que o ócio é o pai de todos os males.

'Chelas é dos problemas mais delicados que temos mas tem vindo a melhorar. As pessoas têm vindo a enraizar- -se', distingue Jorge Gaspar. O especialista em Geografia Humana e Planeamento faz um balanço positivo da generalidade dos processos de realojamento e do convívio intercultural. 'O realojamento na área de Lisboa, nos últimos 20 anos, tem seguido as melhores teorias sociológicas. A qualidade da habitação é excelente. A componente urbanística de inserção na sociedade é que é má. É tudo feito por acrescento, sem um enquadramento de construção de cidade.' Ricardo Martinez, sociólogo, tem opinião dissonante. 'Sou contra estes bairros. Estes realojamentos não ocorreram depois de um trabalho com as populações. Os próprios critérios de repartimento das pessoas estão ultrapassados. Estes depósitos foram crescendo e as pessoas tiveram a noção da descaracterização das zonas, com projectos inacabados.' O docente da Escola Superior de Educação de Setúbal, que conhece bem a realidade de um outro bairro problemático, a Bela Vista, salienta a ausência de acompanhamento das famílias ou a interligação entre as instituições e associações. 'Contra todo o discurso oficial, não há um trabalho em rede.'

Neste bairro de Setúbal a rua é a lei. Vê-se. Ainda que o peso do luto cigano não deixe que a máquina ensaie sequer ao de leve a focagem. A foto que fica por tirar traja de preto. Usa chapéu. Vê com olhos azuis-celestes. Cofia barbas quase tão longas como a dor e a saudade. José não dá a cara mas oferece de bom grado a lista de excesso e lacunas na zona. Vandalismo, tráfico de droga, assaltos e degradação a mais. Baloiços para as crianças, posto médico, caixotes do lixo, um lar e um mercado para os comerciantes. Tudo a menos.

'Nascidos e criados' em Setúbal, Manuel Silva, de 59 anos – ou o ‘Silva das Calças’ –, vendedor ambulante, residente na zona amarela do bairro há mais de duas décadas, recorda os tempos em que o negócio corria de vento em popa. As feiras não tinham segredos para 'o cigano mais conhecido de Portugal!', garante. 'Ninguém nos travava. Isto aqui é uma miséria. O bairro está relaxado.' A mulher, Helena, de 56 anos, suspira: 'Se houvesse uma pracinha para vendermos de 15 em 15 dias...'

Seis filhos; 23 netos; oito bisnetos. O número consegue ficar aquém das presenças em matrimónios, motivo de orgulho e prestígio. 'Eu caso as ciganas em Portugal. Vou a muitos casamentos. Daqui a pouco há um.' As netas do casal apressam-se para mais uma união num bairro onde o colorido é jurisdição exclusiva das indumentárias.

Era conhecido por ‘supermercado da droga’ ou ‘Tarrafal’. Em toda a cidade, o bairro era sinónimo de crime e marginalidade. O estigma foi crescendo ao longo de décadas e a Câmara do Porto decidiu cortar o mal pela raiz. O bairro S. João de Deus, na zona oriental da cidade, foi ficando despido de betão com a demolição gradual dos seus blocos. Um problema resolvido deu origem a um por resolver: realojar as famílias que ficaram sem casa. Em tempos chegou a ter cinco mil habitantes.

O Lagarteiro e o Cerco, nas imediações do ‘Tarrafal’, foram dois dos locais escolhidos para acolher as famílias que acabavam de ver as suas casas arrasadas. 'Para aqui só vieram ciganos. Estão a ocupar isto tudo. Mandaram um bairro abaixo para estragar dois', queixa-se um morador do Lagarteiro.

Quem sabe bem o poder do estereótipo aos ex-moradores do S. João de Deus é Isabel Ferreira. Aos 32 anos e com quatro filhos, vive há 12 no Lagarteiro. 'No início as pessoas olhavam de lado e sei que falavam de mim nas costas. Vinha do ‘Tarrafal’ e começaram logo a associar- -me a desordens. Hoje são minhas amigas e contam-me que não gostavam de mim quando para aqui vim.' Ali sente que o bairro é 'mais fechado' aos que vêm consumir droga e o espírito de vizinhança é um facto. Cristiano chegou ao bairro bebé e agora, com 14 anos, não desmente a mãe. 'Posso brincar e andar de bicicleta. É melhor que o S. João de Deus.'

