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Os milhões que alimentam o terror

O Estado Islâmico é uma organização milionária com fontes de rendimento capazes de alimentar uma guerra sem fim.
Francisco J. Gonçalves 31 de Maio de 2015 às 16:30
Estado Islâmico
Estado Islâmico FOTO: Reuters

Quando, em 2003, os EUA invadiram o Iraque sob falsos pretextos foram na verdade em busca de uma fonte de petróleo capaz de reduzir a dependência da Arábia Saudita. Torna-se, por isso, especialmente irónico que doze anos volvidos um grupo nascido no Iraque, em parte financiado por vendas de petróleo e por dinheiro saudita, seja considerado a maior ameaça aos EUA desde a al-Qaeda e a sua suposta ligação ao Iraque de Saddam Hussein. Como costuma dizer-se, isto está tudo ligado.


E a ligação de tudo isto remonta justamente à invasão do Iraque de março de 2003.


O imenso descalabro dessa guerra pode resumir-se assim: a vitória sobre um enfraquecido exército iraquiano gerou triunfalismo em Washington e levou a administração Bush a destruir quanto nas estruturas militares e governativas estivesse ligado a Saddam. Poderia parecer lógico e justo, mas como no Iraque o regime era o sustentáculo de tudo, o vazio de poder e a ausência de estruturas administrativas criaram o caos e lançaram as raízes da guerra civil que dura ainda.


Segundo a maioria dos analistas, o autodesignado Estado Islâmico (EI ou ISIS) nasceu deste caos e foi alimentado pela revolta dos oficiais de Saddam, que se viram despojados de poder e influência.


Uma reportagem da revista alemã ‘Der Spiegel’ vai mais longe e nomeia o alegado arquiteto do ISIS. Trata-se de Samir Abd Muhammad al-Khlifawi, ou Haji Bakr.


Terá sido este antigo coronel dos serviços secretos iraquianos a delinear tudo, desde a escolha de Abu Bakr al-Baghdadi para a chefia nominal, até à hierarquia de poder no grupo, passando pelos mais pequenos detalhes: como a forma de obter informações, de conduzir a guerra, a estratégia de terror mediante massacres e decapitações, a forma de recrutar seguidores e de obter financiamentos.


Neste último setor, a extorsão ocupa lugar de relevo.


EXTORSÕES E ROUBOS  

De acordo com o ‘The New York Times’, o ISIS recolhe cerca de um milhão de euros por dia em extorsões e ‘impostos’, sendo estes aplicados aos salários de funcionários e a empresas nas áreas sob controlo do grupo, tanto no Iraque como na Síria.


Em 2014, esta forma de financiamento terá representado 550 milhões, bem acima das receitas da venda de petróleo, que terão dado ao ISIS cerca de 92 milhões de euros.


Os roubos de bancos iraquianos terão sido a segunda maior fonte de receita, rondando os 460 milhões. Menos impressionantes, mas significativos, são os rendimentos de raptos e resgates: cerca de 18 milhões de euros.


O que o jornal não diz é o que neste bolo pesam os apoios de países como o Qatar e a Arábia Saudita, talvez porque esse apoio não tem existência oficial. Desde logo, porque os EUA nunca poderiam admitir o facto sem pôr em causa a aliança firmada com o Reino desde a descoberta de petróleo e o início da exploração das vastas reservas de ouro negro sauditas, em 1941.


Mas, em privado, a ligação saudita ao terrorismo nada tem de misterioso, como revelam documentos divulgados pela WikiLeaks. É o caso de um memorando de dezembro de 2009 da então secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, no qual se lê: "A Arábia Saudita continua a ser uma fonte crucial de apoio financeiro da al-Qaeda, dos taliban, do LeT [Lashkar-e-Taiba, do Paquistão] e de outros grupos terroristas."

Nos dias que correm diz-se, contudo, que o ISIS se tornou um embaraço para os sauditas, que por isso tentam agora, talvez demasiado tarde, dominar o ‘monstro’ que alimentaram.


Mas não é líquido que assim seja. Com a guerra no Iémen a ganhar força, a querela entre sunitas e xiitas ameaça as fronteiras do Reino. Sendo assim, os sauditas têm muito a ganhar com a instabilidade no Iraque e na Síria, pois pode servir-lhes de ‘moeda de troca’ para controlar o apoio do Irão à revolta dos houthis (rebeldes xiitas) no Iémen. Mas para os sauditas fazerem isto precisam de controlar a guerra na Síria e no Iraque, o que lhes é negado pela desmesurada ambição do ISIS. Se neste novo xadrez geoestratégico do Médio Oriente tudo são incertezas, uma coisa parece certa: o poder militar do Estado Islâmico.

PODER MILITAR

Após a recente queda da cidade milenar de Palmira nas mãos do grupo, o facto foi reconhecido por militares sírios, que descrevem um exército rebelde moderno e bem equipado. Artilharia pesada, colunas de blindados, baterias móveis de mísseis e muito mais explicam a relativa facilidade com que o ISIS submeteu o Norte do Iraque no verão de 2014 e também como neste mês tomou Palmira, na Síria, e Ramadi, capital de al-Anbar, a maior província do Iraque.


No caso do Iraque, repete-se que o problema reside na fraqueza, desorganização e desmotivação das tropas governamentais; no caso da Síria destaca-se a falta de recursos das forças do regime de Bashar al-Assad, esgotadas por quatro anos de guerra. Mas isto dá-nos apenas um lado da questão. O outro, mais perturbador, é o poder de um ‘exército’ rebelde que revela uma nova face do jihadismo, diferente em quase tudo do que foi a al-Qaeda de Osama bin Laden.


Um exemplo desse poder é a tomada de Ramadi. Um artigo do ‘The Wall Street Journal’ mostra que a arma mais poderosa nessa conquista foi a sofisticação tática de um ‘exército’ capaz de recuar e ocultar-se nas sombras, quando necessário, para ressurgir com força renovada.


Para o assalto a Ramadi o ISIS entrou em ‘blackout’ noticioso em abril e iniciou em segredo uma deslocação de guerrilheiros da Síria que cruzaram a fronteira em carros civis. O ataque à cidade foi antecedido por vagas sucessivas de atentados suicidas e a explosão de 27 veículos armadilhados. Entre eles havia megabombas montadas em tanques americanos capturados, que arrasaram as barreiras de betão e puseram em fuga as tropas iraquianas.


Como se a vitória não bastasse, o ISIS fez da ofensiva arma de propaganda e revelou que alguns suicidas eram muçulmanos britânicos. Verdadeiro ‘choque e pavor’, que provam que o ISIS não é a nova al-Qaeda. É, como escreveu Christoph Reuter, "o exército terrorista mais bem-sucedido da história recente".
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