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Outras formas de fazer turismo

No Algarve é possível ver aves em vez de praias lotadas, o Porto vê-se de Segway e em Lisboa os fantasmas contam a sua história.
24 de Junho de 2012 às 15:00
À noite, um actor narra as histórias de uma Lisboa assombrada
À noite, um actor narra as histórias de uma Lisboa assombrada FOTO: João Miguel Rodrigues

Debaixo do arco da rua Augusta, meia dúzia de rostos solenes esperam indicações. Em redor há folia e confusão, fruto das comemorações do Santo António e do concerto de Tony Carreira que dali a poucas horas se realizaria no Terreiro do Paço, no meio de uma horta improvisada em pleno coração da cidade. Passam ovelhas e ranchos folclóricos. Sistemas de som e queijos da Beira. Só aquele grupo permanece quieto e calado, indiferente a tudo isso. Procura outra coisa: fantasmas!

Turistas franceses, turcos e portugueses estão ali reunidos graças à Ghost Tours (www.ghost-tours-portugal.pt), jovem empresa criada em 2011 que se dedica à organização da Haunted Lisbon Tour, ou seja, um passeio nocturno a pé em que actores narram os acontecimentos mais impressionantes da história da capital portuguesa nos últimos séculos. As histórias são reais e foram repescadas durante uma pesquisa que durou meses nos arquivos da Torre do Tombo.

O tour dura cerca de uma hora e meia, da rua do Comércio ao Rossio, com subida ao Castelo, e vale muito a pena. Em recantos obscuros (alguns privados, como o Pátio do Carrasco, junto à Sé), encena-se a história de antepassados célebres dos alfacinhas como Manuela de Zamora, a maior ladra de Lisboa, que vivia junto ao largo do Correio-Mor; a matreira Giraldinha das Escadinhas de São Cristóvão; o sanguinário Matos Lobo, último condenado à morte em Portugal; Luís, o Negro, o impiedoso carrasco da prisão do Limoeiro; ou a desafortunada Catarina Maria, torturada e queimada viva no Rossio.

Pelo caminho sinuoso da mais bela das colinas, o tour atrai atenções, miúdos e graúdos que se colam ao grupo, presos pelo tom decrépito da narração. No final, enquanto Rita, portuguesa, ainda digere a seco a barbárie da inquisição, o turco Ozas Ozvatan, 23 anos, congratula-se: "É totalmente diferente conhecer uma cidade assim… E muito mais interessante!"Pagou 15 euros e está feliz.

Sem assombros, mas também a pé, é possível conhecer uma Lisboa com muitas outras nuances. Sandra Montez, guia-intérprete oficial, é especialista nestas tours de meio dia, que são essencialmente procuradas por "estrangeiros do Norte e Centro da Europa". Um das propostas (www.entre-destinos.pt) é um passeio por algumas das mais antigas lojas e cafés no coração da Baixa. A descoberta começa no Rossio, na chapelaria Azevedo Rua, casa de chapéus e capelines de charme nascida em 1886, que preserva nas suas entranhas o mobiliário original. Está nas mãos da família que a fundou há cinco gerações. As funcionárias, Teresa e Mafalda, respiram orgulho: "A loja é tão bonita que os turistas entram só para a ver."

Sandra Montez justifica a procura de quem quer informação diferenciada e com qualidade: "Portugal é um país de fim de linha. As pessoas quando cá vêm já visitaram muitos outros lugares antes e, por isso, já procuram uma informação especializada". Outros percursos mostram o património judaico da capital, seguem os passos dos grandes poetas nacionais, os trilhos dos eléctricos e funiculares ou ainda a Lisboa dos Descobrimentos. O preço ronda os 18 euros por pessoa, pois varia consoante o número de pessoas que integrem o grupo.


