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Os salteadores das redes sociais

A Setestrelas é uma empresa especializada em fazer campanhas na internet. Sempre à vontade do freguês.
24 de Junho de 2012 às 15:01
Campanhas na internet estão a sofisticar-se
Campanhas na internet estão a sofisticar-se FOTO: Getty Images

A empresa Setestrelas foi apanhada nas investigações do processo do superespião Jorge Silva Carvalho, uma história com ingredientes e protagonistas dignos de um livro de John Le Carré, numa teia que envolve relações perigosas entre espiões, políticos, proprietários de grandes grupos de comunicação social e jornalistas.

Os relatórios entregues à Ongoing sobre o presidente da Impresa, Francisco Pinto Balsemão, ou sobre o director do ‘Expresso’, Ricardo Costa, não foram da autoria dos serviços de informações, ao contrário do que chegou a ser publicado em diversos meios de comunicação social. Tiveram a assinatura de uma pequena empresa de comunicação liderada pelo especialista em assuntos de informação e inteligência, José Mateus Cavaco Silva.

Na altura em que publicou em primeira mão esta informação, no passado dia 1 de Junho, o Correio da Manhã falou com o próprio José Mateus, que confirmou ter realizado vários relatórios de "análise reputacional", baseados em "fontes abertas", ou seja, em dados já antes publicados nos mais diversos sites da internet, incluindo a página electrónica da Assembleia da República.

A Setestrelas dedicava-se a uma outra actividade estratégica na guerra entre a Ongoing de Nuno Vasconcellos e a Impresa de Francisco Pinto Balsemão: a criação de campanhas na internet, incluindo a colocação massiva de comentários nas redes sociais e nas caixas dos artigos de jornais on-line, mais positivos ou mais negativos consoante as necessidades do freguês.

GUERRA DE COMENTÁRIOS

Dois relatórios a que o CM teve acesso revelam o modus operandi da Setestrelas em relação a notícias consideradas relevantes para a Ongoing, por serem claramente negativas para a Impresa, o grupo de comunicação social proprietário da SIC e do ‘Expresso’.

Com o título ‘Relatório Setestrelas’, os agentes das redes sociais fazem o que chamam de "serviço de análise crítica permanente à situação reputacional" através da "monitorização de e-reputação pela avaliação diária de sites, blogues, fóruns e redes sociais" das "notícias publicadas a 30.06.2011 e com réplicas até dia 04.07.2011". As duas informações em causa são "Balsemão veta entrada de Manuela Moura Guedes na SIC – Notícias Relacionadas" e "Impresa faz rescisões amigáveis e corte de salários – Notícias Relacionadas".


O VETO DE BALSEMÃO

Sobre o veto de Balsemão a Manuela Moura Guedes, diz o relatório que a introdução massiva de comentários pela Setestrelas "permitiu, com sucesso, colocar em segundo plano algumas críticas menos positivas relativamente ao Cliente", a Ongoing, "bem como influenciar outros utilizadores a seguir a mensagem inicial a ser passada, que visou fragilizar a posição de Balsemão, tido como responsável por uma injustiça, movida apenas por questões pessoais, atitude reveladora do modelo de gestão familiar e em prol de amigos que Balsemão implementa, com maus resultados, na Impresa." Mais: "Este trabalho exigiu uma actuação permanente e em grande escala, dado o enorme volume de comentários de outros internautas" e se "não fosse a nossa actuação, não haveriam comentários desfavoráveis a Balsemão, quer por iniciativa directa nossa, quer por contágio a outros internautas".

A acção parece ter exigido algum suor dos operacionais da Setestrelas – um pequeno grupo de quatro ou cinco ex-jornalistas – e muitos cliques na internet: a intervenção pretendeu "desviar a atenção dos utilizadores do caso da privatização da RTP, impulsionado por alguns internautas", mas também "criar um efeito de contágio na mensagem a ser passada, o que se verificou". Foi feita a monitorização de notícias referentes ao veto de Balsemão da entrada de Manuela Moura Guedes na SIC, com o objectivo de fragilizar a posição do presidente da Impresa, "incutindo nos leitores habituais de comentários a ideia de que o dono da SIC terá agido de má-fé, voltando com a palavra atrás e retirando o convite a Manuela Moura Guedes".

