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'Os rapazes arranjam mais problemas que as raparigas'

Aos 60 anos de idade, o professor Daniel Sampaio tem dedicado as últimas décadas da sua vida ao estudo dos problemas dos jovens e das suas famílias. Seguiu as pisadas do pai, formou-se em Medicina e mais tarde doutorou-se em Psiquiatria: “Sempre me interessei pela mente humana, por isso sabia que só podia seguir Psicologia ou Psiquiatria”, conta.
15 de Outubro de 2006 às 00:00
Daniel Sampaio trabalha no Hospital de Santa Maria quer em terapia familiar, quer com jovens que sofram de anorexia e bulimia nervosas. Exerce igualmente clínica privada e escreve. Escreve muito. Tanto que tem 15 livros publicados – começou em 1978 – que no conjunto prefazem 500 mil exemplares de títulos vendidos. O último intitula-se ‘Lavrar o Mar’, escrito em parceria com Eulália Barros (edições Caminho) e tem lançamento agendado para a próxima terça-feira, dia 17, pelas 18h30, no Auditório Camões (junto ao Liceu Camões), em Lisboa. O professor Daniel Sampaio é casado, pai de três filhos adultos e avô de quatro rapazes com idades compreendidas entre os quatro e os sete anos.
-O que é que este livro, ‘Lavrar o Mar’, nos traz de novo em relação aos adolescentes?
Daniel Sampaio-Em primeiro lugar, acredito que temos que responsabilizar os jovens e tratá-los como pessoas que estão no início da idade adulta. É preciso combater a ideia que a adolescência é uma época de passagem; tem que se pedir contas aos jovens. O que prevaleceu até agora é que os adolescentes são imaturos, são menores e tudo é desculpável, e penso que temos que mudar esta tese. Esta é a primeira linha e uma ideia nova em mim e penso que é uma ideia relativamente nova nas pessoas que escrevem sobre estes temas.
-Quando fala em jovens, refere-se à adolescência tardia, uma vez que actualmente a adolescência prolonga-se muito além dos 18 anos?
-Realmente, temos um período muito longo da adolescência, começa mais cedo e acaba mais tarde e uma das coisas que precisamos de fazer é que os adolescentes mais velhos sejam responsabilizados.
-E qual é a segunda linha do livro?
-A segunda ideia e a mensagem que pretendo transmitir prende-se com a recompensa, isto é, com os filhos que são recompensados por tudo e por nada. Este livro pretende demonstrar que grande parte dos jovens que apresenta problemas na adolescência já os trazia de trás, desde a infância.
Há problemas no desenvolvimento que são visíveis muito mais cedo, desde a infância e nós temos que dar muita força à educação. Pode parecer estranho mas justamente muitas vezes os pais e os professores estão convencidos que os problemas dos jovens são psicológicos quando não são. São problemas de regras, de responsabilidades, são problemas de respeito. Nos inúmeros exemplos que cito digo que é fundamental colocar a perspectiva da educação em todas as áreas que dizem respeito às crianças.
-Muitos pais são permissivos com os filhos pequenos quando estes se atiram para o chão ou fazem tremendas birras. É mais fácil para os pais cederem do que passarem pela vergonha de uma cena em público?
-Basta andarmos na rua para observarmos esse comportamento dos mais pequenos. Se os pais não impuserem limites e disciplina nos filhos pequenos acabam por dar origem a adolescentes com muito poder. É muito difícil os pais controlarem as exigências dos filhos quando isso já vem de trás e se na infância não existirem limites, mais tarde o jovem vai negociar tudo com frases do género: “Só vou jantar a casa dos avós se me deres isto ou aquilo.”
-Mas não estaremos também perante a compensação que os pais fazem aos filhos – em valores materiais – pela sua ausência durante a maior parte do dia?
-Temos que combater isso. Estamos perante uma enorme falta de tempo que existe entre os pais e os filhos mas as exigências económicas obrigam a que ambos trabalhem. Durante o dia os pais podem contactar com os filhos através de telemóvel, sms, e-mails... E devem fomentar a comunicação seja o filho criança ou adolescente. O tempo tem que ser gerido com qualidade e é fundamental que numa família se adaptem os horários e jantem todos à mesma hora e à mesa.
Outra das suas teses é que quando os pais vivem excessivamente para os filhos, acaba por dar mau resultado.
