Os novos agricultores

São cada vez mais os jovens que apostam na agricultura. Uns recuperam tradições, outros fogem do desemprego.
18.08.13
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Os novos agricultores

Em Idanha-a-Nova, todos apontam a história de Carla Torrado, 41 anos, como um caso de sucesso. Formada em Engenharia dos Recursos Naturais e do Ambiente, mãe de um filho, casada com um professor, deixou o ensino para se dedicar à terra. Hoje pratica "uma agricultura sustentável, ecologicamente viável e economicamente rentável". Tem produtos certificados, que entram no mercado externo, e uma lista de ideias para melhorar o setor da agricultura, que acredita ser "a base sustentável do País".

Fruto da crise, do engenho e do desejo de mudança, são cada vez mais os jovens que veem na agricultura um modo de vida. Segundo números do INE (Instituto Nacional de Estatística), foi este o setor que mais contribuiu para a descida da taxa de desemprego no segundo trimestre do ano. A obrigatoriedade de antigos agricultores se coletarem nas Finanças, assim como a sazonalidade do trabalho no setor favorecem os dados, refere a CAP (Confederação de Agricultores de Portugal). Mas os números falam por si, e no último ano, cerca de 3000 jovens lançaram empresas.

Carla cresceu a ajudar os pais na quinta e há dez anos instalou-se como jovem agricultora. Numa área de 50 hectares, faz produção de ovinos e caprinos e desde 2011 explora também 22 hectares de terreno na Várzea, num projeto da câmara local que atribui a jovens agricultores terras do Estado, "excelentes, de grande qualidade e que estavam ao abandono", explica. Aí planta melão, melancia, meloa, hortícolas, batata-doce e avança uma experiência de produção de physalis e de bagas de goji. Para já, Carla Torrado não tem dificuldades em escoar a produção: "Vendo leite para o meu pai, que produz o Queijo da Fonte, puro de cabra. Os outros produtos, escoo para a cooperativa Hortas d' Idanha."

Clique na imagem abaixo para ver a fotogaleria de quem regressou aos campos para viver da agricultura

Na agricultura, criou cinco postos de trabalho e só nota dificuldades em encontrar mais mão de obra. "Tenho dois empregados estrangeiros, pois não há quem esteja disponível para estas tarefas, que não são duras", diz. Por ter investido em qualidade, a antiga professora de Matemática garante que a agricultura é rentável. "Trabalho muitas horas, mas é com muita confiança que abraço este projeto. Acho que temos bem-estar".

Daniel Peças, de 23 anos, recusou engrossar as estatísticas do desemprego. Com um curso profissional na área do turismo rural e ambiental, instalou-se em Fronteira, Alentejo, como jovem agricultor num terreno da família. Em cerca de 600 metros quadrados, lançou-se no cultivo de cogumelos shitake. O projeto orçado em 60 mil euros recebeu fundos do IFAP e ajuda de familiares. "Fiz a instalação nuns casões que já existiam, aproveitei o palheiro, limpei, instalei um sistema de rega, e crio os cogumelos em troncos de eucalipto, num ambiente artificial, pois no verão esta zona do Alentejo chega a ter temperaturas de 40º", explica.

Por enquanto, Daniel Peças é o único na zona a produzir aqueles cogumelos de origem asiática. "Chego aos dez quilos por semana, um volume pequeno, mas a intenção é chegar aos 50/60 quilos para poder exportar, pois aí terei rentabilidade."

Em terras do Douro

Foi nos tempos de abundância que Edmundo Monteiro decidiu o seu destino. Fez um curso de vinicultor e logo em 1998 optou pela agricultura. Em 2010 instalou-se como jovem agricultor em Sanfins do Douro e hoje, aos 36 anos, orgulha-se das suas propriedades, que entre terrenos próprios e do pai somam 12 hectares em região demarcada.

