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Correio da Manhã

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Os poemas que vêm da China

Duas antologias da melhor poesia que a humanidade pode ler.
Francisco José Viegas 20 de Outubro de 2019 às 12:00
FOTO: Direitos Reservados

Está mais ou menos estabelecido que o ‘Shi Jing’, ou ‘Livro das Odes’ (ou ‘dos Cantares’, noutra tradução) é "a mais antiga recolha de poemas chineses" – uma das versões teria sido compilada pelo próprio Confúcio, cerca de 450 a.C., o que situa estes textos entre os séculos XI a.C. e V a.C. Uma bela idade.

Ao lê-los, hoje, ninguém hesita em considerá-los ‘modernos’, escritos como se fosse no nosso século, com uma sensibilidade muito próxima da nossa – ou, para sermos menos cautelosos, semelhante à nossa. Encontro estes poemas na antologia ‘Quinhentos Poemas Chineses’, organizada por António Graça Abreu e Carlos Morais José.

Ultimamente tenho lido este género de poemas. Por motivos profissionais, ocupei-me recentemente das edições da ‘Ilíada’ e da ‘Odisseia’ (traduzidas por Frederico Lourenço), e o reencontro com a cultura clássica foi uma rara alegria nestes tempos.

Por outros motivos, voltei à poesia chinesa tradicional; uma visita ao Museu Nacional da China, em Pequim, concedeu-me uma rara alegria: encontrar textos manuscritos de três dos meus grandes poetas, Bai Juyi (772-846, para mim talvez o maior), Wang Wei (699-761) e Li Bai (701-762), além das melhores versões caligráficas dos seus textos – há traduções para português a cargo de António Graça Abreu.

Sei que os tempos vão apressados, e que a nossa velocidade não tem a ver com a lentidão, a tranquilidade e a melancolia destes poemas que atravessaram os séculos: "Densas as ervas na planície,/ cada ano crescem e murcham./ O fogo na pradaria não destrói as suas raízes/ as ervas renascem ao vento da Primavera." (Bai Juyi). Ou: "Sento-me solitário entre os bambus/ pego no alaúde e começo a cantar/ Perdido na espessura do bosque ninguém/ a não ser a lua sabe onde me encontrar." (Wang Wei).

Recomendo estas duas antologias imperdíveis onde se guardam tesouros que, infelizmente, nós – ocidentais – não lemos e até ignoramos. É uma pena, porque trinta séculos de poesia chinesa não se podem esconder em nenhuma biblioteca.

Livro

Leonard Cohen, sempre!

O maior dos poetas da música popular, Leonard Cohen é uma figura fascinante – e de grandes abismos, como deve ser. A biografia de Sylvie Simmons é magnífica, leva-nos pela vida de Cohen como pelas margens de uma fantasia rodeada de pesadelos e sonhos improváveis. É um Cohen inteiro e surpreendente.

O preço do abismo

É um romance de estreia invulgar e cheio de obsessões, como deve ser – a língua (a de Portugal e do Brasil), o sexo e a sexualidade, a política, a identidade cultural e sexual – e os espaços, as viagens, a memória. Nisso, é tremendo e apetitoso. Está cheio de tesão e mostra uma autora que promete voos bem largos.

Álvaro Cunhal lá dentro de casa

Adelino Cunha tenta, ao longo destas 640 páginas, mostrar que Álvaro Cunhal não era apenas o incontornável e impassível estratega, o ideólogo e o frio dirigente – e revelar alguma da sua "intimidade" que, a existir, é uma espuma à superfície da sua vida e do seu legado. O trabalho deste livro é um bom começo.

Fugir de:

Vozes do dono

Os programas de comentário político na televisão têm uma vantagem suplementar sobre os de comentário futebolístico: muitos decibéis abaixo e muito melhor gramática. Mas o problema acontece quando os comentaristas desempenham, também, cargos políticos – ou estão lá em nome de um partido. E então transformam-se em deploráveis vozes do dono, prolongando as arengas parlamentares. Ver altifalantes partidários transformados em comentadores é um truque das televisões e dos políticos, e já se sabe qual a moeda de troca: jeitinhos. Fujam.

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