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Os novos caloiros do curso de Medicina

São craques a tirar notas, mas recusam o epíteto de marrões. Os futuros doutores trabalham a sério e apostam na genética
15 de Setembro de 2013 às 15:30
Miguel Santos alcançou uma média de 19,7 e vai estudar Medicina na Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa
Miguel Santos alcançou uma média de 19,7 e vai estudar Medicina na Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa FOTO: Sérgio Lemos

A entrada no espaço marmóreo do Teatro Anatómico da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa não intimida Miguel Santos e Ana Canastra, entusiasmados com a primeira visita à sala de dissecação de cadáveres onde vão passar parte dos próximos seis anos. São dois dos alunos que entraram em Medicina, curso que continua a liderar o top das notas mais altas. Ainda assim, este ano foi mais fácil o acesso: médias de 19,7 e 17,4 separam os futuros doutores, espalhados pelos cursos que existem em Lisboa, Porto, Coimbra, Braga e Covilhã. Em comum têm um destino traçado por serem alunos excecionais: uns com verdadeira paixão, outros vocacionados para a investigação.

AS MÉDIAS MAIS ALTAS

Miguel Santos, 18 anos, sempre quis ser médico. "Sinceramente, não me lembro de querer ser outra coisa", confessa com sorriso tímido o aluno que lidera a lista. A média de 19,7 não é fácil de igualar e, para cumprir o objetivo, desistiu do ténis de competição. Filho de engenheiros químicos, Miguel estudou na escola privada St. Julian's, em Carcavelos, onde concluiu o IB (Internatinal Baccalaureate), programa de ensino internacional. O trabalho foi árduo: "Fiz 15 exames, por vezes mais do que um por dia e muitas vezes fiquei em casa em vez de sair com os amigos. Alcancei esta média com uma mistura de muita atenção nos exames e muito trabalho em casa". Mas o mais importante, diz, "é definir um objetivo e trabalhar para isso. Há mesmo muito trabalho, aqui", explica.

Aos 15 anos, Miguel já sabia o que queria. Passou um trimestre no ABLA, centro de dia para crianças de Carcavelos e 15 dias no Hospital da Luz a seguir médicos, "para ter a certeza da escolha". Escolheu a Universidade Nova de Lisboa por ser "aquela onde o trabalho hospitalar começa mais cedo, o ambiente é melhor e há menos competição entre os alunos". Mas podia ter sido outro o seu destino. Miguel entrou na Universidade de
St. George's, em Londres, mas preferiu Lisboa. "Foi uma decisão familiar, aqui é mais barato e, para já, não penso sair. Ainda não sei que especialidade vou escolher, sei que o meio hospitalar é de grande exigência e nunca se sabe como vai correr".

MEDICINA EM LONDRES

Diferente foi a decisão de Miguel Campos, 17 anos, que no dia em que se matriculou na Faculdade de Medicina do Porto, com média de 19,4, partiu para Londres. Estudou na Oporto British School, na Invicta, fez também o IB e optou pela King's College. A anuidade de nove mil libras (cerca de dez mil euros) será suportada em parte pela faculdade, ao abrigo de um programa para estudantes da União Europeia. "Só pago de volta quando ganhar acima de 21 mil libras ano", conta Miguel Campos, enquanto elogia os critérios de entrada nas universidades britânicas, que obedecem a outras regras: as notas são apenas um fator que se soma a testes psicotécnicos, uma carta de 4 mil carateres em que o aluno explica porque merece estar naquela faculdade e voluntariado. Aos 17 anos, o futuro médico, filho de um advogado e de uma farmacêutica, tem no currículo dois estágios no Hospital de S. João e outro na Associação de Doentes Neuromusculares do Porto.

ESFORÇO E DEDICAÇÃO

"Com grande pena minha, nunca me dediquei a ir a hospitais, mas não será um obstáculo. Tenho consciência do que é entrar num curso de Medicina", admite Ana Canastra, 18 anos. Aluna da escola pública do Barreiro, nunca se assustou com o "fantasma das médias" e à consciência de estar a escolher um curso muito exigente somava uma certeza: "eu conseguia". "Estudava todos os dias. Em época de exames, tomava conta da sala. Sou filha única, tinha o espaço todo para mim". Os pais têm negócios próprios e não seguiram o Ensino Superior, Ana quer continuar a estudar. A média de 18,8 abriu-lhe várias opções. "Também pensei em Engenharia Aeroespacial, mas o curso de Medicina na Nova tem fama, apesar de nos terem assustado com a cadeira de anatomia", diz a rir.

