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Os senhores das Selvagens

É antiga a disputa pelas ilhas portuguesas, hoje consideradas um santuário da natureza
22 de Setembro de 2013 às 15:00
Os senhores das Selvagens
Os senhores das Selvagens

Francis Zino tem uma casa na Selvagem Grande. O médico, de 70 anos, é dono da única construção particular existente naquele subarquipélago, situado a 250 quilómetros da Madeira, e, como tal, não compreende a questão levantada por Espanha, que entregou na ONU um documento a justificar que aquelas ilhas atlânticas mais não são do que rochedos. "Para mim não há dúvida, são ilhas povoadas, pago o IMI", avança este apaixonado pela fauna e flora locais.

Ao valor "único" da natureza soma-se a vantagem que estas ilhas dão a Portugal, pois garantem a maior Zona Económica Exclusiva de um país europeu. Na imprensa espanhola, a soberania portuguesa não é discutida – foi confirmada inequivocamente em 1938 pela Comissão de Direito Marítimo Internacional –, mas sim a qualificação das Selvagens. Um artigo publicado no ‘El País’ discute o que está em causa: a exploração de 200 milhas marítimas ou apenas 12 milhas como Espanha reivindica ao chamar rochedos às ilhas. A verdade é que é antiga a disputa por este território, que durante anos foi ignorado por muitos.

PAIXÃO PELA ILHA

Por estarem mais perto do arquipélago das Canárias do que da Madeira, as Selvagens sempre foram cobiçadas pelos espanhóis, que em 1911 evocaram direito às ilhas. Nessa época eram ainda propriedade privada da família madeirense Rocha Machado, que as comprara aos herdeiros do primeiro morgadio. E assim continuaram durante anos, até que Alexandre Zino, descendente de italianos comerciantes em Gibraltar e radicado no Funchal, passou por lá de iate e se interessou por elas.

Em 1957, Zino integrou a expedição oficial, com cientistas franceses e o diretor do Museu da Madeira. O filho, Francis, tinha então 20 anos e acompanhou a viagem com a missão de "ajudar os cientistas e arranjar comida, pois havia 26 pessoas a bordo do ‘Persistência’, embarcação da empresa de baleias" em que seguiam. Desde então, o médico alimenta a certeza de que é possível viver na ilha.

"Nessa altura havia bastante peixe e em terra coelhos", os quais foram erradicados em 2003 para proteger as espécies endémicas. Na ilha já foram também cultivadas espécies vegetais e cereais, como o provam a existência de muros de pedra. E se hoje não tem mais gente, isso deve-se "à presença da ciguatera, neurotoxina, produzida por uma alga, que não tem efeitos no peixe mas pode matar os humanos", conta Zino.

Por precaução, a pesca está proibida até aos 200 metros e isso, garante, tem salvado as Selvagens da cobiça da coroa espanhola. "Se eles até anunciaram um campeonato de pesca submarina na Selvagem Pequena? Imagina-se Portugal fazer o mesmo numa reserva espanhola?", questiona.

RESERVA

Desde 1976, quando foi criada a Reserva Natural, as Ilhas Selvagens estão sob a gestão do Parque Natural da Madeira. Para entrar na Selvagem Grande, Zino pede autorização oficial, como todos os que lá querem aportar. "Eu estava lá antes deles [risos], mas insisto em fazer o pedido formal e dizem sempre que sim", conta.

Paulo Oliveira, diretor do Parque Natural da Madeira, explica que "o regime de autorizações é bastante flexível" e "se alguém for até às Ilhas Selvagens sem autorização, os vigilantes que desde 1976 estão em permanência no local podem credenciar as pessoas".

As visitas aumentaram nos últimos anos. "São ilhas com um património natural extremamente importante, quer no mar quer em terra, e cativam os cientistas. As Selvagens têm sempre, quase ininterruptamente, um cientista a fazer trabalho, quer a nível da geologia, da fauna, da flora, da terra. E no verão há imensos projetos de estrangeiros e nacionais", explica o biólogo. O crescimento do interesse pela natureza também leva "todos os anos uma embarcação de turismo científico que passa pelas Canárias, Selvagens, Desertas e Madeira. Esse tipo de turismo existe, mas o preço faz com que seja ainda um nicho", acrescenta. E a dificuldade de chegar às ilhas também afasta os simples curiosos.

