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Os melhores spots do País para surfar

Inventário identifica mais de mil spots ideais para fazer surf na costa portuguesa. Há ondas para todos: principiantes e profissionais.
11 de Fevereiro de 2014 às 09:32
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surf, previsão das ondas, Nazaré, surfistas, Ericeira, Peniche FOTO: JOSE SENA GOULAO / LUSA

Há ondas que se avistam da estrada, outras que se ‘apanham' após longas caminhadas por caminhos agrestes e recônditos. Em Portugal são muitas as ondas de qualidade e muitas destas são mesmo ideais para a prática de surf. Em breve, a identificação destes spots - locais onde se pratica o surf e que em Portugal são mais de mil - vai estar disponível num inventário coordenado por Pedro Bicudo, investigador do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, e surfista há mais de 35 anos.

O trabalho, financiado pela Fundação Rip Curl Planet e a Quicksilver Foundation - duas das maiores marcas mundiais ligadas ao surf - surgiu com o objetivo inicial de preservar a costa portuguesa e potenciar o seu valor turístico. Certo é que, segundo dados da Marktest, o surf gera em Portugal mais de 300 milhões de euros por ano, é praticado por 212 mil surfistas e, segundo um inquérito europeu, cativa o interesse de 200 milhões de jovens na Europa.

Num país com uma costa extensa - 943 km em Portugal continental, 667 km nos Açores, 250 km na Madeira -, os investigadores detetaram mais de mil spots ideais para a prática de surf, um desporto que ganha cada vez mais peso no País, seja por parte dos nacionais seja pelos muitos estrangeiros que aqui aportam. E mesmo fora das tradicionais praias de areia. Pois "alguns dos melhores locais são em praias de pedra e fundo de pedra", nota Pedro Bicudo, que assim alargou o conceito e local onde se pode praticar este desporto.

Ondas para todos

Pedro Bicudo tem hoje 53 anos de idade e 35 de surfista. Começou a praticar na praia de Carcavelos, depois de se aperceber da velocidade que o desporto permitia. Conta, entre risos, que costumava fazer carreirinhas nas ondas, num colchão de praia, até ao dia em que um rapaz numa prancha o ultrapassou. Ficou desde então fascinado pelo surf e pelas ondas e já no Instituto Superior Técnico especializou-se em Física Quântica, Teórica e Computacional. Aplicar o conhecimento científico ao desporto foi um passo.

"Em Mecânica Quântica tudo são ondas e pareceu-me interessante aplicar ao surf o que sabia da Física", diz. Durante dez anos dedicou-se à previsão das ondas, pois admite que "um físico tem mais facilidade em perceber o funcionamento do mar" e garante que a costa de Portugal tem ondas adequadas para todos os tipos de surfistas: principiantes, experientes e profissionais muito experientes. Tudo depende da região.

A prática leva, no entanto, Pedro Bicudo a avisar que "em geral, o surf é um desporto perigoso, que exige aprendizagem e implica risco". E destaca que em Portugal existem "locais perigosos, para surfistas mais experientes, e sítios muito perigosos. E, nesses casos, só com grande experiência se consegue resolver um problema que surja".

Por esse motivo, alerta que "para surfar nas ondas da Ericeira ou em Peniche, convém ser um surfista muito experiente, mas para surfar na Nazaré é preciso ser de uma classe à parte, são os surfistas de ondas grandes. A Nazaré é um dos locais dos mais perigosos do Mundo."

Cinco regiões famosas

O mapa dos spots portugueses arrancou com um estudo-piloto num troço que segue desde Setúbal até à Nazaré e reúne alguns dos locais onde o surf está mais desenvolvido e onde existe um conhecimento profundo das praias. O resultado foi a identificação de 200 spots, apenas nesse troço de 200 quilómetros, ideais para a prática de surf. "Se elevarmos isto para a extensa costa e ilhas, os locais vão ultrapassar o número mil", frisa o investigador e também docente.

Este inventário visa ainda destacar a diversidade da costa portuguesa, que tem características únicas e diferenciadas consoante a região. Em Portugal, os locais mais explorados estão conhecidos e são cinco as pequenas regiões muito famosas na perspetiva do surf.

A linha de Cascais surge à cabeça por ter sido pioneira na prática do surf no nosso país, que se iniciou nos anos 1970, por ser uma região onde se encontra uma tradição forte e por ter as praias com mais praticantes. Mas, desde então, o surf saltou para outros locais.

Classificada reserva mundial de surf, ao lado de Malibu (costa da Califórnia, EUA), a Ericeira é conhecida pelas ondas de grande qualidade. Também Peniche entrou para o mapa mundial graças ao investimento feito no Campeonato do Mundo de Surf. Já a Nazaré, e a Praia do Norte, ficou famosa com "a onda surfada em 2011 pelo havaiano Garrett McNamara, que ali bateu um recorde" e o apoio de um trabalho desenvolvido pela câmara local.

