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'OS LIVROS SÃO OS MEUS MARIDOS'

A autora de Amor, Curiosidade, Prozac e Dúvidas esteve em Portugal para promover a sua última obra, O Visível e o Invisível, e confessou que o amor não existe apenas entre homens e mulheres...
5 de Julho de 2002 às 20:15
'OS LIVROS SÃO OS MEUS MARIDOS'
'OS LIVROS SÃO OS MEUS MARIDOS' FOTO: Jordi Burch
Em O Visível e o Invísivel – sobre o amor e outras mentiras, como define a relação entre Ruth e Juan?
É uma relação baseada unicamente em trocas. O Juan tem uma noiva, mas procura na Ruth aquilo que não tem, ou seja, a posição social, o apoio da crítica e da sociedade. Ele quer ser escritor e ela é uma mulher mais velha e bem relacionada com vários meios. Não é uma relação de amor e por isso o subtítulo é sobre o amor e outras mentiras.

O amor é uma mentira?
Não, mas a sociedade tem um conceito de amor muito perigoso em que se diz que este conduz à posição social, à angústia, à dependência e ao sofrimento quando, muitas vezes, o verdadeiro amor não é necessariamente nada disto.
A concepção está totalmente errada! Quando se fala de amor é sempre entre um homem e uma mulher ou quando muito, entre um casal homossexual. De uma forma geral, não se fala de amor entre pai e filho, irmãos, amor aos animais... ou seja, excluímos todas as manifestações de amor como se, entre um casal fosse a única coisa importante e todas as outras secundárias.

E para si, o que é o amor?
É uma energia entre duas pessoas próximas. E que faz com que simultaneamente estejamos felizes e consigamos proporcionar ou procurar a felicidade para quem nos acompanha.

Por que é que nas suas obras, de uma forma mais ou menos explícita, fala sempre de comida e de sexo?
Não sei se poderemos encarar as coisas assim de uma forma tão linear. No entanto, o sexo faz parte da vida e não conheço ninguém que não goste.
Falo muito de comida porque gosto da comida, de cozinhar. Se calhar há uma relação entre a comida e entre o sexo.

No seu site diz, na brincadeira, que foi raptada em Marrocos, viveu num harém e que aprendeu técnicas sexuais na sala Oval...
(risos) Em Espanha, há uma grande disputa e orgulho para saber de que região vem o escritor: Se é de Valência, de Madrid, de Valladollid, de Barcelona, de Sevilha... é uma espécie de honra, os habitantes de cada cidade dizerem: “Ela é daqui”. Sou espanhola e a minha origem é uma mistura de culturas e tradições. O meu pai é basco, mas nasci em Valência, por exemplo. A minha escrita não tem localidade. Por isso, imaginei essa história.

Conhece os seus leitores?
Penso que, na sua maioria, são mulheres. Em Espanha sei que quem mais lê são as mulheres e os jovens.

Recebe cartas?
É curioso porque recebo muitas cartas, mas, na sua maioria, são de homens. Acredito que os homens se sentem atraídos pela minha pessoa e pelas personagens que crio. Não há estatísticas de quem me lê. Contudo, penso que os homens gostam das minhas obras porque andam em busca de um ideal feminino.

A escrita feminista “despertou” nos últimos anos e a Lucía é uma das responsáveis.
Durante os regimes fascistas as mulheres eram silenciadas e não podiam escrever ou se o faziam, as suas obras eram proibidas. Ao longo dos anos acabou por se perder a tradição. Nos últimos anos é que têm surgido autoras feministas e acredito que as pessoas falam de mim porque sou uma mulher independente que fala abertamente de tudo.

Mas tem consciência de que o Amor, Curiosidade, Prozac e Dúvidas constituiu um boom na Literatura?
Sim, as vendas deste meu livro foram impressionantes. Nunca imaginei que algum dia pudesse vender tanto.

E sentiu alguma responsabilidade quando escreveu as obras seguintes?
Para mim, cada livro é parte de mim. E nunca sabemos se vai “pegar” ou não.

