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Os sobreviventes da lagoa

Em 1963, 17 homens perderam a vida na lagoa de Santo André, de frente ao mar, a um passo de terra
13 de Janeiro de 2013 às 15:00
António e Francisco Chainho, Luís Pereira, Joaquim Andrade e Hermínio Mendes na lagoa
António e Francisco Chainho, Luís Pereira, Joaquim Andrade e Hermínio Mendes na lagoa FOTO: Mariline Alves

"Lembro-me de tudo. Naquele dia estava no barco, a meter redes, e por isso ganhava mais um quinhão do que os outros. Quando o mar veio, com força, não pensei que fosse fazer o que fez. Eram 16h30. A onda bateu na barreira de areia, voltou para trás e ao dobrar derrubou os homens, que foram cair na lagoa. A água fez remoinhos, a espuma era muita. Alguns deitaram a mão ao barco, muitos ficaram nas redes. Eu tive sorte, cai à água e fui o último a sair dali vivo", recorda Joaquim Andrade, 78 anos.

A 9 de janeiro de 1963, eram mais de 100 as pessoas que se encontravam na apanha de peixe junto à lagoa de Santo André. Estava aberta a pesca aos 80 profissionais da terra e a quem mais quisesse tentar a sorte e no areal da costa alentejana havia gente de todas as idades. Na lagoa, dois barcos vigiavam, um servia para lançar as redes, outro para apanhar o peixe. Subitamente, uma onda maior cobriu tudo. Os mais novos, de oito, nove, 11 anos, fugiram o mais depressa que os pés descalços permitiram. O mais velho, de 79 anos, foi um dos que não resistiu à fúria da água.

A onda entrou na lagoa, varreu as margens e, a pouco mais de uma braçada de terra, tirou a vida a 17 homens. Passados 50 anos sobre o dia da tragédia, a terra recorda a data – que marcou também o princípio do fim da comunidade piscatória local.

ÍNDIOS DA COSTA

À época a lagoa era arrendada à família/empresa que pagasse mais ao Estado. Os pescadores recebiam à percentagem sobre o que pescavam, "em dias bons chegavam aos 50 escudos" (25 cêntimos) e havia fartura. Dizem os mais velhos que a lagoa chegava a dar cinco mil quilos de enguia por dia, que se apanhava sargo, linguado, robalo e tainha à mão e que por vezes até aparecia cação, caçado com um simples arpão. Nesses anos, havia um posto de alfândega, espécie de lota, que controlava no local o que se pescava. Toda a gente trabalhava e a lagoa era o sustento de muitos que, durante o inverno, ali encontravam o que a terra não dava.

As famílias que ali viviam nos anos 1960 eram as mesmas que em meados do século XIX deixaram a ria de Aveiro em busca de melhor mar. Levaram consigo a arte xávega e muita valentia. E fixaram-se na costa alentejana, naquela língua de terra virada de frente ao oceano atlântico e de lado às águas calmas da lagoa. Em 1963, existiam na lagoa de Santo André duas casas de alvenaria. As mesmas que ainda hoje lá estão, com janelas de onde se avista o mar. As outras construções eram simples cabanas de colmo, mais de cem, que serviam de casas aos pescadores e onde funcionavam também uma taberna, um restaurante, um posto para a escola e um salão de baile.

"Chamavam-nos índios e até era um bocado verdade. Vivíamos em barracas, mesmo em cima da duna, aprendíamos a nadar sozinhos, uns com os outros, fugíamos da escola quando havia peixe, e depois começámos a fazer o verão em Sines e o inverno aqui", conta Luís Pereira, 68 anos, reformado de uma vida ligada ao mar.


De olhos fixos no horizonte, e o sorriso ponderado de quem já viu muito, recorda o dia em que se salvou das águas da lagoa. "Tinha 18 anos, fazia parte da equipa que estava no barco a puxar as redes. Quando me apercebi, já ela [a onda] estava em cima. Fiquei ali, como que colado, custei a avaliar. Até que caí à água e aí é que tirei as botas e comecei a nadar", conta.