A estratégia foi delineada ao pormenor e as principais linhas condutoras dos comentários introduzidos pretenderam "evidenciar a falta de lealdade de Balsemão", com um "enfoque no facto de Balsemão subordinar a gestão e objectivos da Impresa aos interesses particulares das personagens do seu núcleo familiar", aumentando as "críticas à má gestão resultante do ponto anterior".

A própria empresa gaba-se da vitória neste conflito cibernético, apesar das dificuldades: "Houve um considerável número de comentários enviados não publicados nalguns sites. Esta situação não impossibilitou, contudo, que, num quadro geral, a nossa mensagem passasse e fossem atingidos os objectivos."

CONTÁGIO DE INTERNAUTAS

A segunda operação conhecida da Setestrelas diz respeito à notícia de que a "Impresa faz rescisões amigáveis e corte de salários". Neste caso, dizem os agentes da empresa, a intervenção "permitiu, com sucesso, cumprir o objectivo primordial de influenciar a percepção dos internautas face à gestão ‘desastrosa’ de Pinto Balsemão à frente do grupo Impresa".

Com sucesso, acrescenta-se, "esta ideia contagiou outros internautas, sendo o tom geral dos comentários claramente negativo para Balsemão, acusado de prejudicar os trabalhadores e manter privilégios pessoais e familiares".


As principais linhas dos comentários também foram definidas com os seguintes objectivos: "Contestação das medidas anunciadas pela Impresa; colocação em causa das qualidades e atributos de gestão de Balsemão; apoio aos trabalhadores rescindidos/despedidos; destaque ao facto de os filhos de Balsemão trabalharem no grupo e não serem afectados."

Neste trabalho específico, prossegue o autor do relatório, "foi feita a monitorização de todas as notícias publicadas on-line sobre o processo de reestruturação da Impresa. A estratégia adoptada na inserção dos comentários permitiu cumprir com sucesso o objectivo de veicular e fazer predominar a mensagem".

Na linha de actuação é igualmente destacado o facto de o presidente da SIC "ter os filhos a trabalhar no grupo, o que configura uma situação de nepotismo". Uma outra linha de comentário foi usada pela Setestrelas "no sentido de frisar que aos trabalhadores incluídos na rescisão nem sequer teria sido dada hipótese de escolher uma redução de ordenado".

Segundo os relatores, registaram-se "vários comentários de outros internautas em concordância com a mensagem inicial a ser passada".

No entanto, sublinha-se, verificaram-se também "alguns comentários ‘elogiosos’ a Francisco Balsemão a que retirámos visibilidade, relegando-os para páginas secundárias (no caso do ‘Diário Económico’), ou para o fundo da página, como foi o caso do ‘Jornal de Negócios’".

Ao contrário do que aconteceu noutras acções semelhantes, "não foi necessária uma intervenção pesada" mas apenas "uma canalização dos fluxos nas direcções pretendidas". A mensagem terá, uma vez mais, passado com sucesso.

Num outro relatório, que documentava a eliminação de comentários negativos para o cliente da Setestrelas, a Ongoing, refere-se a necessidade de uma colocação massiva de comentários positivos: "Para cada comentário publicado com a frase-alvo desta intervenção tivemos de inserir mais de quinze de modo a removê-lo da 1ª página de comentários das notícias (e casos houve em que o comentário foi publicado mais do que uma vez na mesma notícia). Ou seja, na intervenção foram inseridos cerca de 15 mil comentários" em vários jornais e em sites na internet.


AFASTAR FRASES NEGATIVAS

O chefe máximo da Setestrelas não assume a elaboração dos relatórios pessoais sobre Francisco Balsemão e Ricardo Costa, apesar de parecer evidente que o estilo é o mesmo de outros documentos alegadamente produzidos para a Ongoing.

Neles misturam-se dados públicos com rumores que correm na internet e análises de reputação do presidente da Impresa e do director do ‘Expresso’.

