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Os segredos de um sorriso

Freitas-Magalhães dedica-se a estudar os segredos do sorriso. As suas investigações ajudam-nos a interpretar sorrisos como o de Mona Lisa ou a perceber que Miklos Fehér não era um homem feliz.
2 de Janeiro de 2005 às 00:00
O sorriso largo de Julia Roberts
O sorriso largo de Julia Roberts FOTO: Jim Ruymen (Reuters)
As mulheres sorriem mais que o homens, o sorriso fechado é considerado um sorriso mais afectivo e há tendência para sorrir mais para as pessoas da nossa raça. São algumas das conclusões do psicólogo Freitas-Magalhães, de 39 anos, director do Laboratório da Expressão Facial da Emoção (FEELab), do Instituto Superior de Ciências Educativas de Felgueiras.
Freitas-Magalhães é o primeiro e único português que se dedica a estudar o sorriso – mais concretamente o sorriso no contexto das expressões faciais da emoção.
Entre as investigações efectuadas até agora, o professor apercebeu-se de que existem vários tipos de sorriso: fechado, que esconde os dentes, sem alterar muito a fisionomia do rosto; superior, em que apenas se mostram os dentes de cima; e largo, quando os lábios deixam ver os dentes.
MULHERES SORRIEM MAIS
“Notei que os investigadores se preocupavam em estudar apenas a parte morfológica do sorriso. A mim, o que motivava era poder responder à questão ‘para que serve?’” E hoje a resposta é: “Serve para muita coisa, inclusive para dissimular muitos dos nossos comportamentos, como situações de tristeza ou embaraço.”
Outra das conclusões a que o psicólogo chegou nas suas investigações foi que as mulheres sorriem mais que o homens, embora as razões para o fenómeno não sejam claras.
“Elas partem do pressuposto que se não o fizerem – e isto está iminente à condição feminina – socialmente vão ser consideradas desagradáveis. E a mulher tem muita propensão para querer agradar. Por isso, sorri”, explica. O homem não o faz tantas vezes. “Sorri mais de forma intencional e estratégica, usa-o como sinal de dominação.”
ARMA DE SEDUÇÃO
Muitas vezes, a mulher usa também o sorriso como forma de sedução. Mona Lisa é um exemplo. “O sorriso retratado no quadro de Da Vinci é um sorriso fechado. Este tipo de sorriso pressupõe que não se diz tudo, mantém o mistério, a descoberta. As mulheres são mais sedutoras e por isso exibem muitas vezes um sorriso fechado. No sorriso de Mona Lisa, quase não se vê o movimento muscular, é misterioso.”
O sorriso fechado é também considerado o sorriso que mais traduz a afectividade, uma vez que “quanto mais as pessoas sorriem com um sorriso fechado, mais afectivamente são percepcionadas.” Pelo contrário, um sorriso largo, como o de Julia Roberts – a actriz com um dos sorrisos mais famosos da sétima arte – está mais próximo do riso. “Quanto mais largo, mais alegre é a pessoa.”
A COR DA PELE
E quem já não ouviu falar em sorrisos verdadeiros, falsos ou amarelos? “Um sorriso verdadeiro será aquele que demora muito mais tempo a instalar-se no rosto, isto é, é um sorriso mais espontâneo onde aparecem sempre as chamadas rugazinhas nos olhos. Há uma simetria entre a parte direita e esquerda da face, enquanto que no sorriso falso não existe. Normalmente aparece desconexo, a parte de uma das faces está sempre superior em relação à outra”.
Freitas-Magalhães concluiu que a cor da pele também influencia a interpretação de um sorriso. “Há estudos que atestam que os negros têm preferência na percepção pelos negros e os brancos pelos brancos, isso já sabíamos. O que não sabíamos era que isso valia para a questão da variável sorriso que introduzi.”
Tendo como objecto de estudo portugueses e cabo-verdianos, o psicólogo detectou que o sorriso pode ser considerado mais afectivo por parte de um negro quando é um outro negro a emiti-lo. De acordo com o especialista, isto tem a ver com a perspectiva da pretensão a determinado grupo. “Há propensão de valorizar mais o endogrupo (o nosso próprio grupo) do que o exogrupo (grupo de fora).” Neste ponto, também existe distinção entre sexos, ou seja, são mais as mulheres que são influenciadas pela situação da cor da pele do que os homens. “Tem a ver com o facto de elas valorizarem mais o sorriso”, explica.
Outra curiosidade ainda é o facto de o sorriso acompanhar a pessoa, ou seja, nasce, desenvolve-se e morre. Aparece desde cedo no rosto da criança, acentua-se na fase reprodutiva e rareia na velhice. Aliás, o sorriso é inato. Segundo Freitas-Magalhães, as justificações são várias. “Hoje já é observável através das ecografias de três dimensões que o bebé sorri. Depois, uma das evidências é que os nados-cegos, que nunca viram um sorriso, sorriem. Portanto, o sorriso só poderia ser inato. Enquanto que o riso só aparece por volta dos três quatro/meses, é iminentemente social.”