Luís Pereira não esquece a luta que travou para sair da água. "Houve um que me agarrou na cabeça e me levou ao fundo. Esbracejei, sacudi a cabeça e soltei a boina. Ele ficou lá. Ainda hoje penso que se me tem agarrado no pé, salvávamo-nos os dois porque eu trazia-o para terra". Luís nadava "que nem peixe". Mas nem todos dominavam a água: "Uns nadavam bem, outros não. Havia muitos que não eram pescadores profissionais… O meu pai morreu nesse dia, era um homem do campo".

CORRENTE DE AMOR

Os irmãos Chainho, Francisco, António e Armando, estavam os três na lagoa, a 9 de janeiro de 1963, junto com o pai, tios e outros familiares. António tinha 15 anos no dia do acidente e recorda as forças sobre-humanas que o ajudaram a salvar o irmão mais velho, então com 18.

"Estava no barco que recebia o peixe, deixei entrar 15 pessoas, mas não dava mais. O último foi o ‘tio António Mouco’, e nós, de frente ao mar, puxa, puxa… Tínhamos de subir a onda para voltar a descer. Isso é que nos podia salvar das forças da água", conta. António chegou a terra e ao olhar a lagoa viu o irmão Armando à distância. "Nem pensei. Tirei a roupa, atirei-me à água, nem me lembro se estava fria. O meu tio meteu-me o remo debaixo do braço e vim assim… Naquele tempo a lagoa era muito funda, tinha mais de seis metros de profundidade, havia fundões, e o meu irmão já estava muito mal."

Francisco Chainho, o mais novo do clã, lembra-se de ver o irmão mais velho "roxo, da cor do vinho. Desmaiou três vezes até chegar a casa". Pela parte que lhe toca, salvou-se, garante, por ter muito pouco. À época, umas botas para entrar no mar e a capa de oleado, feita pelas mães, eram os maiores bens a que os aspirantes a pescadores podiam almejar. Francisco, "aos 12 anos, andava descalço, com pouca roupa. Quando vi aquela onda, tive uma fração de segundo para reagir. Disse aos que estavam comigo para fugirem. O meu primo Jacinto José tinha as botas do pai, grandes, não as quis descalçar… Ficaram pesadas, cheias de água, e ele ficou lá".

Francisco e o primo mais novo, Álvaro, correram, ambos descalços, para onde as forças os levaram. Sempre com a água atrás, como que a morder. "Só pensávamos em ir em frente, era o salve-se quem puder. Quando chegámos a local seguro, olhámos e vimos o barco que levava a rede já inquinado de popa. Víamos a espuma, e mãos e braços de fora, homens a esbracejar. Aquilo que ali bateu foi uma onda sobreposta, forte, com muita água." O drama, lembra Chainho, ainda "durou muito tempo. Passámos a noite a tentar recuperar os corpos" e foram quatro os resgatados na manhã seguinte. Naqueles dias, os velórios faziam-se em casa e a comunidade não resistiu ao luto.


VIDA DE RISCO

Quis a sorte que a família de Hermínio José Mendes fosse a única a não chorar um morto a 9 de janeiro de 1963. "A verdade é que arriscávamos muito", avança o pescador reformado, 64 anos de vida, 14 no dia do acidente.

Nesses anos, "as ondas grandes eram normais". A lagoa estava quase sempre aberta ao mar e "quando havia maré cheia não se sabia o que era água do mar e o que era da lagoa". Naquele dia "surgiram centenas de quilos de enguias, havia muita gente satisfeita, brincávamos com o mar, metíamos caranguejos nas botas uns dos outros". Hermínio era novo e logo nessa manhã pôs a vida em risco. "Fui cedo para a praia, porque sabia que havia peixe. Às 11h00 surgiu uma onda ainda pior, mas estava menos gente na praia. A onda da tarde apanhou os que estavam a pé, ficaram nas redes. Se não fosse isso muitos não teriam morrido. Era rede de traineira, forte…", lamenta.

Carlos Manuel Andrade, 61 anos, gosta pouco de evocar o heroísmo, apesar de ser um homem do mar. Andou na pesca na Terra Nova, passou 15 anos nos Açores e fixou-se de novo na lagoa, como proprietário do restaurante Chez Daniel, a funcionar no espaço inaugurado em 1925 pelo seu avô. Era, em 1963, um garoto de 11 anos, destacado na notícia do jornal ‘O Século’ por ter a coragem que faltou a alguns homens. Destemido, juntou-se a António Faustino, da mesma idade, e os dois lançaram um barquinho à água para ajudar quem subia à tona.