A próxima paragem é na mítica Ginginha do Rossio, outra casa de meados do século XIX, onde a pergunta "com ou sem?" – ginja, entenda-se! – faz as delícias de quem experimenta. Metros mais à frente, na Manteigaria Silva, as honras pertencem ao bacalhau que tanta curiosidade desperta a quem vem de fora. Segue-se o Hospital das Bonecas, em plena praça da Figueira; a Confeitaria Nacional, que os turistas invadem à procura de pastéis de nata; a Casa Macário, na rua Augusta, onde se aproveita para contar o papel de Catarina de Bragança na introdução do chá em Inglaterra; a tabacaria Mónaco, que ainda conserva os originais azulejos de Rafael Bordalo Pinheiro e as linhas que serviam o primeiro telefone público da cidade, ali instalado. A caminhada termina nas Vellas do Loreto, na rua do Loreto, onde se fizeram as primeiras iluminações públicas de Lisboa.

À MARGEM

Mas esta é apenas uma das mil e uma maneiras de conhecer Portugal à margem dos circuitos tradicionais. Fora das correrias das cidades lotadas, das praias cheias e das noites barulhentas, no Algarve pode ver-se o que há de melhor na natureza, com toda a calma do mundo: chama-se birdwatching. De Castro Marim a Sagres, passando pela lagoa dos Salgados, em Albufeira, ou mesmo no interior da serra do Caldeirão, entre inúmeros outros locais, o guia Georg Schreier mostra as quase 400 espécies de aves que ali vivem.

O alemão de 44 anos, birdwatcher há 30, e há seis a viver na região, foi um dos primeiros guias desta especialidade no Algarve. "É um turismo de nicho, e eu faço visitas detalhadas, com observações de qualidade", explica o ex-professor de biologia e geografia no seu país de origem, que agora só se dedica ao birdwatching. Flamingos, alfaiates, garçotes, pernilongos e caimões são apenas algumas das espécies que Georg consegue reconhecer apenas pelo som que fazem.

A informação é dada automaticamente, e de cabeça, aos turistas, que vão fazendo check-in na sua lista por cada espécie que vislumbram. "São mais alemães, ingleses e holandeses. Portugueses ainda há poucos, mas o interesse tem crescido", assume Georg. A informação acerca das visitas pode ser encontrada no site www.birdwatching-algarve.com, com os preços a variarem entre os 85 euros por uma manhã para duas pessoas e os 200 euros por um dia inteiro para quatro ou mais pessoas.

Com barcos a sair de Faro, Olhão e Tavira, a Formosamar mostra a zona protegida da Ria Formosa: a paisagem e os animais, com explicação detalhada por pessoal formado. Embarca--se num barco tradicional de pesca, com mais de 50 anos, renovado para agora ver os peixes, em vez de os pescar.

A saída dá-se da doca de Faro e, passada um hora de viagem, chega-se à barra de São Luís. Pelo caminho, o skipper Carlos Pimenta, que desde criança brinca nas margens da Ria Formosa, explica as características da Ria, dos ilhotes, da fauna e da flora que lá habitam. "Quero que as pessoas saiam daqui com conhecimento e que percebam que é uma zona especial", realça Carlos Pimenta.


"Este é apenas um dos nossos programas. Há viagens mais longas em catamarã, caiaque e visitas específicas, onde biólogos mostram viveiros de ostras, de amêijoas e até golfinhos", conta Paulo Nugas, responsável da Formosamar. Uma viagem pode custar 20 euros, mas existem ofertas mais completas, que chegam aos 80 euros (ww.formosamar.com).

INVICTA VAI DE SEGWAY

Conhecer a cidade do Porto usando uma Segway pode parecer estranho, mas já é realidade há dois anos. "Éramos a única empresa na cidade, e até no país, a fazer circuitos de bicicleta no centro histórico. Depois alargamos para as Segways. O objectivo era transformar o Porto num destino low cost, mas de excelência", explica Ângelo André, da Bluedragon City Tours, que começou a operar em Maio de 2010, e que fornece serviços turísticos a pé, de bicicleta ou de Segway.