Pedro Bicudo destaca nesta lista das mais famosas a região da Figueira da Foz, onde "algumas ondas foram estragadas devido a obras locais. Mas essa falta de cuidado alertou um grupo de surfistas, que se tornou muito ativo e está a divulgar o surf local".

Qualidade mundial

Numa costa virada ao oceano Atlântico, como é a portuguesa, as ondas boas são conhecidas dos surfistas mais experientes, que surfam regularmente, mas não do grande do público.

E, a par das "cinco regiões famosas", Portugal tem outras zonas ideais para a prática do surf. São elas a costa alentejana, a sul de Sines, onde se destaca a praia de São Torpes; a costa algarvia, em torno de Sagres e Aljezur, "muito recortada e diversificada, com baías, enseadas e ondas que correm ao longo da costa, em vez de rebentarem de frente para a praia", e ainda a Madeira e os Açores, cujas ondas têm "qualidade mundial".

A Madeira, explica Pedro Bicudo, "por ser uma ilha mais antiga, tem uma costa mais profunda, o que é bom para surfar ondas muito grandes, que rebentam em cima de uma batimetria mais profunda. E ali encontramos várias ondas dessas que rebentam muito perto da costa". Já no arquipélago dos Açores, as melhores ondas encontram-se na ilha de São Miguel e ilha Terceira (com destaque para a onda de Santa Catarina) e devem ser preservadas a todo o custo.

Preservar a costa

Pedro Bicudo, que também integra a associação SOS Salvem o Surf, nota que o inventário por si coordenado surge também para responder à necessidade de proteger as praias e os spots onde se pratica surf. E lamenta, a título de exemplo, a destruição da melhor onda de Rabo de Peixe, na ilha de São Miguel.

"Era uma onda muito boa que foi destruída quando construíram o porto, mesmo em cima do local onde se praticava surf. Usaram esse baixio para implantar o porto, pois a obra assim ficava mais barata, não quiseram saber do surf e estragaram a melhor onda de São Miguel", garante. Em jeito de aviso, nota que também uma "onda excelente, bastante conhecida, na ilha Terceira, a onda de Santa Catarina, está ameaçada, pois situa-se também muito perto do porto".

A associação orgulha-se de, há cerca de dez anos, ter ajudado a minorar os efeitos de uma obra que punha em perigo as ondas de Carcavelos e Santo Amaro de Oeiras e espera inscrever mais feitos do género no currículo.

"Quando criámos a associação, fizemos um estudo científico, que envolveu 20 cientistas do Instituto Superior Técnico, LNEC e Faculdade de Ciências, e, ao estudar a proteção da costa, percebemos o que eram ondas de qualidade e estudámos o valor do surf, lançando a ideia de que pode ter muito potencial para desenvolver o turismo em Portugal."

O cientista destaca que os Alpes e o oceano Atlântico são as duas "maiores maravilhas naturais da Europa, com enorme potencial turístico". Mas enquanto o turismo de montanha está bem implantado, o surf ganha cada vez mais peso em Portugal e na Europa, o que exige regulação.

"O surf é um desporto perigoso, exige aprendizagem. Nós, portugueses, estamos habituados a fazer praia, sabemos os perigos do mar, conhecemos as ondas. Mas os jovens estrangeiros, residentes ou turistas que vêm para cá praticar surf - e são muitos - precisam de ser enquadrados em escolas, com segurança. Há casos de pessoas que se magoam, que magoam outras pessoas que estão na água, e isso deve ser evitado a todo o custo."

Nessa medida, Pedro Bicudo defende também um planeamento para a prática do surf e das escolas, destacando que "a perigosidade do desporto e o excesso de praticantes" começam a levantar alguns problemas. "É necessário ordenar esses locais, com apoios de praia que não afetem o ambiente e garantam a segurança também dos banhistas", diz.

Santuários de surf

Para já, o destino do inventário deverá ser o de uma base de dados da associação SOS Salvem o Surf, divulgada apenas para surfistas. "Muitas vezes, são os surfistas locais que conhecem bem as ondas que não querem que estas sejam divulgadas", nota o investigador Pedro Bicudo. E cita o caso dos Açores, onde existem ondas muito boas, mas de acesso difícil, o que é ideal para o turismo.

"O surf é essencialmente um desporto de natureza e os locais com acesso demorado permitem ter mais turistas, pois para lá chegar os surfistas precisam de ter tempo disponível, de fazer uma caminhada e de apreciar a força da natureza", garante. Em sua opinião, "ao chegar a estes locais, os surfistas dão-
-lhes sempre muito mais valor. Tira-se mais satisfação em surfar em locais que não têm um acesso fácil do que naqueles a que se acede facilmente de carro. E a maior parte destes mil locais que vamos inventariar são de acesso difícil, que gostaríamos muito que continuassem assim", frisa. lD

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