PERGUNTAS A... FREITAS-MAGALHÃES (psicólogo)
Quando é que começou a interessar-se pelos sorrisos?
Tudo começou por causa da minha mulher. Ela tem um sorriso largo e aberto, e isso chamou-me a atenção para o sorriso das outras mulheres. Na comparação que fazia entre os sorrisos das mulheres e dos homens notei também que eram diferentes. Isso levou-me a ser aquilo que costumo chamar um curioso (cientificamente falando) pelo assunto.
Qual foi o ponto de partida dos seus estudos?
Fiz aquilo que considero sempre necessário numa análise científica que é a revisão da bibliografia. Verifiquei que não havia nada em Portugal sobre o assunto – embora existissem algumas publicações a nível internacional. Mas, sobre o sorriso propriamente dito, desde o século XVIII até agora há muito poucos artigos científicos a nível mundial. Por conseguinte, ainda mais curioso fiquei. Mas se por um lado era complicado estudar o sorriso, porque não tinha uma base, por outro achei que seria um filão inesgotável.
E foi por essa razão que limitou o estudo?
Dediquei-me a estudar o sorriso sempre no contexto das expressões faciais da emoção, dado que o sorriso faz parte da expressão facial, é um dos mistérios que ainda hoje alimenta alguns cientistas a nível mundial.
É o primeiro e único psicólogo que se dedica ao estudo do sorriso em Portugal.
Sim, mas ser único levanta-me uma responsabilidade acrescida. Por outro lado faz com que eu tenha também a responsabilidade de incutir na comunidade científica o gosto por estudar as variáveis do sorriso. A problemática do sorriso é analisada em Portugal só e apenas no Laboratório da Expressão Facial da Emoção (FEELab), em Felgueiras, que fundei em 2003.
Já fez estudos sobre sorrisos verdadeiros e sorrisos falsos, sobre sorrisos em raças distintas, o que se segue?
Neste momento estou a fazer um trabalho sobre o efeito do sorriso em gémeos. Nós temos sempre um problema quando estudamos a expressão facial, que é controlar a variável rosto. Quando estamos a sorrir não podemos dissociá-lo do nariz, dos olhos, do rosto em geral. O que eu tento fazer é isolar o sorriso, isto é, estudar só a parte do sorriso em si, o movimento que está subjacente à expressão sorriso.
Como?
Só posso fazê-lo de duas formas: ou o controlo através dos programas informáticos, através de duas imagens iguais mudando apenas a parte muscular, ou através de uma forma natural utilizando aquilo que à partida vai controlar mais a face – o facto de serem pessoas semelhantes, isto é, gémeos. Vou ver se há ou não efeito de sorriso nos gémeos, isto é, se as pessoas acham que o tipo de sorriso é diferente entre os próprios gémeos. Isto é muito curioso. No mundo, não há trabalhos sobre isto.
As pessoas têm receio de sorrir perto de si?
Ah, sim têm algum receio, pensam logo que já estou a analisá-las, mas nem sempre é verdade.
"FEHÉR NÃO ERA FELIZ"
Um dos estudos efectuados por Freitas-Magalhães debruçou-se no famoso sorriso de Miklos Fehér. Pouco antes de morrer vítima de uma paragem cardiorrespiratória no relvado do Estádio D. Afonso Henriques, a 25 de Janeiro de 2004, o jogador do Benfica – que naquela noite defrontava o Vitória de Guimarães – esboçou um sorriso.
Após a sua morte, este último sorriso suscitou comentários variados, como ‘morreu feliz’, ‘ficou-nos o sorriso do atleta’. Este facto levou Freitas-Magalhães a estudar o sorriso de Miklos Fehér.
“Analisámos um conjunto de fotografias – 80 no total (situações sociais, de jogo) – para perceber que tipo de sorrisos Miklos Fehér exibia mais”. Observou-se que o sorriso mais esboçado pelo atleta era o fechado. “Atendendo ao facto de considerarmos que quanto mais largo é o sorriso mais perto a pessoa está de ser alegre e feliz, significa que no universo daquelas fotografias Miklos Fehér não era uma pessoa extremamente feliz, não apresentava um comportamento alegre”.
De acordo com o especialista, esta conclusão vem contrariar uma outra teoria. “Geralmente, na idade reprodutiva, na idade jovem – aquela em que ele se encontrava –, as pessoas sorriem mais frequentemente.”
Freitas-Magalhães coloca, contudo, a hipótese de esta conclusão estar associada ao facto de Fehér ser uma pessoa de Leste, ou seja, “de um local onde as pessoas têm propensão para não serem tão esfusiantes.”
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