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Os traços de quem desenha a cidade

O movimento urban sketchers reúne pessoas de todo o mundo unidas pelo prazer de desenhar. Retratam ruas, vistas e memórias
21 de Abril de 2013 às 15:00
José Louro é um dos impulsionadores do movimento Urban Sketchers
José Louro é um dos impulsionadores do movimento Urban Sketchers FOTO: Sérgio Lemos

Marcam encontros pela cidade e levam na bagagem cadernos, lápis de cor, canetas ou aguarelas de pastilha, pequenos, “o mais portátil possível”. Encontram-se por todo o Mundo, nas ruas, nos locais onde vivem, nos destinos para onde viajam, e desenham em autocarros, estádios ou jardins. Há quem parta com o intuito único de registar aquilo que vê em diários gráficos, a cores ou a preto e branco, que depois guarda na gaveta ou edita  on-line. A mobilidade é também um conceito que alimenta este movimento. A verdade é que os urban sketchers são artistas diferentes.

Em Portugal, o primeiro país a criar um movimento local, o grupo é heterogéneo. Há muito que passaram a centena. Mário Linhares, 33 anos, e Pedro Cabral, 58, chegam de bicicleta ao Museu da Cidade, em Lisboa, para traçar riscos no jardim onde os espera José Louro, 48 anos. Mário e José são ambos designers e professores, Pedro é arquiteto. Possuem traços e visões do mundo diferentes. O que os une é o imenso prazer de desenhar.

Todos podem desenhar

Nesta amostra todos têm talento, algo que “descobriram cedo, ainda crianças”, mas tal não é exigido para entrar no grupo. Cada pessoa é livre de deixar a sua marca, e no blogue dos Urban Sketchers Portugal uma frase de Jonh Ruskin, intelectual inglês do século XIX, convida todos a aderirem e a aperfeiçoar o traço: “Nunca encontrei ninguém completamente incapaz de aprender a desenhar”, lê-se.

“É mesmo assim”, frisa Mário Linhares. “Qualquer um pode desenhar e nos encontros que promovemos surgem pessoas de todas as áreas, muitas pensam que não sabem desenhar e acabam por conseguir.”

“Em outros casos”, adianta José Louro, “são pessoas que em algum momento já desenharam, muitas vezes na escola, foram abandonando e acabam por ver neste grupo mais informal, onde não há qualquer ideia de elitismo, que muitas vezes  está associada à arte, um espaço para desenhar. Aqui separámos o desenho da academia”, diz. Até porque um dos objetivos é “desmistificar”.

No jardim do Museu da Cidade, Pedro Cabral regista a lápis um vaso de pedra. José Louro desenha os pavões coloridos, antes de traçar a caneta preta o busto que enfeita o jardim. Mário Linhares, mais moroso, pinta com aguarelas o mesmo colo de mulher.

“O desenho leva tempo. Obriga a olhar com atenção e é muito fácil criar uma relação com o lugar”, refere o designer, que transpira tranquilidade enquanto transfere para o papel o que o olhar aprecia.

O desenho sai à rua

Desenhar no local é uma das premissas deste coletivo de autores, que para melhor clarificar o que o move criou um manifesto de oito itens. Desenhar ‘in situ’; contar a história dos locais; fazer dos desenhos registos do tempo e do lugar; ser fiel às cenas presenciadas; usar todo o tipo de técnica e valorizar cada estilo individual; apoiar e desenhar em grupo; partilhar desenhos on-line; mostrar o Mundo, um desenho de cada vez.

  Reportagens gráficas

É a Gabriel Campanario, jornalista catalão radicado nos Estados Unidos, que se deve este movimento. Começou por criar diários gráficos para inovar as suas reportagens para o diário ‘Seattle Times’ e rapidamente as suas peças se tornaram as mais lidas on-line.  Em 2008, o português Eduardo Salavisa entrou na ligação internacional e em Março de 2009 lançou o Urban Sketchers Portugal, “por o blogue internacional ter mais de cem membros e não poder aceitar novos elementos”, conta Mário Linhares, um dos responsáveis pela organização da página nacional.