O cenário muda mas os relatos não. Também ao bairro do Cerco chegaram inúmeras famílias do S. João de Deus e o realojamento das famílias ciganas não agradou a todos. A família Calhaço mudou-se há sete meses para o bairro. Estão melhor que no S. João de Deus? 'Sem dúvida', dispara Luís Calhaço, rodeado dos três filhos e da esposa Alexandrina. 'Viemos porque a minha sogra conseguiu uma casa. Há oito anos que ando a pedir à Câmara uma habitação para a minha família e não tenho resposta', afirmou Luís. Vivem do rendimento mínimo: 'Nem carro tenho para ir vender às feiras. '

PASSADO, PRESENTE E FUTURO DA HABITAÇÃO SOCIAL

Em 1918 foi institucionalizada a habitação promovida pelo Estado mas até à década de 30 não saíram do papel projectos de bairros como o do Arco do Cego ou Ajuda/ /Boa-Hora. O Estado Novo promoveu a construção de ‘bairros de casas económicas’. Em 1926, a CM de Lisboa iniciou o ‘estudo de bairros operários’, que dois anos depois se reflectiu no projecto dos Novos Bairros. O bairro do Alvito, primeiro a ser erguido, foi piloto neste empreendimento, que viria a estender-se até ao final da década de 60. Apareceram bairros como a Encarnação, bairro de Santa Cruz ou bairro da Madre de Deus. Após o 25 de Abril, a cidade transbordou além dos seus limites, surgindo grandes complexos urbanos na Amadora e Almada, aqui facilitados pela existência da Ponte 25 de Abril. Em Maio deste ano anunciou-se o fim dos bairros sociais. Em vez de mandar construir mais fogos para as 40 mil famílias que têm necessidade imediata de habitação, o Estado deverá dinamizar o mercado de arrendamento e ser ele próprio a adquirir ou arrendar imóveis, para constituir uma bolsa de fogos. Esta é uma das propostas incluídas no Plano Estratégico da Habitação (PEH), que atribui às câmaras municipais um papel preponderante.

DADOS DO REALOJAMENTO

O Programa Especial de Realojamento (PER) apareceu em 1993, prometendo erradicar as barracas. Quinze anos volvidos ainda há famílias por realojar nas grandes cidades. Segundo a GEBALIS, empresa que gere os bairros municipais de Lisboa, a cidade tem 67 bairros sociais, com cerca de 25 mil casas, onde habitam 87 mil pessoas. É na freguesia de Marvila que se localiza o maior número de bairros sociais (dez). Os mais populosos são o do Padre Cruz (8793 habitantes) e do Condado – Zona J, em Marvila (6869 pessoas). O Bairro do Presidente Carmona, na freguesia do Alto do Pina, é o mais antigo da capital, tendo sido edificado em 1927. O bairro mais recente é o da Alta de Lisboa Centro, criado em 2007 e que se situa entre as freguesias da Charneca e Lumiar, com 62 049 habitantes. No Porto, 42 575 pessoas distribuem-se por 49 bairros sociais. Destacam-se os das freguesias de Paranhos e Campanhã, os bairros de Lordelo do Ouro, a área do centro histórico e da Baixa e a zona industrial da cidade, que inclui Aldoar e a freguesia de Ramalde.

BAIRRO DA BELA VISTA

Os primeiros realojamentos realizaram-se em 1980 e contemplaram residentes em barracas e refugiados das ex-colónias. Segundo dados da Câmara de Setúbal, contam-se 265 fogos em propriedade privada e 572 arrendados. O assassínio do jovem cabo-verdiano Tony, em Junho de 2002, é um dos episódios negros.

QUINTA DA FONTE 

São 786 fogos de habitação, onde foram realojadas 480 famílias em 1996, mais 350 do que as inicialmente previstas. A população é maioritariamente jovem – cerca de 50% dos mais de 2500 habitantes têm menos de 15 anos. Os realojamentos no concelho de Loures, que deveriam estar concluídos em 2005, deverão estender-se até 2009. Prevê-se realojar, até à data mencionada, cerca de 1300 famílias ainda à espera de habitação.

BAIRRO DE CHELAS 

Bairro da freguesia de Marvila, em Lisboa, o segundo mais populoso da capital, é composto por zonas, como a I, M, N ou J, uma das mais conhecidas e que deu origem ao filme homónimo. Situado na parte oriental da cidade, o bairro desta zona foi desenhado pelo arquitecto Tomás Taveira e concebido de origem para ser pintado com as cores invulgares visíveis na foto acima. Apesar de ser marcada por incidentes e de viver ainda sob o estigma de bairro problemático, os moradores acreditam que os ânimos têm vindo a amainar.

BAIRRO DO LAGARTEIRO 

Em Setembro de 2004, um conjunto de moradores enfurecidos por falta de casa decidiu ocupar várias habitações devolutas do bair-ro. A carga policial foi grande. Inaugurado em 1973, o bairro foi ampliado em 1977, passando de 248 para as actuais 446 habitações. O projecto governamental de requalificação Bairros Críticos, que deverá estender-se até 2012, abrange o Lagarteiro, a Cova da Moura e o Vale da Amoreira, a sul.

BAIRRO DO CERCO 

Um tiroteio em Maio deste ano alarmou o bairro portuense. Dez homens entraram no Bloco 2 de pistolas em punho e os alvos eram Pedro, conhecido pela alcunha de ‘Pitbull’, e a namorada, Elizabete. Os suspeitos dispararam para as pernas e fugiram, depois de terem começado por ameaças de tiros no peito. O Cerco, que em 1991 cresceu em mais 88 fogos, tem 3069 habitantes.

 

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