Sim, é verdade, e quando os pais se centram absolutamente nos filhos, acaba por originar falta de entendimento. Ao mesmo tempo não é fácil ser-se pai ou ser-se mãe, a sociedade está sempre a criticar e a dizer que aquela pessoa não é uma boa mãe ou não é um bom pai. O que acontece é que os pais às vezes saem e no dia a seguir estão cansados e culpabilizam-se e acabam por compensar as crianças. Quando essa gratificação é mantida, na adolescência eles continuam à espera e a pedir e como não têm regras em casa, na escola repetem o comportamento, vão para as aulas com uma enorme dificuldade em aceitar regras.
É curioso que no seu livro tenha sobretudo depoimentos de adolescentes rapazes. (risos) Isso é por uma questão que eu não sei explicar mas recebo muito mais rapazes do que raparigas. De uma forma geral, os rapazes arranjam muito mais problemas que as raparigas, bebem mais álcool, têm mais problemas com a disciplina e na escola também. Eu tenho 3 filhos e 4 netos, todos rapazes (risos) por isso penso que tenho mais conhecimento pessoal e profissional sobre os rapazes.
-Em relação às raparigas, quais são os problemas delas?
-As meninas têm mais depressão, problemas de ansiedade, anorexias nervosas.
-Em que aspectos os pais enfrentam mais dificuldades ao lidarem com os filhos adolescentes?
-Neste momento é recuperar a autoridade, o que se compreende nos pais que já não conseguem ter autoritarismo. Em tempos passados, o autoritarismo funcionava mas hoje as crianças têm consciência dos seus direitos. Os pais viveram na permissividade e deixaram passar, acreditam que é tudo uma fase, quando são pequenos é uma fase que vai passar, quando são adolescentes é porque é a idade do armário. É tudo uma fase. As coisas não são bem assim. Se a criança não interiorizar regras e se a disciplina não for uma presença, vai ser cada vez pior, os pais acabam por não conseguir ter autoridade sem ser autoritários e é possível ter autoridade com muito afecto.
-E quanto ao Ensino, porque razão tantas turmas e tantos professores vivem em autênticos campos de batalha?
-Conheço casos de professores na mesma escola e da mesma turma: um tem inúmeros problemas de indisciplina dos alunos, o outro não tem nenhum, porque a relação estabelecida no início do ano lectivo foi totalmente diferente.
-Os pais permissivos são filhos de pais autoritários?
-Exactamente. Este livro é um contributo também para os jovens pais dos nossos tempos e, claro, para os adolescentes, porque como as histórias que conto são reais e dizem respeito aos adolescentes, é normal que se identifiquem.
-Tem algum ‘feedback’ dos seus livros
-Sim, recebo muitas cartas e mails e pessoas que aparecem nas consultas porque leram os meus textos. Às vezes oiço adolescentes mais velhos a dizerem-me que foi bom terem tido pais que chamavam a atenção e que lhes punham limites. Neste livro conto a história dos e-mails que troquei com um adolescente que nunca vi. Ele disse-me que ia ao lançamento e espero conhecê-lo. Mas é interessante verificar que muitas vezes os jovens só precisam de uma voz que os oiça.
-Um pai ou uma mãe podem ser progenitores e amigos?
-Sou contra o pai/camarada. Um adolescente contou-me que costumava fumar canábis com um colega do liceu e com o pai dele e dizia-me que o pai do amigo era fixe porque alinhava com eles. Quando lhe perguntei se queria ter um pai assim, o adolescente respondeu-me: “De facto, o pai do meu amigo não tem credibilidade nenhuma como pai.”
-Ou seja, é a favor da separação entre as gerações?
-Sou a favor da separação entre gerações, as pessoas mais novas pensam de maneira diferente das pessoas mais velhas e não concordo com a proximidade excessiva, como os pais que vão às discotecas com os filhos e com os amigos destes, ou quando as crianças e os jovens convivem sistematicamente nos jantares com os amigos dos pais. Claro que ocasionalmente não faz mal os filhos participarem nas reuniões sociais dos pais, mas é preciso saber separar as águas.
-O desenvolvimento de uma criança ou de um jovem é ou não afectado se este crescer numa família monoparental?
-Depende de vários aspectos, o facto do jovem viver, por exemplo, com a mãe não significa que tenha problemas até porque ele pode ter um contacto próximo com o pai e/ou com a família alargada. O que é essencial é fomentar sempre o contacto do menor com ambos os progenitores.
-No entanto, os filhos, rapazes ou raparigas são sempre mais próximos da mãe...