Virada para a promoção de encontros e workshops, a base dos urban sketchers não tem fins lucrativos. “É claro que o grupo também integra pessoas com uma visão mais profissional, há ilustradores que viajam com o propósito de editar os seus diários, mas geralmente, quando partimos para desenhar, não temos essa ideia. E é nessa situação de descompromisso, em que há mais tempo disponível, que os desenhos correm melhor. O que nos move é o processo e o gosto”, destaca Mário Linhares.

Curioso é apreciar o mesmo local registado por mãos diferentes. Pois “o desenho é uma espécie de caligrafia, nunca é igual”, frisa José Louro. E neste processo de criação, “o critério de semelhança é apenas um”, acrescenta o designer, que assume preferir “um traço mais rápido e simples”.

Mário usa caneta ou lápis, uma caixa pequena de aguarelas e um pincel com reservatório de água. José Louro prefere a caneta preta de feltro, material “de supermercado, o mais simples possível”. Pedro usa lápis de cor, que cortou ao meio para caberem numa caixa de tabaco. Em comum, os três autores não dispensam os cadernos de capa dura.

“A vantagem dos cadernos, em vez das folhas soltas, é que deste modo mantemos o momento. O facto de ser um caderno permite-nos criar um diário, que conta a história, muitas vezes também com legendas”, diz Mário Linhares, enquanto folheia o seu livro e exibe desenhos que se complementam na folha dupla. “Acaba por estar ali o próprio percurso e o tempo que se passa a desenhar”, que é mais lento do que o da fotografia,  acrescenta Pedro Cabral.

Por estarem em voga, os cadernos de capa dura também ajudaram a lançar o movimento, admite José Louro. “Moda ou não, a verdade é que, desde há dez anos, são cada vez mais as pessoas a desenhar.” E no blogue dos Urban Sketchers Portugal há hoje mais de 300 autores a publicar diários gráficos.

Encontro na Assembleia

Aos encontros livres que os Urban Sketchers Portugal organizam, com uma regularidade bimensal, chegam pessoas de todas as idades e formações, muitas vezes de improviso. Outros há que exigem inscrição prévia. É o caso do encontro agendado para o próximo dia 28 de abril, que lança o desafio de desenhar as diferentes ruas que desembocam na Assembleia da República (AR), em Lisboa.

“É preciso confirmar, pois as pessoas serão distribuídas pelas ruas e cada uma terá um percurso para desenhar”, explica Mário Linhares. O encontro final será na escadaria da AR e o resultado dessa viagem será exibido em exposição na Fundação Mário Soares.

Destes encontros, que muitas vezes também fogem ao espaço urbano, ficam sempre “boas recordações”. José Louro destaca, pelo inesperado, a ida a “uma matança do porco, em Reguengos de Monsaraz, onde foi muito curioso estar a desenhar envolto em todo aquele cenário, com o barulho que acompanha o ritual da matança”. Inspirador “foi também o segundo simpósio internacional, que juntou mais de 200 urban sketchers de todo o Mundo em Lisboa”. 

Para Mário Linhares foi marcante o dia em que 400 pessoas se juntaram na capital portuguesa para desenhar o Terreiro do Paço. “Foi um momento fantástico. Lisboa tem vistas únicas, uma luz muito limpa e uns cambiantes, umas sombras, que vão mudando ao longo do dia. Toda as pessoas ficam fascinadas quando aqui chegam.”

A estes momentos, Pedro Cabral soma todos os outros. “Gosto particularmente de voltar aos cadernos e revisitar os desenhos. É muito intenso, cria-se uma relação que nunca se apaga. E um caderno nunca se vende. É nosso.”

Urban Sketchers Lisboa
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