"Estava a chegar à última barraca da praia, ia levar as botas ao meu irmão, que andava a pescar, quando vi passar o mar e as pessoas aflitas. Era costume surgirem ondas, mas não assim tão grandes." A inocência da idade levou-o a fazer tábua-rasa do perigo. "Vimos um barco pequeno, tirámos as redes e fomos lá, ao meio da lagoa. Ainda salvámos um, o Joaquim ‘Caniço’", lembra, com sorriso tímido.

CHAMAMENTO DO MAR

Depois de 9 de janeiro de 1963, o pai Chainho abandonou a lagoa. Montou casa no interior, em Brescos. Nem assim afastou os filhos do mar. "Íamos e vínhamos todos os dias de bicicleta", lembra António, que fez a tropa em Angola, emigrou para a Holanda – onde trabalhou nas embaixadas do Brasil e da África do Sul – e em 1991 regressou à lagoa. "Quis voltar a pescar e foi-me negada a licença. Mais tarde foi-me concedida, porque sabiam que eu era de cá. Fiquei aqui quatro anos, agora estou em Vila Nova de Milfontes, mas quero voltar."

Joaquim Andrade, o mais velho, nunca deixou de investir no mar. Tal como outras famílias, a sua – apesar de abastada, com os lucros ganhos como arrendatários na lagoa de Santo André e na casa de alvenaria na terra – também se mudou para Sines.


O mesmo destino seguiu Luís Pereira. Em 1963, após a tragédia, foi chamado a trabalhar nos terrenos do pai e desse ano diz ter sido "o pior" da sua vida. "A pesca é dura, mas temos sempre dinheiro nos bolsos. No campo, fazemos tudo, semeamos, ceifamos, colhemos e só quando temos os produtos é que ganhamos algum dinheiro, se conseguirmos vender. Não nos falta de comer, mas é trabalho de sol a sol." Feita a tropa, voltou ao mar, andou na pesca do bacalhau, fixou-se em Sines, esteve 40 anos na lota a ‘cantar o peixe’, diz a explicar como se anunciava antes a chegada do pescado.

Hermínio e Francisco nem pararam para pensar. Mantiveram o jeito e o sonho da infância de se fazerem homens do mar. Esse amor podia ter custado caro a estes sobreviventes que anos mais tarde sentiram de novo um sopro junto ao peito na costa de Sines.

"Foi em 1970, sofremos um vento ciclónico, em que perdemos a embarcação, que era do Joaquim Andrade. Quase morremos juntos na costa", diz Luís Pereira . Desse naufrágio, recorda Francisco Chainho que se atirou para a água, nadou em direção a terra e ainda ficou "um pouco no mar, a ver o ambiente. Aquilo era ao mesmo tempo um acontecimento trágico e bonito". Hermínio Mendes garante que nesse dia, tal como antes, não ficaram lá "por acaso. A vida no mar, quem a dita é o destino".

UMA RESERVA ECOLÓGICA NA COSTA ALENTEJANA

Junto ao mar, a lagoa de Santo André integra a reserva natural criada em agosto de 2000. Separada do Atlântico por um cordão de dunas, a lagoa é alimentada por seis ribeiras, com uma superfície que pode atingir os 350 ha no inverno. A abundância de sardinha no mar e de enguia e outro peixe na lagoa estabeleceu as populações no local. Neste momento, existem ali 30 pescadores.

"A pesca na lagoa de Santo André é regulamentada pela Portaria n.º 86/2004 (2.ª série), de 8 de janeiro", que "define uma Zona de Pesca Profissional, proibindo a pesca profissional e desportiva na restante área da lagoa, nomeadamente nos poços", referem os dados do Instituto da Conservação da Natureza.

Localizada em zona de clima subtropical, mantém temperatura amena. O mar apresenta-se, regra geral, mais revolto do que o do Algarve, com ondulação de cerca de 2 m. Em época de chuva, podem ocorrer temporais com ondulação até 10-15 m.

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