-Sim, mesmo nos casais, aquela coisa que se diz que os rapazes falam mais com o pai e as meninas com a mãe é um mito. A mãe adquire um papel fundamental na educação dos filhos e é quem melhor os conhece e estes acabam por ser muito mais próximos das mães, mesmo que tenham um pai presente. Mas esta lógica tende a desaparecer nas próximas gerações porque os jovens pais estão mais disponíveis, vão aos pediatras, aos médicos, à escola, às festas de anos, e hoje em dia existe uma maior partilha entre os jovens casais nas tarefas domésticas e na educação dos filhos.
-Como é que os filhos lidam com a homossexualidade dos pais?
-(risos) Estou mais acostumado ao cenário inverso, isto é, os pais a lidar com a homossexualidade de um filho e em 30 anos de carreira nunca encontrei pais que lidassem bem com a questão. Nenhum pai ou nenhuma mãe está preparada para aceitar plenamente a homossexualidade do filho. Quando os adolescentes são confrontados com essa orientação sexual num dos pais, geralmente sentem vergonha e sentem--se confusos.
-As experiências homossexuais durante a adolescência podem ser transitórias?
-Muitos adolescentes têm essas experiências e, efectivamente, são transitórias. Só podemos falar em orientação sexual quando nos confrontamos com um adolescente com 17 ou 18 anos, antes disso, pode ser apenas uma experiência.
-Os progenitores ainda projectam nas crianças aquilo que eles gostariam de ter sido?
-Isso ainda acontece, ou seja, os pais projectam muito nos filhos aquilo que eles gostavam de ser ou que não tiveram oportunidade de ser. Os pais têm sempre expectativas para os filhos, mas um filho é sempre, mas sempre, diferente daquilo que inconscientemente os pais desejavam que fosse.
-Recorda-se das suas primeiras consultas de terapia familiar, em 1979?
-(risos). No início tínhamos muito medo! Éramos 6 profissionais, começámos em 1979/80, depois de termos tido formação nos Estados Unidos e em Itália. Nós não sabíamos muito e por outro lado as pessoas diziam mal como sempre acontece quando há uma novidade no nosso país. Alguns colegas diziam-nos que a terapia já era feita; outros afirmavam que era muito perigoso reunir as famílias. No início chegávamos a estar quatro técnicos, dois para entrevistar a família e dois a observar. Às vezes estávamos os quatro com uma família de pai, mãe e filho.
-Tantos médicos devia assustar as famílias...
-Claro que sim e muitas famílias desistiam. Entretanto acabámos por implementar o modelo em Portugal e hoje em dia as consultas de terapia familiar estão sempre lotadas, é um sinal positivo, da mudança dos tempos. Agora já não fogem, antes pelo contrário, o meu problema sempre é arranjar tempo para falar com as famílias.
-O professor tem quatro netos pequenos. É verdade que os avós têm uma disponibilidade para os netos que não tiveram para os filhos?
-(risos) Ser avô é uma coisa absolutamente maravilhosa. Primeiro porque ficamos encantados com o que os netos gostam de nós, nós não percebemos como é que é possível gostarem tanto. De uma forma geral, os netos têm um enorme amor pelos avós. E a relação é muito mais livre, os pais estão sempre preocupados, os avós são mais para brincar sem a preocupação de educar.
-E para fazer as vontades...
-Fazer as vontades sim, mas com firmeza. Conheço um caso de uma avó que montou uma piscina, no meio da sala, para os netos e cobriu os móveis com um plástico! Isso é ser uma avó extremamente permissiva. A ideia dos avós deixarem fazer absolutamente tudo, é errada.
-Como se considera como pai, democrático?
-Fui um pai democrático mas tive muitas dúvidas, todos os pais têm dúvidas e eu aconselho sempre as famílias a trocarem opiniões com amigos que tenham filhos dentro das mesmas idades. É óbvio que não eduquei os meus filhos sozinho, fui sempre eu e a minha mulher. Procurei ter alguma disponibilidade e alguma comunicação com os meus filhos. É importante dizer que não há pais infalíveis nem pais perfeitos. Os pais erram e é natural errar. Os pais estão com os filhos em casa muitos anos e os erros devem ser conversados, o que é mau é simplesmente não comunicar.
QUESTIONÁRIO DOMINGO
Um País... Itália
Uma pessoa... A minha avó
Um livro... ‘Terna é a Noite’, de F. Scott Fitzgerald
Uma música... ‘Love Me Tender’, de Elvis Presley
Um lema... Mais vale pouco mas bem do que fazer muito e mal
Um clube... Sporting! É das coisas que nunca muda!
Um prato... Bife com batatas fritas e ovo a cavalo
Um filme... ‘Citizen Kane’, de Orson Wells
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