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Os terríveis medos de que eles não falam

Quem olha para eles respira a confiança que exalam. Seguros no seu pedestal, mostram-se à vontade com quase todos os problemas que lhes fazem afronta e sorriem de peito feito às pequenas adversidades do dia-a-dia. A aparência é cuidada e a tranquilidade é imagem de marca.
18 de Março de 2007 às 00:00
Em muitos casos, quase convencem as mulheres de que o dia só fica realmente estragado quando a cerveja acaba exactamente a meio de um jogo de futebol, transmitido na televisão, entre as duas maiores equipas nacionais. Nada mais enganador.
Quando alguém pergunta a um homem o que mais o assusta, a tendência natural é cair nas frases feitas e escolher o óbvio. Uma reacção natural de quem tenta, a todo o custo, camuflar os seus receios mais íntimos. E como são poucos os que assumem a realidade, a revista ‘Men’s Health’ traçou os 15 medos que aterrorizam o sexo masculino.
Caem os primeiros fios de cabelo e o homem começa logo a idealizar a sua imagem mental, com mais 10 anos e uns bons quilos em cima. É o primeiro sinal de pânico.
Na maioria dos casos, todos sabem que não se trata de perder a virilidade ou o sucesso alcançado, admitem que existem muitos outros homens com o mesmo problema, sentem que as mulheres até nem se importam, mas é o peso da mudança incontrolada e inevitável que lhes começa a tirar horas de sono.
Para Américo Baptista, director do Departamento de Psicologia da Universidade Lusófona, “o principal receio dos homens é falhar o seu sucesso profissional”. “O aspecto fundamental não passa por ser atraente, mas ter um estatuto social, um bom carro e mostrar uma boa casa aos amigos”, garante o especialista. Para o psicólogo, “começa a existir uma preocupação com a aparência, fenómeno recente, mas o mais importante continua a ser estatuto”.
Sob o manto negro que os homens usam para encobrir os seus receios, Américo Baptista lembra que “os homens são educados para manter a sua emocionalidade”. “Dar sinais de fraqueza não faz parte daquilo que lhes é ensinado”, sublinha.
David Baptista é solteiro, tem 25 anos e pouco se preocupa com os pequenos percalços que podem condicionar a sua aparência. Alto e esguio, garante que a queda de cabelo não é preocupação – afinal, nunca teve antecedentes na família – e engodar uns quilinhos até nem lhe fazia mal.
Com prontidão na resposta, revela o receio que mais o atormenta: “Um dos meus maiores medos é ficar impotente a partir de certa idade”, admite entre risos. Em público nunca se sentiu humilhado, mas há alturas em que sente algum incómodo com as brincadeiras dos amigos. “Nunca me senti exposto, mas quando começam aquelas bocas foleiras há momentos em que fico retraído.”
"A VELHICE DEVE SER UMA TRISTEZA "
Apesar de dedicar bastantes cuidados à imagem, a aparência não é o que mais o preocupa. David sente que o peso da idade é bem mais assustador do que algumas rugas no rosto, até porque, confessa, “a velhice deve ser uma tristeza”. “Outro dos meus maiores medos é ficar sozinho”.
Quando olha para a maldosa lista feita pela referida revista, Luís Monteiro, casado e já quase a cruzar a barreira dos 30, sorri para esconder o embaraço. No aglomerado de palavras acabou por dar de caras com algumas das coisas que mais o intimidam. A perda do pai e encarar a responsabilidade de passar a ser o patriarca da família é o que mais o assusta. Quando se sente mais à vontade, afirma que “pensar que ele podia deixar de estar ali ao lado seria dramático”.
Sobre a aparência, Luís desvaloriza a importância dada à queda de cabelo e às transformações na fisionomia, até porque “são um fenómeno natural, que não podemos controlar”.
Mas quando lhe perguntam se o incomoda ver uma mulher chorar ou se fica sem reacção perante uma mulher bonita, o jovem não encontra maneira de esconder a realidade. “As mulheres bonitas são intimidadoras”, confessa. O vacilar perante a beleza, diz Luís, “é o reconhecimento completo de que somos manipulados sem sequer darmos por isso”.
Foi na tentativa de satisfazer os desejos da mulher que sentiu um dos maiores pesadelos vividos até hoje. “Empenhei-me para lhe oferecer uma prenda, com toda a dedicação e amor, mas acabou por ser a maior frustração da minha vida. Fiquei desolado com a cara esquisita que ela fez quando a abriu.”
Sobre a necessidade de satisfazer sexualmente a parceira, Luís lembra que “é por existir cumplicidade entre o casal que existe a preocupação de dar tanto prazer quanto o que temos”. Até porque, neste tipo de situações, “os homens vão pela estrada mais a direito, mas a mulher tem de percorrer vários caminhos até chegar finalmente ao destino”, diz em tom de brincadeira.
Para o sociólogo Luís Reto, “o problema da virilidade e o receio de perda da afirmação masculina” são dos elementos que mais fragilizam o sexo masculino, porque “estão muito ligados à definição do próprio género”. Sinal dessa influência acaba por ser a importância dada a alterações como a queda de cabelo ou as mudanças físicas.
MANUAL DE INSTRUÇÕES
Há quem diga que as mulheres deviam vir acompanhadas com um manual de instruções, mas os comportamentos dos homens acabam por ser também um desafio ao imaginário feminino. O Brasil é um dos países onde homens e mulheres falam um pouco mais abertamente sobre o tema.
Para facilitar a tarefa, o jornalista brasileiros e autor de vários livros sobre relacionamentos, Marcelo Puglia, escreveu um obra muito a propósito: ‘Manual de Instruções dos Homens’. Com uma dose larga de bom humor à mistura, o autor dedica capítulos inteiros aos medos masculinos. Segundo Marcelo Puglia, os receios vão desde a dificuldade em assumir um relacionamento até ao pavor de cair no desemprego.
Outros dados da lista de receios:
OLHAR
Olhar outra mulher é instintivo, mas os homens temem ser apanhados.
CHORO
Choro da companheira deixa o homem de mãos e pés atados. Sentem que, se agirem, só pioram a situação.
DINHEIRO
Para sustentar a família torna-se essencial para o homem.
NUDEZ
Mostra estragos da idade. Despirem-se sem saber o que a mulher vai achar é factor de insegurança.
MORTE
O receio de ver a vida interrompida, não ver os filhos crescerem e não estar presente para os proteger é muito assustador para a maioria dos homens
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