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Correio da Manhã

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“Os tiros que dei foram esporádicos”

Um nefasto acontecimento pôs de rastos o moral da companhia: um camarada, robusto soldado transmontano, faleceu electrocutado
21 de Agosto de 2011 às 00:00
Num Unimog no aquartelamento de Tôto, antes da partida para uma operação no Luaia
Num Unimog no aquartelamento de Tôto, antes da partida para uma operação no Luaia FOTO: Direitos reservados

Integrado na Companhia de Caçadores 2693, desembarquei em Luanda a 23 de Abril de 1970 para uma comissão de dois anos que acabaria de ser por 27 meses e cinco dias. Chegados a Luanda, permanecemos no Campo Militar do Grafanil durante cinco dias, seguindo depois em coluna para o Bembe, no Norte, mais precisamente para a Missão Católica do Bembe, transformada em quartel. Volvidos 13 dias, fomos surpreendidos por um nefasto acontecimento que pôs de rastos o moral da companhia: um camarada nosso, um soldado transmontano de nome João Alfaiate, faleceu electrocutado.

A MISSÃO

O resto do tempo que passámos nestas paragens foi, pode dizer--se, mais de paz do que de guerra pois a nossa missão baseava-se essencialmente em reconhecimentos da zona que nos estava atribuída e operações. Fazíamos também a segurança das colunas, de companhias de engenharia militar, à JAE na reabilitação de estradas e ainda a protecção dos civis na apanha do café.

Neste capítulo, na manhã de 4 de Julho de 1970, tivemos o primeiro contacto com a guerra, quando um grupo de guerrilheiros atacou uma fazenda de café matando 19 homens e deixando feridos outros tantos, fugindo quando se aperceberam da nossa proximidade. Precisamente um mês depois, a 21 quilómetros das instalações militares, mais uma emboscada, desta vez a uma companhia composta por militares brancos e africanos de que resultou vários mortos e feridos.

Os dias de Natal, de Ano Novo, de Carnaval e aniversário de comissão foram sempre de festa, se bem que limitados à situação que vivíamos. Sempre houve rancho melhorado, onde se cantava e brincava muito, embora o pensamento estivesse muito longe dali, nos nossos pais, nas nossas esposas, noivas e até, nalguns casos, nos filhos.

Em Maio de 1971 um novo acidente volta a ensombrar a comissão, desta feita sem consequências fatais mas com marcas vitalícias para dois camaradas meus, quando uma mina anti-pessoal armadilhada despoletou e feriu gravemente um furriel e um soldado, hoje totalmente restabelecidos.

Os últimos nove meses de permanência em Angola foram passados nas Mabubas, uma pequena vila a 60 km de Luanda onde existia uma barragem que fornecia a energia eléctrica à capital. Esta localidade, onde já se respirava ‘ar civil’ e que até tinha algum comércio, acabou por não ser prémio pelo esforço da minha companhia. Ali o trabalho redobrou. De dia fazíamos as escoltas e a protecção à JAE que procedia à reparação e à repavimentação das estradas num raio de muitos quilómetros; de noite tínhamos os postos de vigilância.

Foi em Mabubas que um camarada meu, ribatejano do Cartaxo, teve a infeliz ideia de "brincar com a guerra" a poucos dias do embarque para a metrópole. Escalado para fazer um quarto de sentinela, inventou uma flagelação à barragem, o que obrigou a uma grande operação de patrulhamento.

Vivi 27 meses uma guerra sem contacto directo com o inimigo. Os tiros que dei foram esporádicos e nunca a nenhum alvo humano mas passei muita fome e sede. Vivi meses no mato e em operações numa guerra desgastante e inútil. Tive também dias de felicidade relativa por via do são convívio entre camaradas.

PERFIL

Nome: Alcides Jacinto

Comissão: Angola, 1970/1972

Força: Companhia de Caçadores 2693

Actualidade: 63 anos, vive em Mafra, e é tipógrafo reformado

 

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