A novidade da Segway é, diz, "poder ir a todo o lado". A Segway é um equipamento eléctrico, com duas rodas, cuja bateria tem a capacidade de percorrer 38 quilómetros por dia e atinge uma velocidade máxima de 20 quilómetros por hora. Um passeio custa, em média, 50 euros. "Não são os jovens que aderem mais. A idade média dos clientes é entre 45 e 50 anos, por causa do preço", lembra. Do total de clientes que tem, só 2% são portugueses. "Temos muitos australianos, canadianos, holandeses, britânicos e americanos", enumera.

Há vários percursos, com acompanhamento de guias: Porto Clássico (o mais requisitado, por percorrer o centro histórico), Natureza, Arquitectura Contemporânea, Parques e Jardins, Observação de Aves ou até um Safari Fotográfico. "O percurso Porto Clássico dura três horas, mais meia hora de adaptação à máquina. Paramos na livraria Lello, na estação de São Bento, no Mercado do Bolhão e na Sé. O essencial foi unir a componente teórica à animação. As pessoas não pagam para ter aulas de história", contou.

Os clientes chegam maioritariamente através de pesquisas na internet. "95 a 98% reserva o passeio antes de chegar ao Porto", refere. Foi o caso de Richard e Bernadette O’Shea. Ele, capitão de barco, e ela, enfermeira, vieram de Skerries, uma pequena cidade perto de Dublin, capital da Irlanda.

"Sempre quisemos visitar o Porto pela herança náutica", contou Richard. Adaptaram-se sem dificuldade à Segway e conheceram o centro numa manhã tipicamente chuvosa. "Foi excelente. É uma cidade de carácter e tradição", acrescentou Bernadette.


No Porto on the Run, para quem quer conhecer a cidade a correr, também há vários destinos. Os responsáveis são Vítor Dias, técnico de informático de profissão, e João Meixedo, professor. Ambos são também maratonistas. Não se intitulam de guias turísticos e comparam o seu trabalho ao de "um taxista".

Não têm clientes portugueses, mas de vários pontos do Mundo. "Vêm da Costa Rica, Canadá, Irlanda, Inglaterra. A faixa etária é entre 30 a 50 anos. Já tivemos casais e pessoas que já fazem este tipo de percurso noutras cidades. Tivemos uma corredora canadiana que já tinha feito sete viagens assim." Há vários percursos à escolha, a duração é de uma hora e vinte minutos cada e custa 20 euros, das 08h00 às 20h00. O ritmo da corrida é à escolha dos clientes. "Chamamos corrida, mas é mais uma caminhada. Vamos num trote ligeiro, em que se consegue conversar", elucidou Vítor Dias. O limite é a curiosidade de cada um.

OS MAIS BELOS RECANTOS DA CHINATOWN LISBOETA

Muitas das visitas não são feitas por guias oficias, mas por pessoas ligadas à comunidade. A associação Renovar a Mouraria, por exemplo, mostra a Chinatown alfacinha, por entre os segredos escondidos de lojas, quiosques, spas, centros de medicina tradicional chinesa e até a redacção de um jornal em mandarim. Custa 10 euros por pessoa e promete dar a experimentar o pulsar daquele que é um dos bairros mais sui generis da capital, pelo ‘melting pot’ de gentes e culturas.

Os relógios públicos de Lisboa, as vielas de Alfama, os antigos conventos do Bairro Alto, a vida dos poetas alfacinhas e os incontornáveis eléctricos de Lisboa, entre outros encantos da capital, servem de mote aos passeios temáticos da EuAmoLisboa, que são acompanhados por investigadores. As inscrições são feitas na página do grupo no Facebook.

NOTAS

FANTASMAS

Por 15 euros, os fantasmas de Lisboa mostram-se aos mais corajosos visitantes.

FOTOS

Na Mouraria, os comerciantes orientais são avessos às fotografias dos turistas.

AVES

O biólogo e guia turístico Georg Schreier reconhece as espécies só pelo barulho que fazem.

ALGARVE

Por 80 euros prova-se ostras e e bebe-se champanhe num barco, ao pôr-do-sol.

DE FORA

A esmagadora maioria de quem procura estes passeios é estrangeira.

Porto Segway Lisboa Alfama Chinatown
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