Os quatro irmãos emigraram à procura de vida melhor, mas Edmundo decidiu ficar e explorar os terrenos que o pai adquiriu enquanto esteve emigrado em França. "Gosto do que faço, sou apaixonado por isto e tento ser o mais profissional possível na vinha." Ao contrário do pai, "que foi sempre produtor de uva para entregar às grandes empresas", Edmundo quer dar o passo mais largo. "Estou a modernizar a vinha, para um dia ser produtor/engarrafador da minha própria marca, Encostas da Moita, e assim ser autónomo."

Com indisfarçável orgulho, enumera as castas selecionadas que plantou nos socalcos do Douro: "Touriga Nacional, Quinta Roriz, Touriga Franca." Edmundo quer produzir "vinhos Doc. Douro, de altíssima qualidade, porque a produzir vinhos a granel já existem milhões de pessoas", assegura.
O investimento é avultado, "para cima de 250 mil euros", e exige muito trabalho. A recompensa virá mais tarde. "Quando tiver toda a vinha em produção, o que pode demorar cinco anos, vamos para a segunda fase, que é a adega. A meta é vender metade da produção a um grande grupo e ter a outra metade para ser engarrafador próprio."

Edmundo trabalha das 05h00 às 20h00 todos os dias da semana, com exceção dos domingos, e contrata pessoal sazonalmente "conforme as necessidades". Exporta para França, porque a nível nacional a situação está "difícil", e procura novos mercados entre os países emergentes, como Brasil, Índia e China. O sonho é deixar aos dois filhos uma marca de renome. "Gostava de que eles seguissem isto. Mesmo que tenham outra profissão, podem continuar a gerir a vinha, tal como em França e Itália, onde as famílias mantém as marcas e a virtude."

Queijo inovador

Na região Centro, Dulce Fiens, 26 anos, licenciada em Engenharia Biológica e Alimentar, está a acabar o mestrado em Inovação e Qualidade da Produção Alimentar. Solteira, lançou um projeto de 200 mil euros para renovar a queijaria que arrendou aos pais. Em Vale dos Prazeres, Fundão, aposta agora numa exploração de animais que lhe permite ter o ciclo completo da produção. "Inovei com novos produtos, aumentei a exploração, comprei máquinas agrícolas, comecei há um ano e tenho duas empregadas", frisa.

Neste momento, Dulce Fiens trabalha apenas para o mercado interno e não quer ter pressas. "Tenho uma boa carta de clientes, estou a tentar entrar num nicho de mercado gourmet, e as vendas estão a correr bem", diz, acrescentando que com bom trabalho se consegue alguma coisa, "acima da média". Por estar instalada numa zona do Interior, e ter criado postos de trabalho, Dulce teve alguma facilidade em receber os apoios, mas ainda assim lamenta que
"o excesso de burocracia leve muita gente a desistir".

Certo é que entre os números de projetos apresentados e os casos de sucesso vai uma larga distância. Ricardo Brito Paes, presidente da AJAP, Associação de Jovens Agricultores Portugueses, nota que "muita gente está a investir na agricultura porque o tema é muito falado, foi uma bandeira desta ministra, e existem poucas alternativas em termos profissionais".
No entanto, a AJAP pede mais fiscalização, pois, "enquanto organização no terreno, preocupa-nos ver que muitas vezes estas pessoas chegam à agricultura sem bases e com projetos para mercados saturados".

Para evitar esse problema, na região Centro crescem agora os pomares que há anos pintavam de cor muitos dos terrenos locais. Dois engenheiros (ver caixa) e uma mediadora de seguros estão entre os que se dedicam à plantação de maçãs, produto que já foi ex-líbris da região. Encontraram inspiração e apoio técnico da BLC3, Plataforma para o Desenvolvimento da Região Interior Centro, que em 2011 criou o Clube dos Jovens Agricultores, onde estes discutem modos de vida e ajudam a mudar o perfil e tipo de agricultura na região.

