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“Os jipes caíam nas valas feitas na estrada”

A incerteza do que encontrávamos no caminho era complicada. Uma vez fomos metralhados e entrei em pânico. Nesse dia tivemos uma baixa
19 de Junho de 2011 às 00:00
A progressão dos militares na serra da Canda era perigosa e obrigava ao corte árvores de grande porte
A progressão dos militares na serra da Canda era perigosa e obrigava ao corte árvores de grande porte FOTO: Direitos reservados

Entrei na recruta em 1960, em Cabo Verde, porque estava lá a viver. Viajei para Portugal, para tirar a especialidade em Mafra, integrado num dos primeiros grupos de militares cabo-verdianos que foi mobilizado para o Ultramar. Connosco veio o Silvino Luz – que viria a ficar para a história por ser o primeiro militar português a desertar do Exército e, mais tarde, acabou nomeado Ministro dos Negócios Estrangeiros de Cabo Verde.

A 15 de Junho de 1961 embarquei no navio ‘Moçambique’, com destino a Luanda, Angola. Fui incorporado pelo Regimento de Infantaria 7, de Leiria, e como furriel miliciano comandava a segunda secção de reconhecimento, a que avançava à frente das tropas para verificar o terreno e recolher informações.

Quando chegámos a Luanda fomos instalados num liceu feminino desactivado e transformado em quartel, onde ficavam os militares em trânsito para as várias regiões de Angola.

O nosso batalhão foi um dos primeiros a ser enviado para Angola. Estivemos por ali uns 10 dias, fizemos umas operações para nos ambientarmos à realidade africana, que 90 por cento das pessoas desconheciam. E as coisas só começaram a complicar-se quando iniciámos a viajem para o Norte, com destino a Damba. À medida que íamos evoluindo, íamos fazendo operações. Logo no primeiro dia tivemos uma baixa, o que é sempre trágico, quando ainda estávamos a caminho.

Embora naquele tempo os movimentos de libertação ainda não estivessem muito adiantados no campo operacional, apanhavam-nos de surpresa porque tinham valas na estrada, os jipes caíam e eles faziam emboscadas. Esta incerteza do que encontrávamos no caminho era complicada no princípio, mas passou à medida que fomos ganhando experiência.

MÁQUINA INVENTADA

Em Agosto de 1961 senti realmente medo, quando participámos numa operação na serra da Canda. O terreno era acidentado e despovoado e havia o perigo de sermos emboscados a qualquer momento. Foi o que aconteceu quando caímos com o jipe numa vala e fomos metralhados. Nesse dia tivemos uma baixa. Embora tivesse ficado em pânico, acabei por ter de me controlar.

Quando chegámos a Damba, começou a nossa guerra humana: a vivência com as populações locais. Tínhamos cinco médicos no batalhão, dávamos assistência médica, promovíamos semanas culturais, com cinema, teatro e exposições.

A partir de 62, o nosso batalhão passou a ser de apoio às populações, tanto médico, como logístico – com a construção de habitações e de pontes. A tal ponto que uma vez ficámos retidos no mato por causa da avaria de um jipe, esgotámos a ração de combate e, para nossa surpresa, apareceu um grupo de homens e mulheres a levar-nos água e bananas. Eles viram a nossa aflição e foram levar-nos alimentos.

Uma das histórias que recordo com alegria foi quando eu e o Nóbrega inventámos e construímos uma máquina de fazer café, baptizada por ‘Mendelino’. A câmara de combustão estava preparada para receber carvão de pedra, lenha, petróleo, gás e até bosta de elefante e caganitas de rato. Infelizmente, a máquina entrou em falência técnica antes do tempo.

Fomos desmobilizados em Abril de 1963. A experiência só não foi tão traumática porque a nossa convivência com as populações foi muito boa. Tínhamos um comandante (tenente-coronel Pereira de Carvalho) que era muito humano. Agora, estamos a tratar da geminação da vila da Damba com a cidade de Queluz.

PERFIL

Nome: Artur Manuel Mendes

Comissão: Angola (1961/63)

Força: Exército, BC141

Actualidade: Reformado. Vive em Massamá, Queluz, tem dois filhos e quatro netos

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