Quando já tinha perdido a esperança, Nuno Pardal, 19 anos, concretizou o sonho. Aluno da escola pública da Mortágua, karateca desde os sete anos, definira a meta logo no 10º ano: "queria Medicina". No entanto, por não se ter "aplicado tanto como devia" acabou em Ciências Farmacêuticas. Estava decidido a mudar, "nem que fosse para Fisioterapia". Este ano repetiu exames, melhorou a Matemática e a média de 17, 4 deu-
-lhe entrada em Medicina na Universidade da Beira Interior, na Covilhã. A festa fez-se primeiro em privado, com a mãe, auxiliar de acção educativa, e a irmã de 12 anos. O pai, pintor da construção civil em França, celebrou à distância. Nos próximos anos, Nuno continuará a depender "totalmente" dos pais para pagar casa, alimentação e transportes. Está feliz e só lamenta que a exigência das notas tenha deixado de fora "muitos que têm verdadeira vocação". "No ano anterior, esta média não dava".

NOVOS DOUTORES 

Logo que chegou à Faculdade de Medicina de Lisboa, junto ao Hospital de Santa Maria, Leonor Caixeiro inscreveu-se no futsal e descobriu um atalho "pela morgue" que lhe permite chegar mais cedo às salas de aula. A estudante de Évora, filha de uma professora e de um militar, só faz 18 anos em março de 2014 e até lá será a mais nova entre os pares. Está habituada. "Andei sempre um ano adiantada, quando cheguei ao 1º ano avançaram-me para o 2º, porque sabia ler, escrever e fazer as operações básicas", conta. Leonor estudou no Colégio Salesiano de Évora e fez o Secundário na pública da mesma cidade. Alcançou a nota 20 nos exames nacionais de Matemática e de Física e Química e uma média final de 19,1. Só então assumiu: "No Secundário ninguém tem coragem de dizer que quer Medicina, porque as médias são muito altas e pode-se falhar. Só se exprime esse desejo quando se tem uma boa média".

Aos alunos de exceção é exigido esse caminho. "Dizem ser seguro, que há garantia de emprego, mas daqui a seis anos não se sabe", questiona Pedro Carreira, 17 anos, natural de Fátima. Filho de professores, estudou em escolas privadas com contrato de associação. A média de 19 levou-o à Faculdade de Medicina de Lisboa, onde se matriculou "à experiência". "Andei indeciso, também gosto de Engenharia Eletrotécnica. Na Medicina, interessa-me a investigação e acho fascinante o que ainda se pode descobrir na área da genética, mas nunca estabeleci contacto com doentes e isso suscita-me dúvidas. Vou ver como é".

Também Catarina Fernandes, 17 anos, quer "ser competente na parte humana" e vai "ter isso muito em conta durante esta aprendizagem". Os pais, ela inspetora da educação e ele militar, ensinaram-lhe cedo o valor do rigor. Defensora da escola pública, onde sempre estudou, no Barreiro, acredita que "a genética e dormir bem" ajudam ao sucesso escolar. "Nunca tive explicações, nem horário fixo para estudo, mas na época dos exames era a sério, vivia quase num claustro pois tenho consciência que se nos aplicarmos nesse pouco tempo podemos traçar o rumo da nossa vida". A média de 19 levou-a a Medicina. Quer seguir investigação e "também a escrita. É algo que me fascina, assim como o teatro".

FILHO DE MÉDICOS SEGUE MEDICINA

Pedro Cardoso, 18 anos, inscreveu-se este ano na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, uma "escola de prestígio" onde vai seguir o rumo da família. A mãe é ginecologista, o pai é ortopedista e o irmão prepara o mesmo percurso. Aluno da Foz, estudou em colégios privados (Rosário e Ribadouro), praticou remo, karaté e natação, estudou línguas e trabalhou a sério para alcançar a média de 19,3. "Ter pais médicos facilita, pois em caso de dúvida há quem nos ajude", diz, mas "esta média conquista-se com persistência e muitas horas de estudo. Sempre fui bom aluno, mas é preciso força de vontade". Pedro garante que dedica tempo ao lazer, aos amigos e à namorada, estudante de Nutrição. "Tenho alguma facilidade, não sou marrão, mas estudei muito e tenho a certeza de que vou estudar ainda mais".

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