"Em 2009, existiam na nossa área de atuação cerca de 87 agricultores até aos 35 anos, contra 4,340 com mais de 55 anos", explica João Nunes, Presidente da BLC3. "Desde a criação do clube, apoiámos 12 candidaturas ao PRODER, das quais 11 foram de jovens agricultores, com uma média de 32,5 anos (o mais novo com 24 anos e o mais velho de 40)", nota.

Maternidade de caracóis

No Alentejo, a 20 quilómetros de Estremoz, Sérgio, 41 anos, e Stella Sá Couto, 39 anos, garantem o sustento da família com um projeto fora do comum. Em dez mil metros quadrados e depois de 400 mil euros investidos, dos quais 60% são financiados, o casal aposta na produção de caracóis, que vende para o mercado interno. O engenheiro agrónomo deu o pontapé de saída, quando em 2011 ficou desempregado do matadouro regional do Alto Alentejo. "Candidatei-me aos fundos de projeto de Primeira Instalação, e neste momento tenho um volume entre 40 a 30 mil quilos anuais, que escoo na totalidade para o Pingo Doce." Stella, engenheira alimentar, apresentou o seu próprio projeto quando perdeu o emprego como diretora de uma fábrica em Avis. Apostou numa ‘maternidade' de caracóis, que permite aumentar a produção e a rentabilidade. "Assim iniciamos e fechamos o ciclo de produção, desde a reprodução, a engorda, embalamento e venda." O negócio tem crescido nos últimos dois anos. "Realizamos menos dinheiro do que quando estávamos empregados, temos mais trabalho físico e mental, mais incerteza e menos descanso, mas esta foi a alternativa. Estou contente com o projeto, é um desafio e é nosso."

É com a mesma visão que em Vieira do Minho, Carla Pacheco, 37 anos, transformou a Quinta dos Gomes num espaço lúdico e rentável. Natural do Porto, ex-professora do Pré-Escolar e Ensino Especial, com frequência de doutoramento, investiu nos terrenos da família do marido, "advogado e agricultor aos fins de semana", quando se viu com o drama do desemprego.

Investiu 94 mil euros, dos quais 80 foram financiados, e criou uma Quinta Pedagógica autossuficiente. Em quatro hectares de terreno agrícola, tem vinha, milho, batatas, abóboras, horta, feijão e terreno de pasto. Num monte, em 27 hectares de baldio tem pasto para os cavalos garranos, uma das espécies autóctones que produz, a par de porcos bísaros, galinhas, coelhos, patos, perus, gansos, para autoconsumo e fumeiro. A produção de alheiras é outra fonte de rendimento para clientes da zona e da Alemanha. Até ao final do ano, Carla vai criar dois postos de trabalho e assegura que o saldo é "positivo a todos os níveis. Dou mais apoio à minha filha, ganhei mais qualidade de vida e em termos de salário, quando estiver toda a quinta a funcionar na perfeição, acredito que posso ganhar mais do que como professora".

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7 Comentários
  • De ramiro20.08.13
    vejo aqui muitos filhos de pais ricos!!!
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  • De Rodrigo20.08.13
    Mais uma moda passageira de um ou dois anos nem tanto, a agricultura é muito dura em especial quando se começa do zero, triste ver o romantizar da vida neste setor, conhecem algum país mesmo rico focado na agricultura?!
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  • De Oscar Lambuças18.08.13
    Realmente, há cada vez mais gente a enveredar pela "arte de empobrecer alegremante". Assim, a pobreza não vai chegar para todos.
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  • De A.Moreira18.08.13
    MAIS TARDE HA-DE HAVER UM NOVO CAVACO QUE EM TROCA DE DINHEIRO VÃO TER DE ABANDONAR AS TERRAS,OS PRODUTOS NÃO SÃO "COMPETITIVOS" EM RELAÇÃO A OUTROS PAÍSES.NÃO ACREDITO NA AGRICULTURA EM PORTUGAL SE NÃO MUDAR A POLITICA
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  • De Nuno18.08.13
    o futuro dos tugas é couves e galinhas
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