Como reage quando a comparam, em sentidos diferentes, com escritoras como Maruja Torres ou Almodena Grandez?
Para a crítica espanhola a Almodena Grandez é a boa e eu sou a má, ou seja, ela é a grande escritora e eu sou a escritora menor. Não me atrevo a falar sobre comparações e penso que os escritores não são comparáveis.

Que autores portugueses conhece, além do Saramago?
Conheço o Eça de Queirós, o Lobo Antunes, Pessoa e a Margarida Rebelo Pinto... o único escritor português do qual li todas as obras foi o Eça.

Em Beatriz e os Corpos Celestes aborda a homossexualidade. Foi fácil “falar” deste tema?
Em teoria ela é bissexual. Mas não me pareceu nada difícil falar deste assunto, porque eu sou uma mulher aberta. Foi fácil escrever, mas, confesso, publicar esta obra foi complicado. A crítica atacou o livro de uma forma absurda, dizia coisas como «agora contam estórias entre lésbicas para ver se vendem». Eu própria recebi críticas sociais e começaram a dizer coisas sobre a minha pessoa, sem qualquer fundamento.

Dê-me um exemplo.
Depois de ter publicado Beatriz e os Corpos Celestes “colaram-me” a etiqueta de lésbica, mas no sentido negativo. Como um insulto. E eu sempre tive amigos homossexuais e bissexuais, sempre me dei com eles e nunca senti que os criticassem dessa forma.

Gostava de ter filhos?
Penso nisso. No entanto, a responsabilidade de ter um filho assusta-me. Implicaria muitas coisas para as quais não sei se estou preparada. Mas adoro crianças. Tenho 11 sobrinhos que são a minha verdadeira perdição. Sinto que terei filhos, não sei bem é quando...

Os livros podem funcionar como filhos?
Não. Os livros são os meus maridos. Tradicionalmente, é o marido que dá dinheiro à mulher, posição social, auto-estima, permite que viaje... e os meus livros permitem-me fazer e ter tudo isso.

Que projectos tem entre mãos?
Muita coisa... um livro de poemas, um livro de contos e dois romances, sendo que um deles, é a segunda parte de Amor, Curiosidade, Prozac e Dúvidas. No outro, pela primeira vez, a personagem central é um homem, o que vai ser um desafio enorme para mim. Ah, e esse homem é amável e heterossexual...

Como é que se define? Quem é a Lucía Extebarría, mulher?
Sou a típica sagitária. Viajo muito, sou muito independente, optimista, boa cozinheira, sou criativa. Gosto de animais, às vezes mais do que de pessoas. E sinto-me uma mulher livre. Uma vez fizeram-me a carta astral e eu sou sagitariana com ascendente em sagitário. Em muitas coisas, sei que sou uma menina que gosta da sua casa e dos seu espaço.

Sente-se feliz?
Sinto. Tenho 35 anos e vivo bem comigo, a minha família, amigos, os meus livros. Estou sozinha, neste momento não estou apaixonada nem tenho ninguém, mas sinto-me confortável. E apetece-me muito escrever sobre mulheres com mais de 30 anos que estão sozinhas e são felizes. É uma forma de combater aquele estigma de que se a mulher não “arranja” ninguém até aos 35 anos, depois não casa, não tem filhos ou fica amarga.

E a sua história de amor, vai acabar bem?
Neste momento, estou sozinha, não tenho ninguém, a não ser dois cães. Mas que em conjunto com a minha família, os meus amigos e os meus livros satisfazem-me. O amor não é necessariamente entre um casal. Sinto que hoje tenho muito mais amor do que pessoas que são casadas e supostamente felizes. Infelizmente, a sociedade ironiza e estigmatiza o solteiro como se o solteiro fosse um falhado e um frustrado. Às vezes, é necessário estarmos sozinhos. Por isso é que muita gente não é feliz, vive a angústia do casal e “agarra” a primeira pessoa que aparece...
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