"A baía das Cagarras não é dos melhores ancoradouros", frisa Zino. "Está virada para sudoeste, pelo que quando se apanha temporal, entra por ali adentro. Lembro-me que o velho Almada, que cuidava da ilha nos anos 60, ficou lá preso 154 dias, e tiveram que lhe atirar comida de avião", conta.

Por esse motivo, as viagens são geralmente asseguradas pela Marinha e a aproximação às ilhas de pessoas sem autorização "tem sido sempre pacífica, exceto com as embarcações semirrígidas espanholas, que fazem pesca ilegal", nota Paulo Oliveira, que registou quatro incidentes em 2012 e dois em 2013.

LENDAS E TESOUROS

Para já, ninguém sabe o valor certo daquele local nem o que existe abaixo dos quatro mil metros de profundidade, ainda que se suspeite de jazidas de minérios e dos valores naturais do mar. Mas há também quem recorde a lenda do pirata Kidd, que terá enterrado nas Selvagens um fabuloso tesouro pertencente à catedral de Lima, no Peru.

Francis Zino, como muitos outros, defende que o valor das Selvagens está na sua natureza. Sublinha a existência das espécies endémicas, a osga (Tarentola boettgeri bishoffi) e a lagartixa (Lacerta duguessii) e o facto de "a Selvagem Pequena e o Ilhéu Pequeno serem ilhas virgens no Atlântico, as únicas que não foram habitadas e colonizadas por homens, e por isso manterem a evolução em estado natural".

No entanto, se o local é hoje um paraíso para cientistas de todo o Mundo isso deve-se à persistência dos franceses Christian Jouanin e Francis Roux, que acicataram o interesse de Alexandre Zino: "Voltavam todos os anos e faziam novas expedições", frisa Francis.

Em 1967, o médico seguia a bordo do iate do pai quando a eles se juntaram Fino Menezes e João Rodrigues, que detinham a licença de caça da cagarra. Queixavam-se, já na época, "da aproximação dos espanhóis das Canárias, que tiravam ovos e caçavam aves, e, desapontados, decidiram não renovar a licença", conta. Alexandre Zino "comprou então o direito de caça para a proibir e fez das ilhas uma reserva antes de alguém pensar nisso".

MALUCOS DA NATUREZA‘

Nessa época, recorda Francis, "estar interessado na conservação da natureza não estava na moda. Achavam que éramos um bando de loucos, mas nunca desistimos". Determinado a defender a ilha, Alexandre Zino construiu uma casa simples, com 48 m2, e em 1971 entregou uma proposta para comprar a ilha a Luís Rocha Machado por 1500 contos. "Era quase um preço de brincadeira, mas quando o meu pai assinou o contrato de promessa de compra e venda um jornal de Lisboa escreveu que a intenção era fazer uma base de submarinos e o Estado português exerceu o direito de opção."

Os Zino continuam a ir. Mesmo quando em 1976 lhes vandalizaram a casa. "Só deixaram os muros, mas acabou por ter um efeito", conta Francis. "O meu pai chamou a televisão, falou do interesse na conservação da ilha e isso deu início à Reserva Natural criada pelo Estado."

Na próxima expedição, Francis quer levar o mais velho dos quatro netos. "Tem nove anos e foi com essa idade que levei o meu filho." A herança vai ser perpetuada na família, acredita Francis. A filha, que trabalha em Hong Kong numa empresa de impacto ambiental, e o filho, casado e pai de três rapazes e de uma rapariga, adoram a ilha.

PRESIDENTE DA REPÚBLICA FICOU NA CASA DOS VIGILANTES

Em junho, Cavaco Silva tornou-se no primeiro Presidente da República Portuguesa a pernoitar nas Selvagens, depois de Mário Soares e Jorge Sampaio já terem visitado as ilhas. Ficou instalado na Casa dos Vigilantes, construída em 1982, que tem quatro quartos, televisão com antena parabólica e linha telefónica.

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