No processo consta, porém, um outro relatório relativo a notícias sobre a vontade de a Ongoing concorrer à privatização da RTP. Esta "intervenção" ocorre entre 21 Maio e 15 de Junho de 2011, mantendo-se "em curso" à altura da apreensão do relatório pelo Ministério Público.

Os agentes da Setestrelas falam da acção quase como se se tratasse de uma batalha naval, em que enfrentam um ou mais grupos adversários que procuram inserir comentários contrários à privatização da RTP, a que a Impresa de Balsemão se opõe publicamente.

Dizem os relatores da empresa que há casos "em que a mesma frase" dos adversários "é reinserida dentro do comentário logo que quem a coloca detecta que a mesma perdeu visibilidade". Este facto, prosseguem, "exigiu novas intervenções" da Setestrelas "sempre que o mesmo sucedeu".

Segundo os autores, "isto revela da outra parte um acompanhamento permanente do ‘trabalho’ que está a ser realizado". O que, insistem, os obrigou também a uma "monitorização permanente" no sentido de afastar as frases negativas das caixas de comentários de jornais e sites na internet.


O FAVOR PEDIDO PELO PRESIDENTE DA ONGOING

A 22 de Julho de 2011, o superespião envia um SMS ao jornalista Nuno Simas a felicitá-lo por ter sido nomeado director-adjunto da Lusa. Adensa-se o mistério com nove mensagens trocadas a 2 de Agosto sobre as audições parlamentares a que Silva Carvalho iria ser sujeito. A 7 de Agosto, é Simas que pede a Silva Carvalho uma entrevista.

A última mensagem em que se refere o nome de Simas é enviada por Nuno Vasconcellos a Silva Carvalho a 27 de Agosto de 2011, o dia em que é noticiado que o jornalista foi espiado pelo espião. O patrão da Ongoing diz a Silva Carvalho que seria bom que Nuno Simas afirmasse que há traidores no SIED e que foram eles que "bufaram" a informação interna e o segredo de Estado para o exterior das secretas.

"O SEU AMIGO ESPIÃO TEM-NOS NO SÍTIO"

Quantos são eles? Aposto que nenhum sabe do que está a falar." A mensagem enviada do telemóvel do superespião Jorge Silva Carvalho foi recebida a 2 de Agosto de 2011 no aparelho de Nuno Simas, já o antigo jornalista do ‘Público’ tinha sido nomeado, no dia 21 de Julho, director-adjunto da Lusa. Simas e Silva Carvalho falavam sobre um programa de televisão em que diversos jornalistas debatiam nesse dia o então recente ‘caso das secretas’. Um dos mistérios das investigações reside precisamente nas relações muito próximas entre espião e espiado, que remontam pelo menos a 2010.

Relembremos os factos conhecidos: a 27 de Agosto do ano passado era publicada a primeira notícia sobre a chamada ‘lista de compras’ do antigo director do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED) e alto quadro da Ongoing.

A dita ‘lista de compras’ era o registo de chamadas telefónicas do telemóvel do antigo jornalista do ‘Público’, Nuno Simas, entre 19 de Julho e 12 de Agosto de 2010, fornecida a Silva Carvalho por outro agente fiel do SIED. O superespião faz o pedido, desde logo acatado e cumprido, na sequência da publicação, pelo diário da Sonae, de um artigo assinado por Simas sobre o crescente mal-estar que se viveria no interior das secretas.

Ainda em 2010, mais precisamente a 17 de Novembro, Nuno Simas pergunta ao superespião se confirma os comentários que então corriam de que poderia ir para a Ongoing. A 27, são enviados por Simas mais dois SMS, ambos sobre o futuro próximo de Silva Carvalho, terminando o então jornalista do ‘Público’ a referir as pressões que terá sofrido para escrever que o ex-director do SIED ia mesmo para a empresa de Nuno Vasconcellos.

Pelo meio, a 18 de Novembro, surge uma outra mensagem de Nuno Simas para Miguel Relvas. Na altura secretário-geral do PSD, o actual ministro reenvia para Jorge Silva Carvalho um SMS que recebeu de Nuno Simas em que o jornalista aplaudia a coragem do espião: "O seu amigo tem-nos no sítio."

Secretas Internet Silva Carvalho
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